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A Música Clássica Não Morreu: Orquestras Trazem Novas Perspectivas Para Juventude na Favela

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As mães do Complexo da Maré se preocupam com o tempo livre de seus filhos quando eles são liberados da escola ao meio-dia. Encaminhados para casa antes do almoço e com uma tarde inteira sem atividades programadas, as crianças correm perigo de serem introduzidas em atividades não-produtivas.

Para compensar a ausência do Estado, organizações da sociedade civil oferecem atividades e clubes no período da tarde para apresentar novas vocações para os jovens da favela ou simplesmente oferecer um passatempo para ocupar a atenção das crianças que estão ociosas.

No turbilhão de música que sai das favelas, as atividades pós-escolares voltadas para gêneros brasileiros, como funk, samba e forró são muitas vezes apresentadas como alternativas atraentes para a vida nas ruas. A música clássica é geralmente descartada por ser considerada pouco atraente, inacessível ou elitista.

É nesse contexto que Carlos Eduardo Prazeres e o Projeto Estrada Cultural criaram a Orquestra Maré do Amanhã, com o objetivo de treinar músicos profissionais. A filosofia do projeto é que qualquer pessoa, independentemente da sua experiência passada ou da sua cor de pele, pode se tornar um advogado ou um médico, ou um violinista clássico.

A primeira orquestra ensaia três vezes por semana em uma escola pública na Vila da Maré e se apresenta ao vivo semanalmente. Há também aulas para iniciantes e atividades recreativas para introduzir a música clássica para as crianças. Luan, um estudante de 16 anos na escola Operário Vicente Mariano na Maré, foi introduzido pela primeira vez à música clássica pela orquestra.

“Eu comecei a tocar viola, há dois anos, no início do projeto”, disse ele. “Por que eu me envolvi? Eu me inscrevi no projeto, porque eu pensei que era uma coisa nova e me apaixonei pelo instrumento. É claro que eu quero ser profissional no futuro”.

Na favela da Grota de Surucucu, em Niterói, tem um programa semelhante fundado pelos moradores Leonora e Marcio Mendes. O casal é responsável pelas Orquestras de Cordas e de Flautas da Grota.

“Ouvimos tiros quase todos os dias aqui”, diz Leonora sobre a violência em sua comunidade.

O programa Grota tem o objetivo de profissionalizar jovens músicos. A primeira orquestra (de quatro) pode ser contratada para tocar em casamentos, igrejas e outros eventos. O grupo possui um gerente e a tarifa de R$2,700 por show. Todas as crianças na primeira orquestra ensinam música para a organização, tanto voluntariamente quanto por trabalho remunerado. O lema do projeto é “talentos multiplicadores”.

“Orquestras da Grota” já percorreu um longo caminho desde a sua criação em 1995 como uma escola de aulas de reforço. Com 12 grupos em toda Niterói, o projeto se expandiu “por pura demanda”, diz Leonora. O único requisito para participar é ser estudante de escola pública.

A primeira e a segunda orquestra exigiram participação obrigatória nas aulas semanais de teoria musical. Esta ênfase no profissionalismo é imposta na esperança de quebrar o círculo de repetição social e para abrir novas portas para adolescentes de baixa renda. O trabalho da orquestra também dá às crianças a oportunidade de viajar para vários destinos em turnê. Eles foram para São Paulo, América Central, Portugal e Inglaterra. Leonora sente que os benefícios de tais viagens são imensuráveis.

Ela disse: “Descobrir lugares onde a questão de saber se o Comando Vermelho ou o Terceiro Comando controla a favela é irrelevante é incrivelmente libertador para as crianças”.

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A neurociência está provando o que tantos músicos sentiram: tocar um instrumento é para o cérebro, o que o esporte é para o corpo. Aprender música cria ligações entre diferentes regiões do cérebro e engata com praticamente todas as funções do órgão central. Não só como uma atividade para fortalecer nossas capacidades cognitivas, mas que também nos permite usar essas capacidades adquiridas em todas as situações.

Além disso, os jovens envolvidos em tais programas ambiciosos descobriram um mundo maior, novas sensibilidades e definiram que não há limites para si próprios. Peter, o violinista líder na Orquestra Maré do Amanhã, não tem nenhuma dúvida sobre o que ele quer fazer na vida.

“Eu toco o violino há cinco anos. Eu quero ser um músico, um músico clássico”, disse ele.

Maestro Prazeres diz que a música clássica abre todo um novo mundo de cultura para as crianças, que começam a olhar para a arte em outros lugares.

“Há um aspecto social de música. As crianças começam a interagir umas com as outras de forma diferente, porque uma orquestra é uma interação”, explica. “As crianças começam a visitar museus, assistir teatros e ir a concertos. Você começa a estar em contato com uma nova gama de informações que o tornam mais inteiro”.

As crianças tocam Beethoven e John Williams com talento, carisma, virtuosismo, e disciplina. Esses programas oferecem uma fuga para os jovens nas favelas e pode oferecer uma carreira inesperada como músico profissional. A música clássica não está morta; na verdade, aqui é um novo alento para as comunidades”.