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Segregação, Vigilantismo e Protesto: Respostas aos Roubos nas Praias do Rio

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A tensão entre moradores das zonas Sul e Norte do Rio de Janeiro atingiu um novo pico com a ameaça de violência nas praias cariocas neste ano pré-olímpico. Em 23 de agosto, ônibus lotados com cerca de 150 adolescentes foram detidos em Botafogo, no caminho para as praias da Zona Sul, sobre o pretexto de que os jovens a bordo estavam indo com a intenção de roubar e se envolverem em violência. Os jovens foram detidos e levados para o Centro Integrado de Atendimento à Criança e ao Adolescente (CIACA) sem terem cometido um crime.

Um adolescente disse: “Tiraram ‘nós’ do ônibus pra sentar no chão sujo e entrar na Kombi. Acham que ‘nós’ é ladrão só porque ‘nós’ é preto”. O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, comentou que esta medida de precaução está sendo tomada pela Polícia Militar para evitar arrastões. Ele disse: “Repercussão sempre dá. Dá quando [a polícia] não age e quando age. Quantos arrastões nós tivemos, praticados por alguns desses menores? Não estou falando que são todos os que estavam ali, mas tem muitos deles, mapeados, que já foram apreendidos mais de cinco, oito, dez ou 15 vezes”.

Independentemente de saber se estas crianças têm antecedentes criminais ou não, os detendo e enviando-os para o CIACA constitui uma violação direta dos seus direitos humanos. Um recente acordo declarou que a Polícia Militar não pode parar e revistar os adolescentes que tentam ir para a praia, a menos que eles estejam cometendo um crime. O juiz Luiz Fernando (presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro) afirmou que “Não se pode supor que alguém, um grupo de adolescentes, só porque se está num ônibus, estaria se dirigindo para cometer estes arrastões. Não pode haver esta adivinhação, esta suposição do arrastão. Não é por um exercício de adivinhação que se pode privar os adolescentes do direito à liberdade.”

A detenção de jovens em 23 de agosto causou indignação entre moradores da Zona Norte por causa das intenções criminosas assumidas. Um ambiente cada vez maior de medo e especulação foi criado, deixando cidadãos de baixa-renda implicitamente excluídos do espaço público da Zona Sul. Este tema recorrente de segregação pública é uma das manifestações mais profundas e flagrantes da divisão sócio-económica que existe no Rio hoje.

O fim de semana de 19 e 20 de setembro viu um aumento de roubos e assaltos nas praias e nos bairros da Zona Sul de Copacabana, Ipanema, Humaitá e Botafogo. No sábado e domingo, 22 adolescentes e seis adultos foram apreendidos pela polícia. De acordo com a Polícia Cívil, eles haviam roubado itens de pessoas. Muitos destes roubos e assaltos, como aquele em que dois jovens são vistos brigando por uma bicicleta, foram gravados e publicados em redes sociais onde eles suscitaram uma reação imediata de cidadãos cariocas e da mídia nacional, incluindo uma série de postagens agressivas e racistas.

Um vídeo da década de 1990 que documenta comentários racistas por banhistas na Barra da Tijuca foi divulgado pelo Coletivo Mariachi em sua página no Facebook e se tornou viral, causando uma onda de reações indignadas e levando um dos protagonistas do vídeo a pedir desculpas publicamente. No vídeo, Angela Moss reclamou de pobres “sem educação” de serem autorizados de irem para a praia e se refere a eles como “sub-raça”. Ela recentemente publicou um comunicado no Facebook dizendo: “Infelizmente era eu nesse vídeo quando tinha 18 anos. Eu era uma criança retardada e com pouco conhecimento. Mesmo culta era uma alienada.” Moss, agora com 47 anos, disse que estava feliz de ver que as pessoas estavam indignados com o vídeo, e o que a incomodava eram as mensagens de apoio para o que ela disse na época.

Uma reação assustadora para o recente aumento da criminalidade tem sido um aumento no vigilantismo. No domingo, 20 de setembro, moradores de Copacabana colocaram como alvo o ônibus da linha 474, quebrando janelas e atacando passageiros em seu caminho de volta para a Zona Norte depois de um dia na praia. É preocupante; as ações receberam elogios na mídia social com comentários como: “Polícia não faz nada. Os justiceiros fazem! Meus aplausos”.

Vigilantismo na Zona Sul do Rio, bem como arrastões nas praias do Rio de Janeiro, são fenômenos familiares que remontam décadas. No entanto, a ascensão das mídias sociais torna possível para os grupos se organizarem e para as pessoas ativamente e publicamente incitarem a violência. Um grupo no Facebook preocupado com a recente onda de assaltos mostra um post de um jovem que sugere jogar garrafas de vidro ou água fervendo pelas janelas dos apartamentos, formar gangues de bicicletas para patrulhar as ruas e andarem armados com ferramentas, soqueiras e sprays de pimenta.

A Prefeitura tem respondido através da introdução de uma medida para cortar pelo menos 21 linhas de ônibus até o final do ano, com o discurso oficial que isso é para melhorar o sistema de transporte público. Essas mudanças vão alterar bastante as rotinas diárias para até 100.000 pessoas, obrigando muitos a pagarem mais por trajetos mais longos. A mudança mais notável é uma redução considerável do número de linhas que funcionam começando da Zona Norte indo até a Zona Sul, perpetuando o crescente problema da segregação dos espaços no Rio.

A segregação crescente e preconceituosa contra os moradores da Zona Norte implicadas pelo vigilantismo, medidas de segurança e alterações de transportes provocou protestos entre aqueles que defendem o direito de acesso às praias públicas do Rio de Janeiro. No domingo 05 de outubro, cerca de 200 pessoas se reuniram em Ipanema para participar do “Farofaço“, evento de protesto promovido pelo Coletivo Papo Reto com base no Complexo do Alemão. O título refere-se a eventos tradicionais de cariocas de ascendência nordestina que vão à praia trazendo comida caseira, como frango com farofa.

O evento foi coberto extensivamente pela mídia, com um vídeo produzido pela Carta Capital mostrando a discrepância entre alguns que acreditam no acesso desimpedido ao espaço público, enquanto outros, principalmente de Ipanema, onde o protesto foi realizado, preferindo acesso restrito. Manifestantes dedicaram um minuto de silêncio para o número alarmante de jovens negros assassinados em favelas do Rio. O grupo, então, marchou ao ritmo do Bloco Apafunk para a icônica praia do Arpoador onde eles pacificamente condenaram a escalada das tensões entre a Zona Norte e Sul.