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100 Dias Até As Olimpíadas. E Quando Tem Esgoto na Água?

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Leia a matéria original por Olga Khazan em inglês no The Atlantic aqui. O RioOnWatch traduz matérias do inglês para que brasileiros possam ter acesso e acompanhar temas ou análises cobertos fora do país que nem sempre são cobertos no Brasil.

Todo dia esgoto sem tratamento flui em muitos dos locais que serão palco das Olimpíadas do Rio de Janeiro. Já que a perspectiva de uma limpeza completa antes dos Jogos fica cada dia mais distante, o mundo está se perguntando, quem ficará doente, e como?

RIO DE JANEIRO – Será que os Jogos Olímpicos do Brasil serão os mais insalubres de todos os tempos, como o artigo da Fusion sugere?

Esta autora não está indignada com a revisão do tempo para qualificação para a corrida de obstáculos. Ela, e muitos outros, está se referindo à sujeira mesmo. “Os Atletas Olímpicos vão Competir em Água de Fezes, e a COI Não Está Nem Aí”, vociferou o Deadspin em agosto. “O Brasil Não Consegue Limpar sua Merda a Tempo dos Jogos Olímpicos”, bbservou Gawker.

Claro, o “Eles estarão prontos?” é o refrão midiático para cada atração principal dos Jogos Olímpicos. Pequim lutou contra a poluição sufocante do ar. Sochi teve sol demais, e poucos quartos de hotel.

Mas dessa vez, as advertências são particularmente aflitivas: atletas talvez estarão velejando e nadando pelo esgoto não tratado, arruinando partidas e terminando em hospitais como resultado.

Primeiramente, o Rio pareceu possuir tudo que o Comitê Olímpico Internacional podia querer: beleza natural de outro mundo e várias praias e lagoas para os esportes aquáticos. Em primeiro lugar, a boa vontade de sediar o evento. O Brasil também prometeu limpar as baias e as praias na sua candidatura as Olimpíadas, “estabelecendo um novo padrão de preservação da qualidade de água para as próximas gerações”.

Houve longas suspeitas a cerca da água da cidade ser muito suja para competições. Assim como outras cidades de crescimento rápido em países emergentes, o Rio de Janeiro só trata uma pequena parcela do seu esgoto. Ativistas tem pedido por melhor saneamento há anos. Em certo momento eles chegaram ao ponto de sentar em vasos sanitários em uma praia como forma de protesto.

A empolgação com as Olimpíadas traz à tona problemas ambientais, o que por sua vez faz com que sejam feitas sérias garantias de que esses problemas serão corrigidos bem antes da cerimônia de abertura. Além disso, aos olhos do ocidente o Rio, bem… é o Rio, baby! Co-pa, Co-pa-cabana. Futebol e supermodelos, não cocô.

Com certeza sem cocô, certo?

A AP (Associated Press) levantou essa questão com duas investigações baseadas em um teste independente de qualidade de água. A primeira, publicada em julho, mostrou que em certos locais os atletas olímpicos estarão “quase certos de entrarem em contato com vírus causadores de doenças que em alguns testes mediram até 1,7 milhões de vezes a mais do que o nível que seria considerado perigoso em uma praia do sul da Califórnia”. Em dezembro, uma segunda rodada de testes mostrou que as hidrovias olímpicas estão cheias de vírus e bactérias, mesmo distante da costa.

O cocô, aí está ele.

Os competidores estão atentos. Atletas que caíram na água dizem que a água fede. Treinadores estão avisando aos velejadores para manterem as bocas fechadas ou para lavarem suas mãos depois de tocarem nos equipamentos molhados. Na vizinha Lagoa Rodrigo de Freitas, onde os remadores olímpicos vão competir, em um evento teste os atletas usaram desinfetante em suas garrafas d’água e enxaguaram com desinfetante bucal anti-bacterial entre os eventos, de acordo com a AP.

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Kara Gordon / The Atlantic

As autoridades já admitiram que não cumprirão seu objetivo de tratar 80% do esgoto que flui para a baía. Está mais para 65%, de acordo com a estimativa mais recente. Existem murmúrios sobre modificar o local do velejamento para o oceano aberto, onde a água é mais limpa, mas alguns atletas disseram que preferem ficar na água onde ocorreram os treinos. E a menos de cinco meses dos jogos, é muito tarde para mudar a cidade sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

É claro, a qualidade da água não é o único problema que está ameaçando as Olimpíadas do Brasil. O recente surto de Zika tem batido o esgoto como a crise do momento. Ainda sim, porém, a poluição da água tem seu papel. Piscinas de água parada se acumulam ao redor das favelas do Rio de Janeiro, ou assentamentos informais, onde o sistema sanitário é antigo ou inadequado. Os especialistas em saúde pública dizem que a água parada, cheia de bactérias e com pouco oxigênio, é o principal criadouro para os mosquitos, o principal vetor da Zika.

