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Manifestação Pacífica no Complexo do Alemão se Torna Noite de Terror Policial

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Uma manifestação inicialmente pacífica, realizada no Complexo do Alemão na noite do dia 11 de março, acabou quando a polícia disparou tiros e gás lacrimogêneo. O que degenerou em uma operação intensa da Polícia Militar que durou muitas horas. O protesto foi organizado por amigos e família de dois jovens presos sob suspeita de envolvimento com tráfico de drogas.

Os detidos, Kleyton da Rocha Afonso e Hallam Marcílio Gonçalves, foram presos no dia anterior em uma operação conduzida pela polícia civil do Rio de Janeiro para capturar os traficantes e suspeitos da morte do policial Rodrigo de Souza Paes Leme da UPP na quinta-feira anterior, 6 de março. Os jovens não tinham registros criminais, e os amigos e famílias dos meninos denunciaram as detenções como arbitrárias e injustas.

O protesto começou por volta de 17:00 hs, quando um grupo de jovens, alguns ainda vestidos de uniforme de escola pública, juntou-se na entrada da comunidade Grota, no Complexo do Alemão. Os manifestantes jovens, amigos dos presos, mostravam faixas com frases tais como “Pacificação ou Opressão?” e “Paz, Justiça e Liberdade para Kleyton e Hallam”. A multidão cresceu, incluindo os moradores de todas condições—pais, filhos, garis e alunos—e policiais da UPP.

Com o apoio dos moto taxistas, os manifestantes pararam o trânsito na estrada principal, Estrada de Itararé. O grupo de jovens gritou Deixem nossos amigos passarem” enquanto os mototaxistas buzinaram em apoio. O clima foi barulhento, mas animado, e em um momento os manifestantes cantaram a música funk clássica, ‘Rap de Felicidade’: “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci…”

Policiais da UPP formaram uma linha entre manifestantes e o trânsito parado, e tentaram convencer os manifestantes a desobstruir a estrada. Por volta de 18:00 hs, uma confusão intensa começou, que iniciou com o som de tiros. Os policiais dispararam gás lacrimogêneo e spray de pimenta contra a multidão, que incluía crianças e mulheres grávidas. Manifestantes aterrorizados e espectadores fugiram do gás lacrimogêneo em todas as direções, sem saber se as balas eram verdadeiras ou de borracha.

Mototaxi drivers blocked the main road. Photo by Charlotte Livingstone

Os jornalistas cidadãos, ativistas e outros moradores faziam reportagens na mídia social, enquanto a Polícia Militar aterrorizou a comunidade por muitas horas. Fontes policiais citadas no site do Globo G1 alegaram que um manifestante supostamente atirou no ar, incitando a enorme operação, que incluiu tiroteios por toda a comunidade, helicópteros voando por cima e a cessação de transporte através das ruas e o teleférico. Membros da comunidade, preocupados, reportaram a chegada da BOPE, a CORE (Coordenadoria de Recursos Especiais) e o caveirão, um tanque blindado usado em incursões violentas nas favelas. Pelo menos dois residentes ficaram feridos; um jovem, Rodrigo Felipe, foi baleado no pé por um policial da UPP usando balas letais, não balas de borracha, como relatado em algumas fontes. No entanto, os grandes meios de comunicação relataram os eventos, culpando os moradores e diminuindo a violência realizada pelas forças de segurança do Estado.

Ao mesmo tempo em que a operação era realizada, moradores da abastada Barra de Tijuca, na Zona Oeste, estavam assistindo uma pré-exibição do novo filme fictício, Alemão, que dramatiza a ocupação policial do Complexo do Alemão em novembro de 2010.

Residents and UPP police. Photo by Charlotte Livingstone

Um ativista do coletivo Ocupa Alemão, Raull Santiago, alertou no Facebook que ele e muitos outros residentes haviam sido filmados por policiais durante o protesto, acrescentando que, Neste momento, vários canais de comunicação hegemônicos estão dizendo que o protesto foi organizado por traficantes e a Polícia Civil está investigando o protesto! Eles vão tentar deslegitimar este protesto brilhante, que só não terminou bem causa da Polícia Militar si, que mais uma vez levou a cabo o abuso,a violência, o desrespeito e a covardia”. Tendo recebido ameaças no passado por denunciar abuso policial, ativistas estão preocupados se poderão enfrentar vingança e que suas vozes críticas seja silenciada.

O Complexo do Alemão foi ocupado pela Polícia Militar e o exército em novembro de 2010, e a UPP foi instalada em 2012. Segundo o Governador Sérgio Cabral, como citado no site da UPP, o objetivo do programa UPP é: “Combater facções criminosas e devolver à população a paz e a segurança”. Porém, os acontecimentos da noite de terça-feira indicam que em certas favelas, longe de ser um exemplo sossegado e inovador de policiamento comunitário, é uma continuidade disfarçada do policiamento militar violento que os moradores das favelas têm experimentado por décadas.

Nos últimos meses, a violência há aumentado nas áreas da UPP, particularmente na Zona Norte. Três policias e vários residentes morreram, e violações de direitos humanos pela Polícia Militar são relatadas regularmente através de jornalismo cidadão em redes sociais, embora não na grande mídia. O Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, reagiu ao anunciar no domingo que ele está preparado para “reocupar” as áreas onde a pacificação tem sido a mas problemática, incluindo o Complexo do Alemão, enfatizando que ele pode chamar o exército para reforço. Ativistas de direitos humanos estão preocupados com o que isso pode significar para os 70 mil moradores das 15 comunidades do Alemão.

Um dia depois, moradores relataram vários abusos de autoridade policial. Conforme a moradora e ativista Thainã de Medeiros, isso inclui “várias denúncias: tapas na cara, apreensão de motos, agressão verbal e muito mais”.

Ativistas e grupos comunitários estão exigindo diálogo, um repensar da política da UPP, e muitos pedem a desmilitarização da polícia. Era evidente na terça-feira que a política UPP está longe de cumprir a promessa de devolver a cidadania aos moradores das favelas do Rio.

As palavras inspiradoras de um ativista presente na manifestação resume a noite: “Antes de sofrer ataques covardes da Polícia Militar, diversos grupos de moradores saíram as ruas para exigir respeito, exigir que sejamos realmente capazes de andar livremente na favela onde nascemos. Parabéns Alemão! Favela é Resistência! Eles não irão calar a gente!”

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Reportagens adicionais da Voz das Comunidade e o coletivo Ocupa Alemão.

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