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Em Cascadura, BRT Reduz Mobilidade e Força Comércio a Fechar

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Por mais de 50 anos, o Bar Caldo de Cana tem sido um negócio bem sucedido na Praça Riachuelo, no bairro de Cascadura, na Zona Norte do Rio. André Silva dos Santos trabalha há sete anos como proprietário, e anteriormente ao longo de 48 anos sob a orientação de seu pai. O bar é o trabalho de toda sua vida e o único suporte financeiro para a sua família.

Em agosto de 2014, Cascadura sofreu grandes mudanças de transporte, o que prejudicou o seu comércio. A cidade lançou várias linhas de ônibus que passam pelo Recreio, Jacarepaguá, Madureira e alguns bairros da Zona Oeste, através da linha BRT TransCarioca.

A Secretaria Municipal de Transportes lançou as linhas de BRT em 2012 para substituir certas rotas de ônibus por viagens livres de trânsito. A ideia era aumentar a capacidade e reduzir drasticamente os tempos de viagem. As linhas de BRT constituem o principal meio através do qual a Prefeitura pretende alcançar a meta de aumentar o total de viagens no transporte público de alta capacidade da taxa atual de 18% para 60%, até 2016. Eles foram amplamente divulgados como parte do legado olímpico de 2016.

Mas o legado ainda não chegou a bairros como Cascadura que, em vez de ganhar, perdeu a maior parte de suas linhas de ônibus que faziam o trajeto para a Zona Sul, Centro e Barra da Tijuca. Vans que faziam o transporte em toda a comunidade também foram eliminadas e linhas de trem reduzidas.

É amplamente relatado por moradores, de comunidades e bairros populares em toda a cidade, que para estabelecer a demanda para o BRT, a Prefeitura reduziu várias rotas usuais das quais os moradores dependiam e que, várias vezes, eram favoráveis ao BRT.

“Cascadura está abandonada. Virou praça de cracudo”, disse dos Santos. “[Tinha] gente a toda hora. Eu abria 4 horas da manhã, agora estou abrindo 6 horas. Minhas vendas caíram em 90%.”

André perdeu 90% das vendas depois da implementação do BRT

Antes da implantação da linha do BRT TransCarioca, o centro comercial de Cascadura era localizado na Praça do Riachuelo, uma estação de ônibus que fornecia transporte para milhares de moradores do bairro. Os ônibus trafegavam para locais como a Zona Sul do Rio e áreas centrais. De acordo com José Fernando Silva, educador social em Cascadura, a estação de ônibus favorecia o comércio na área, o que incluía bares, restaurantes, e barraquinhas de vendedores de rua. Agora, a praça está morta.

“A partir da implantação do BRT o quê que aconteceu? O bairro de Cascadura teve um declínio sócio-econômico, bares fecharam, o pessoal que era ambulante também fechou seus negócios. Houve um impacto muito profundo nessa parte sócio-econômica”, disse Silva.

Eduardo Torres foi forçado a fechar o seu bar de quase 10 anos e sair de Cascadura, com raiva e com dívida. Segundo ele, a Prefeitura acabou com as vans coletivas que, além de fornecer transporte para a comunidade em Cascadura, também movimentava o comércio na praça. Em seguida, tiraram os ônibus e agora, alguns trens nem sequer param mais em Cascadura. Determinadas linhas de trem, que costumavam parar no bairro, agora não param mais. Passam direto, e os moradores agora têm de pegar dois trens para chegar à próxima estação.

“Nenhum representante da Prefeitura veio aqui para nos dar alguma satisfação”, disse ele. “Nós não temos nenhum projeto aqui, todo mundo está fechando as suas lojas, e hoje é o meu último dia aqui”.

Geraldo da Cunha Lucas trabalhou como vendedor de rua na praça durante 6 anos para sustentar sua esposa e filhos.

“No meu caso, eu ganhava, por dia, mais ou menos R$300 a R$350”, disse ele. Agora ele ganha em torno de R$80 a R$90. “Não é só eu, mas todos os vendedores de rua daqui”.

Creuza José Correia, vendedora de rua que trabalha na praça há 40 anos, disse que não só ela está perdendo fregueses, mas como moradora de Cascadura, ela vê a luta de vizinhos e amigos que trabalham fora em outras áreas para chegarem ao trabalho. Agora, a parada de ônibus mais próxima que leva as pessoas para a Zona Sul é em Madureira, mais de seis quilômetros de distância, disse ela.

Creuza José Correia depende do seu comércio para sobreviver

“A gente está muito triste, porque nós trabalhamos aqui há muito tempo e isso atrapalhou muito a nossa vida e nosso trabalho porque diminuiu os clientes”, disse ela. “Cascadura acabou… afetou a vida financeira da gente totalmente. Eu praticamente dependo disto aqui”.

O Bilhete Único Carioca permite que usuários de transporte público façam até três transferências entre ônibus, incluindo o BRT, em duas horas e meia, pelo preço de apenas uma passagem. No entanto, aqueles sem os cartões terão agora de pagar por três ou quatro passagens para chegar ao trabalho, uma vez que usar o BRT requer mudança de estações e utilização de mais ônibus, enquanto, anteriormente um ou dois ônibus partindo da Praça Riachuelo poderia fornecer o mesmo serviço.

Silva disse: “Não houve um planejamento nem um aviso prévio da retirada dos ônibus ou do nosso transporte alternativo… a população não foi consultada, não pensaram no impacto disso na nossa mobilidade urbana”.

Miguel Silva de Moura, presidente da Associação de Moradores, observa a praça vazia

O esqueleto de um carro queimado e lixos nas calçadas, agora fazem parte da paisagem da praça. Poucos ônibus permaneceram e levam os moradores para a Zona Oeste, mas o barulho de movimento, desapareceu completamente.

Miguel Silva de Moura, presidente da Associação dos Moradores da comunidade Luiz Carlos Prestes, em Cascadura, disse que o transporte é um dos muitos problemas do bairro que o prefeito do Rio ignorou.

“Ele não dá credibilidade à Associação de Moradores”, disse ele. “Ele toma decisões sem ouvir os moradores”.

A praça vazia antigamente era cheia de movimento