Depois de visitar o Brasil em dezembro e conversar com ativistas, burocratas e pessoas do dia a dia, ficou claro para mim que esse problema não estará completamente resolvido até agosto. Autoridades ainda estão lutando para implementar medidas de emergência que irão limpar as águas locais antes dos Jogos. Se eles obtiverem progresso, os atletas olímpicos estarão poupados de dores de estômago e infecções. Mas as pessoas que realmente sofrem com a falta de infraestrutura do Rio de Janeiro serão muito menos beneficiadas, caso cheguem a ser beneficiadas em algum ponto.

Ipanema

Nos fins de semana a praia de Ipanema fica lotada de guarda-sóis e vendedores vendendo água de coco e queijo coalho. A distância, pequenas ilhas arredondadas se destacam das ondas. Em um dia de dezembro com temperatura em torno de 36ºC, a água suave e cristalina convida os moradores e os turistas.

Ainda assim o teste de água da AP descobriu que Ipanema tem três vezes mais coliformes fecais do que o nível aceitável. Tanto recentemente como em 2011, não era seguro nadar por lá durante 40% do ano. Quando baixei o relatório do governo brasileiro sobre a qualidade da água em 7 de dezembro, a água da praia de Ipanema era considerada “não limpa” assim como na vizinha praia do Leblon e algumas partes da praia de Copacabana, onde os nadadores e triatletas maratonistas olímpicos irão nadar. (Uma porta-voz da União Internacional de Triatlo disse que a organização só permite que triatlos sejam realizados em águas que atendam aos padrões considerados “excelentes” da Comissão Ambiental Européia. A frente do evento teste de triatlo no Rio no último mês de agosto, ela adicionou que todos os resultados estão de acordo com esse padrão).

People enjoy the sunny weather at Ipanema beach in Rio de Janeiro, Brazil October 10, 2015. REUTERS/Pawel Kopczynski TPX IMAGES OF THE DAY - RTS3W30

Turistas e moradores locais na praia de Ipanema (Pawel Kopczynski / Reuters)

Muito se fala sobre o fato do esgoto não tratado fluir “diretamente” para o oceano no Rio de Janeiro. E é verdade que debaixo da superfície azulada da praia de Ipanema existe uma tubulação que despeja todo o esgoto não tratado da Zona Sul do Rio, a uma distância de 4.300 metros dentro do mar, e a 30 metros de profundidade.

Isso pode soar nojento, mas não é incomum. No mundo todo, o esgoto não tratado rotineiramente faz seu caminho em direção a água. Muitas cidades dependem desses tipos de tubulações, chamadas de “descargas marinhas” para manusear o esgoto, e 4.300 metros é bem longe, tanto quanto essas descargas podem ir. Boston, nos Estados Unidos descartava o esgoto sem tratamento até 1952, quando a primeira estação de tratamento de esgoto foi construída. San Diego também nos Estados Unidos, descartava o esgoto diretamente na água logo depois do tratamento “primário”–um passo preliminar que só filtra os “sólidos”. Sydney na Austrália, cidade que sediou os jogos de verão em 2000, também têm bastante descargas que contam apenas com o tratamento primário. Até o final dos anos 90, Bruxelas, na Bélgica, jogava todo o seu esgoto diretamente no Rio Senne, deixando a qualidade da água “comparável com um esgoto”, como a OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) relatou na época. Apenas alguns meses atrás, a cidade de Montreal jogou dois bilhões de galões de esgoto não tratado dentro do Rio St. Lawrence, para que pudessem reparar as tubulações antigas.

De acordo com um estudo de 2013 realizado pelo Instituto de Água da Universidade da Carolina do Norte, a maioria das pessoas em países de renda média alta tem descargas nos vasos sanitários, mas apenas 14% tem seu esgoto tratado. O mesmo estudo estima que metade dos rios do mundo, oceanos e lagos, contém águas residuais não tratadas. Entre 2009 e 2013, até mesmo as águas de Malibu, na Califórnia, falharam em atender os padrões referenciais de segurança da saúde pública em um quarto do tempo, de acordo com o Conselho de Defesa dos Recursos Naturais (NRDC – Natural Resources Defense Council).

