Últimas Notícias

Conheça os Museus Comunitários do Rio de Janeiro

Click Here for English

O Rio de Janeiro está investindo cada vez mais na infraestrutura de seus museus, com três museus novos de categoria mundial, nos últimos anos inaugurados ou programados: o Museu de Arte do Rio, que abriu em 2013 na histórica zona portuária; o Museu da Imagem e do Som, programado para a Av. Atlântica e o controverso Museu do Amanhã, também no Porto da cidade. Todavia, o Rio também possui alguns museus comunitários, incrivelmente inovadores e fascinantes que reinventam a ideia convencional da museologia, tal como as comunidades onde eles estão localizados, que têm ardentemente desafiado e superado às convenções dos bairros formais, sem quase ter ajuda do Estado. Esses museus misturam o passado, presente e futuro, dando uma grande importância à manutenção das memórias, mas também olhando para o futuro, ou como está escrito em um muro da Estrada da Gávea na Rocinha: “com os pés plantados firmemente para a frente e a cabeça olhando para trás’’.

MUF – Museu de Favela

O Museu de Favela (MUF), nas comunidades do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, com vista para as praias de Copacabana e Ipanema, foi fundado em 2008, um ano antes da instalação da UPP nas duas comunidades. O MUF é um museu territorial, onde a extensa massa de casas habilmente construídas é a exposição e “o acervo são cerca de 20 mil moradores e seus modos de vida, narrativos de parte importante e desconhecida da própria história da Cidade do Rio de Janeiro’’. O museu está vivo, no sentido de que está crescendo e mudando constantemente com a comunidade e os seus moradores.

Houve uma tentativa da Prefeitura em 2007 de criar um museu ‘’a céu aberto’’ na Providência, a favela mais antiga do Rio, mas não houve mais investimento ou iniciativa das autoridades para que se desenvolvesse. Em vez disso, hoje em dia os moradores da Providência estão organizando o seu próprio museu.

O MUF, no entanto, é uma crescente iniciativa de um grupo de moradores que se uniram para documentar e reconhecer a história da comunidade, criando ‘’o primeiro museu territorial da favela do mundo’’, levando os visitantes em excursões sistemáticas com o objetivo de gerar desenvolvimento urbano, cultural e socioeconômico alcançando todos os moradores e simultaneamente convidando as pessoas de todas as nacionalidades para conhecer o rico patrimônio cultural e histórico.

A visão do MUF é tentar transformar a comunidade em um ‘’monumento turístico carioca’’ para compartilhar a história que há por trás da formação das favelas e a migração nordestina, as origens culturais do samba e da capoeira e outros acontecimentos mais modernos como a arte urbana. Em contraste com outras formas degradantes de turismo nas favelas, onde os moradores ou as casas deles são observadas a partir da segurança relativa de Jeeps descobertos, o MUF oferece tours na favela, nos quais os turistas podem interagir com a comunidade em um nível mais pessoal e testemunhar os importantes laços comunitários que se espalham por toda parte.

Ao contrário de alguns museus territoriais, o MUF também tem uma sede. Nela, organizam-se eventos culturais como exibições de capoeira e projeção de filmes com a ajuda de voluntários, brasileiros e estrangeiros, através dos vínculos com a PUC e UFRJ. Oli Moraes, um voluntário australiano da PUC, diz, “A localização do MUF, no centro do Cantagalo, possibilita que as pessoas de fora da comunidade e os próprios moradores possam compartilhar e presenciar a história e cultura da comunidade. Desde o primeiro dia que colaborei com o MUF tenho me sentido muito bem-vindo e em casa. As pessoas que conheci aqui têm mudado a minha percepção do Rio’’.

Uma outra prioridade do MUF é fomentar a redução de resíduos. Eles recolhem e reutilizam as sacolas e as embalagens de lojas de Ipanema e outros prédios perto da favela. Também têm uma loja, que vende lembranças ecológicas feitas por artesãos locais. Visite o MUF no Facebook.

Museu do Horto

O Museu do Horto também tinha um lugar onde organizar eventos, mas só até recentemente. Durante o século 19, os trabalhadores do Jardim Botânico tiveram permissão de construir nos limites do Jardim, e foi assim que nasceu a comunidade do Horto. Muitas das famílias que moram lá hoje são descendentes diretos desses trabalhadores e estão lutando pela permanência desde 1990, quando o Jardim Botânico pediu a devolução das terras alegando, falsamente, invasão de terras. Recentemente, a comunidade já perdeu o Clube Caxinguelê nesta luta, que era um espaço de lazer construído na década de 50, que o Museu do Horto e a comunidade em geral usavam para os seus eventos. O clube foi confiscado pelo Jardim a fim de abrir espaço para uma nova estufa.

Por enquanto, o museu é territorial e virtual. O museu virtual reúne textos, fotografias e vídeos alinhando-os com temas de músicas e esportes com a resistência política. O arquivo virtual das memórias é vital para reter a história da comunidade e afirmar os direitos dos moradores. Com o objetivo social baseado na ‘’nova museologia’’, o museu pretende repensar a ideia de um museu tradicional. De acordo com o morador e coordenador do museu, Emerson de Souza, eles estão criando ‘’uma forma mais dinâmica e participativa” em um lugar onde há ‘’uma necessidade real de conservar a cultura da comunidade que sofre com a especulação e a conseqüente destruição da sua terra, habitantes e cultura’’. Visite o Museu do Horto no Facebook.

