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Uma Introdução ao Sistema de Águas Pluviais do Rio de Janeiro

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Um sistema de águas pluviais é uma infraestrutura projetada para abrandar, coletar, e remanejar o excesso de água da chuva, a fim de evitar enchentes ou outros danos causados por grandes volumes de água em uma determinada área. Além de mitigar impactos negativos, sistemas de águas pluviais oferecem oportunidades para a coleta sustentável de água para a purificação e uso. Estes sistemas consistem em microdrenagem, ou maneiras das ruas coletarem e moverem a água da chuva, e macrodrenagem, a maior rede de drenos, canais, diques, e rios.

No Rio de Janeiro, a interrupção do trânsito e inundações com risco de vida devido a recentes pesadas chuvas de verão destacaram a incapacidade dos sistemas de águas pluviais da cidade para lidar com a quantidade de precipitação. Como o Rio deverá ser a cidade da América do Sul mais afetada pelas mudanças climáticas ao longo dos próximos anos, a intensidade e frequência das tempestades só são susceptíveis de aumentar, agravando os perigos existentes associados às inundações.

História

Por mais irônico que possa ser–com os serviços de esgoto notoriamente limitados da cidade de hoje–o Rio de Janeiro foi a terceira cidade do mundo a ter um sistema de esgoto. Em 1857, sob o reinado do imperador Dom Pedro II, contratos foram assinados com empresas brasileiras e engenheiros britânicos para a implementação de uma rede de esgoto e uma rede de drenagem. Anteriormente, o “sistema” de esgoto consistia em escravos que transportavam os resíduos de casas da cidade para despejá-los diretamente nas águas circundantes à noite.

Mesmo com a nova infraestrutura no local, no entanto, o esgoto e a drenagem continuaram a ser fontes de problemas graves, dado que o Rio continuou a crescer rapidamente com pouco planejamento. Um monte de construção surgiram entre lagos e pântanos em terras planas abaixo do nível do mar, onde as inundações frequentes ocorrem durante as chuvas sazonais e os sistemas de drenagen se revelaram insuficientes. Este padrão de infraestrutura de drenagem lutando para manter-se com o crescimento da cidade perpetuou-se durante grande parte do século 20.

Rios e canais do Rio de Janeiro [de O Globo]

Da História Recente até Hoje

Depois de décadas de contínuos danos resultantes de enchentes, o Plano Diretor da Cidade do Rio, de 1992, solicitou a criação de um órgão municipal para gerir o sistema de saneamento das águas pluviais e esgoto. Como resultado, o Instituto das Águas do Município do Rio de Janeiro, também conhecida como Rio-Águas, foi criado em 1998. Desde então, a prefeitura tem desenvolvido planos para a macrodrenagem de todas as bacias hidrográficas do município do Rio. Como exemplo, a obra de um sistema de macrodrenagem para a Bacia de Sepetiba começou em 1993 e foi projetada para combater enchentes nos bairros da Zona Oeste. Há 25 rios e canais incluídos neste projeto, com uma extensão total de 144 km.

Atualmente, está sendo construído o maior túnel de águas pluviais da cidade, em São Cristóvão na Zona Norte. Atualmente, cinco rios fluem para o Canal do Mangue e quando a água de chuvas pesadas é adicionada à mistura, graves inundações ocorrem na área da Praça da Bandeira. O novo túnel vai desviar parte da água para um percurso alternativo diretamente para a Baía de Guanabara, reduzindo as inundações na área da Praça da Bandeira.

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Este diagrama explica que a baixa altitude da Praça e o fato de que as áreas circundantes são ligeiramente superiores se combinam para tornar as inundações prováveis. O lixo que entope o sistema de drenagem agrava o problema.