O problema com muitas das praias do Rio de Janeiro é que elas estão conectadas com canais e drenos de água da chuva, que é o lar para mais esgoto não tratado do que essas vias tipicamente são em países mais desenvolvidos. A chuva envia ainda mais esgoto ao correr através deles, por isso, Ipanema e Copacabana, como muitas das praias do mundo, estão repletas de bactérias fecais após tempestades.

Tóquio, cidade que sediará as Olimpíadas de 2020, tem um problema similar ao juntar suas águas pluviais com o esgoto. Embora a cidade trate mais o seu esgoto do que o Rio, durante as tempestades o nível do esgoto ultrapassa seu limite e acaba sendo expelido no oceano sem tratamento algum, de acordo com Sarah Dorner, professora de engenharia civil associada a Escola Politécnica de Montreal (Polytechnique Montreal). “As chances de se ficar doente com uma doença transmitida pela água aumenta depois das chuvas”, disse ela.

Algumas praias são mais sujas que outras. Mas não importa onde você esteja, ela disse, quando considerar nadar depois de uma grande tempestade, “eu particularmente preferiria esperar”.

Baía da Guanabara

Muito mais preocupante do que Ipanema é a Baía de Guanabara, que se tornou um ponto de entrada desagradável que se projeta para o litoral do Rio como um folículo capilar infectado. A cada segundo, 8.200 litros de esgoto não tratados fluem através dos rios da cidade, a TV brasileira relatou este fato ano passado. Os velejadores olímpicos vão passar por essa superfície daqui a apenas alguns meses. Aa AP descobriu que a ingestão de apenas três colheres de chá dessas águas resultaria em uma possibilidade de “99%” de infecção.

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Olga Khazan / The Atlantic

Em eventos de teste, cerca de 7 a 9% dos velejadores ficaram doentes, uma taxa que a Federação Internacional de Vela considera aceitável, mas ainda é superior à taxa máxima de 3,6% de doença para natação da Agência de Proteção Ambiental dos EUA.

Um ponto particularmente controverso entre a imprensa estrangeira, que teme o pior, e as autoridades do Rio, que insistem que tudo ficará bem, é a questão dos testes virais. Os testes da AP pegaram vírus do esgoto humano em níveis de “até 1,7 milhões de vezes maior do que seria considerado altamente alarmante nos EUA ou na Europa”. Mas, em outubro, o Comitê Olímpico do Rio de Janeiro se recusou a realizar testes virais de rotina na Baía de Guanabara, citando a falta de normas claras da OMS sobre o nível aceitável de vírus transmitido pela água.

Mario Moscatelli, biólogo e crítico ferrenho do governo, regularmente realiza voos e fotografa a baía. Ele me enviou várias fotos recentes que mostram manchas verde acizentadas que turvam as águas escuras da baía. Sua legenda para a foto, referindo-se a uma praia próxima, diz tudo: “PRAIA DE BOTAFOGO – UM COMPLETO ESGOTO.”

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Uma fotografia de novembro mostra as manchas de esgoto na Baía de Guanabara (Moscatelli / Green Eye)

A prefeitura está construindo uma tubulação de coleta de esgoto perto da Marina da Glória, o ponto de entrada chave para a maior parte do esgoto que faz o seu caminho para dentro da baía. Edes Fernandes de Oliveira, o diretor de produção e operações da CEDAE, me assegurou que “nós acreditamos que a qualidade da água ficará ok”. No mês passado, uma delegação da Federação Mundial de Vela foi até a marina e disse que eles estão satisfeitos com o progresso da construção da tubulação, mas sua data de conclusão já foi adiada por meses.

Além dos problemas relacionados ao esgoto, muitas cidades que circundam a Baía tem uma coleta irregular de lixo. Sofás e televisores antigos acabam nos rios e, eventualmente, acabam na Baía de Guanabara. Velejadores Olímpicos se queixaram de bater em tudo, desde máquinas de lavar até sacolas plásticas.

Para acabar com o lixo, as autoridades estão construindo 17 barreiras que vão peneirar os grandes pedaços de detritos. Eles também estão utilizando embarcações, chamadas de “ecoboat” que coletam lixo durante oito horas por dia.

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Olga Khazan / The Atlantic

Naturalmente, eu pedi para ver como essa embarcação trabalha.

Eu encontrei com os condutores do ecoboat na Marina da Glória, onde se é esperado a maior parte dos eventos de Vela. O odor nocivo da Marina estava com toda a força. “Isso será resolvido para as Olimpíadas”, Steven McCane, um assistente de imprensa da Secretária de Meio Ambiente do Estado, me assegurou.