Museu da Rocinha Sanfoka

Assim como o MUF e o Horto, o Museu da Rocinha Sanfoka é principalmente territorial e a sua filosofia baseada na ‘’nova museologia social’’. Em 2004, durante a presidência do Lula, o Ministério da Cultura iniciou o programa Cultura Viva, promovendo iniciativas em favor da diversidade cultural no Brasil. Desde a sua fundação, o Sanfoka está em um processo de construção de um Ponto de Memória e Cultura e trabalha em diferentes frentes. Antonio Firmino, um dos coordenadores do museu, acredita que é muito importante ter um espaço fixo e, atualmente, eles estão usando a Biblioteca Pública da Rocinha para ‘’uma exposição fotográfica onde estão sendo exibidos retratos de vendedores ambulantes atuais e do começo do século 20 na Rocinha’’.

Novamente, como o MUF e Horto, o Museu Sankofa compila e documenta as experiências e memórias dos moradores mais velhos, com um interesse especial nos depoimentos das mulheres. Antônio diz: ‘’As pessoas costumam basear a história em fatos e números, mas uma história que nega a oralidade nega também a realidade’’.

Territorialmente, o museu também é muito ativo. Eles promovem a arte urbana e a sua explicação histórica; um dos mais atuais projetos é a história da Rocinha em grafite em um grande muro na Estrada da Gávea. Eles também estão trabalhando nas ‘’visitas históricas guiadas’’, como as chama Antônio, para levar grupos através da favela e explicar a história que há atrás da abundante arte urbana e os diferentes pontos culturais e históricos relacionados, e, de maneira mais importante, como acontece com o MUF e o Horto, permitir que os visitantes entrem e interajam com a comunidade.

O Sanfoka também defende, como os demais museus já citados, a importância de se ater às memórias para poder olhar para o futuro. Antonio explica: ‘’Precisamos relembrar e recuperar o nosso passado para podermos caminhar para frente, assim podemos entender como e por quê chegamos a ser o que somos hoje em dia’’. Visite o Sanfoka no Facebook.

Museu da Maré

O Museu da Maré, situado na Zona Norte do Rio, conta a história extraordinária do maior complexo de favelas da cidade. A parede que fica na entrada do museu diz: ‘’Se a vida se conta em anos, dias e horas, em relógios e calendários, neste museu é contado através de períodos onde nada fica terminado e o todo está em transformação. O passado, o presente e o futuro coexistem nos períodos de água, resistência, moradia, trabalho…’’. O museu apresenta 12 aspectos da história e vida da favela, desde a fé até o medo, com descrições pintadas nas paredes ao lado de artefatos, fotografias, reconstruções de casas típicas da favela e até uma passarela instável de madeira usada pelos moradores das casas na beira da Bahia de Guanabara nos momentos de inundações. Os artefatos, videos e fotografias do Museu foram o núcleo da exibição ‘’Design da Favela’’ no Studio-X Rio.

Higor Antônio, estudante de história, pesquisador, professor e morador da Maré por toda sua vida, dá muita importância que ‘’as novas gerações possam ter contato direto com o passado, para construir e fortalecer uma identidade local’’. O projeto do Museu da Maré permite aos moradores‘’ lembrar os tempos de sofrimento e o início da construção do que hoje todos conhecemos como Maré’’. O museu também facilita que os moradores lembrem e entendam o que fizeram os seus parentes e amigos num clima constante de adversidade e ameaça de violência ou remoção, o que fez possível que a comunidade seja o lugar vibrante que é hoje em dia. Visite o Museu da Maré no Facebook.

Pretos Novos

O Instituto Pretos Novos, situado na Gamboa na Região Portuária, foi criado em memória dos milhares de escravos africanos, alguns deles menores de 15 anos, que morreram durante ou depois do turbulento cruzamento do oceano, antes de serem vendidos e submetidos à escravidão. Os corpos deles foram enterrados em massa num cemitério que é considerado o maior lugar de enterro de escravos das Américas, com mais de 30.000 sepultados. Em 1996, depois de comprar uma casa na Zona Portuária, Petrúcio e a Maria de la Merced Guimarães descobriram ossos humanos enquanto faziam reformas na sua nova casa. Depois de ligarem para a polícia e posteriormente para arqueólogos, perceberam que sua nova casa foi construída num sítio arqueológico muito trágico, e decidiram fundar o museu para honrar a memória dos ‘’Pretos Novos’’ ou os recém-chegados escravos.

‘’É um lugar de memória e respeito da história que tem sido ocultada durante 200 anos… É importante que as pessoas não esqueçam’’, disse a Merced. ‘’Representa um crime contra a humanidade’’.

O museu conta a história emotiva dos Pretos Novos através das paredes, cheias de fotos, um documentário curto e duas escavações no chão onde ainda podem ser vistos restos humanos com os crânios quebrados pela forma que foram enterrados. É uma experiência muito atormentadora e que todo o mundo deveria presenciar. Segundo Maria, uma desgraça como essa, que tem prejudicado tanto à historia brasileira e que ainda pode se sentir na sociedade, cultura e economia do Rio, não pode ser esquecida. Visite o Instituto Pretos Novos no Facebook.