Os Riscos

Os sistemas de esgoto e de drenagem do Rio estão, simplesmente, ultrapassados. Eles não são construídas para suportar a quantidade de água da chuva que acumulam no solo acima; nem foram construídos para suportar a imensa quantidade de lixo que é arrastado com as inundações. Os tubos que levam à baía e ao oceano são frequentemente obstruídos com esse lixo e outros detritos, deixando as águas subterrâneas das chuvas estagnadas, levando horas para drenar. As encostas das montanhas elevadas que rodeiam o Rio derramam as águas pluviais livremente nas ruas e edifícios abaixo, causando estragos para o cotidiano de milhares de pessoas.

As chuvas intensas deixam as ruas, calçadas e até mesmo alguns edifícios inundados, e as pessoas podem ter que ficar esperando durante horas, sentados em seus carros, em restaurantes, ou no local de trabalho à espera de que o nível de água tenha diminuído. Não são apenas os edifícios e os veículos que ficam estruturalmente danificados, mas as receitas das empresas também são muito afetadas por causa das enchentes. O lixo e outras obstruções por detritos e a diminuição do fluxo de água através da canalização existente, que leva diretamente para a Baía de Guanabara e para o oceano, fazem com que haja transbordamentos trazendo o esgoto sem tratamento de volta para as ruas.

Crianças e idosos ficam particularmente em risco de lesão ou afogamento, por causa da rapidez e intensidade das chuvas. Em 12 de março de 2016, quatro pessoas morreram devido as fortes chuvas e enchentes e as autoridades declararam estado de alerta. Moradores de áreas da Zona Norte–onde há novos reservatórios para mitigar as enchentes–expressaram raiva ante a continuidade das enchentes, porém o Prefeito Eduardo Paes esclareceu que a construção da infraestrutura ainda estava em andamento. Deslizamentos de terra ocorrem em áreas em que as construções não têm boas fundações ou sistemas de drenagem. As encostas do Rio são as áreas mais vulneráveis, como na comunidade Pica Pau onde uma casa está literalmente à beira do colapso. Na favela Pica Pau, situada em Cordovil, na Zona Norte os moradores testemunham condições de pesadelo em que seu sistema de drenagem de águas pluviais e esgoto se infiltram no abastecimento de água potável. Estas condições inaceitáveis foram aparentemente ignoradas pela Prefeitura.

Melhorias Viáveis para o Sistema Atual:

Neste momento, o atual sistema não mantém as ruas secas, mas esforços estão sendo feitos para melhorar. Há cinco sistemas de reservatórios diferentes que estão sendo implementados na região da Tijuca, ligados ao túnel em São Cristóvão acima mencionado. Estes reservatórios levarão as águas quando as chuvas causarem a subida dos rios e canais, e conterão a água até que os níveis baixem novamente e, em seguida, as águas retornam para os rios e canais. Este projeto foi enquadrado como um projeto de legado dos Jogos Olímpicos, como destacado pelo vídeo abaixo.

Outras opções viáveis para a cidade do Rio poderiam ser jardins de chuva e sistemas de biorrentenção. Essas opções oferecem soluções eco-amigáveis para recolher a água da chuva e retornar a água de volta para a terra, imitando o ciclo ecológico da terra, que é muito mais sustentável do que simplesmente dirigir toda a água da chuva para saídas em pontos no oceano ou na baía. Estes tipos de projetos podem oferecer uma nova estética para a vibrante cena do Rio, e criar oportunidades educacionais em torno da sustentabilidade ambiental.

Embora as comunidades possam criar projetos de coleta de água ou de desvio em pequena escala, a escala do desafio das enchentes na cidade é substancial e vai exigir da Prefeitura a construção de infraestruturas substanciais para drenagem e esgoto. Enquanto a Prefeitura pode ter perdido a oportunidade de reformular totalmente ambos os sistemas antes dos Jogos Olímpicos, a reformulação ainda deve ser considerada uma prioridade urgente para o vencedor das eleições para Prefeito deste ano. A infraestrutura da cidade e as vidas das pessoas dependem disto.