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O duto de drenagem deságua na Marina da Glória (Olga Khazan / The Atlantic)

Eu e o McCane subimos em uma pequena lancha para andar ao lado do ecoboat. Mais longe da costa, o cheiro se dissipou. Fora a tonalidade suja, a água parecia estar bem. Talvez seja por isso que ninguém esteja com pressa de limpa-la.

Existem 10 ecoboats no total. Seus condutores com um rádio vão e voltam com um time de engenheiros, que procuram pelos principais pontos de lixo flutuando num grande mapa aéreo.

O condutor do ecoboat, obedientemente, mergulha enormes peneiras de metal do barco dentro da água, mas eles conseguiram dragar apenas alguns galhos e garfos de plástico. Não foi uma grande quantidade apreendida.

McCane olhou um pouco cabisbaixo, “Toda vez que temos repórteres aqui, a gente não consegue achar nenhum lixo” disse ele.

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Coleta insignificante feita pelo ecoboat (Olga Khazan / The Atlantic)

Moscatelli, o biólogo, duvida que a situação do lixo esteja sendo resolvida quanto pareceu naquele dia. “A baía é muito grande, e os ecoboats são muito pequenos” disse ele. “É como se você tivesse 10 pessoas varrendo a rua de todo o Rio de Janeiro”.

Á medida que aceleramos de volta para a marina, a água foi ficando mais agitada, e sentados na lancha, nós estávamos apenas 46 centímetros da água. Em pouco tempo meus braços sentiram alguns respingos, Gotículas batiam nos meus lábios. Em silêncio, eu me perguntava se eu já não tinha engolido as três colheres de chá.

Olga Khazan / The Atlantic

Olga Khazan / The Atlantic

As Tubulações

Um dia Moscatelli me levou para o Canal do Fundão, onde as águas tem cor de calças cargo sujas e passam próximas ao aeroporto do Rio. Enquanto estávamos nas margens gramadas, um urso de pelúcia, garrafas plásticas, recipientes e trapos flutuavam por perto.

Através da água tem uma estação de tratamento de esgoto chamada Alegria.“Mas eu não estou feliz”, disse Moscatelli.

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Canal do Fundão (Olga Khazan / The Atlantic)

A estação só opera a 50% da sua capacidade. A prefeitura construiu a estação de tratamento, mas não uma tubulação conectada com a casa das pessoas. Nos anos 90, o governo brasileiro assegurou fundos do Japão para a construção de estações de tratamento, mas nenhuma delas operou com sua capacidade máxima durante anos.

Algo em torno de um terço do Rio não está conectado a um sistema de saneamento formal. Em vez disso, o lixo vai direto para um rio como esse, e daqui, para a baía. Antes dos Jogos Olímpicos, as autoridades se comprometeram a instalar oito estações de tratamento dentro dos rios que correm para a Baía de Guanabara. Mas eles não estão todos construídos ainda, muito menos em funcionamento.

O Rio não é a única cidade brasileira que tem problemas com saneamento. Uma pesquisa de 2015 revelou que 3,6 milhões de pessoas em 100 cidades brasileiras não têm conexões com o esgoto. Quando chove em Paraty, uma cidade a algumas horas ao longo da costa, os eflúvios vão para as ruas. Como o próprio prefeito Carlos Miranda disse ao Washington Post no ano passado, “Quando você entra o centro histórico, você vê algumas vezes, que a estrada está molhada”. disse ele. “É o esgoto”.

* * *

Somente nos últimos 50 anos que a maioria dos países de alta renda conseguiram separar o cocô das pessoas que o produzem. Algumas das cidades mais ricas de hoje não tiveram esgoto funcional até o século 20. Em Londres, em 1858, o “Grande Fedor” (“Great Stink”) do Rio Thames era tão forte que as pessoas tinham medo de pegar doenças apenas pelo cheiro, pela então popular teoria da medicina do “miasma”.

Por volta dessa época, o saneamento do Rio não era muito melhor. Como Laurentino Gomes escreveu em 1808, em sua crônica da história da cidade, o Rio do século 19 possuía um trabalho intensivo para a gestão de resíduos humanos.

“Pelo lençol freático ser bem próximo da superfície, a construção de fossas sépticas foi proibida. A urina e fezes dos moradores, recolhidas durante a noite, eram levadas na manhã seguinte para serem despejadas no mar pelos escravos, que carregavam grandes barris de esgoto em suas costas. Ao longo do caminho, alguns dos conteúdos, que estavam cheios de amônia e ureia, respingavam em suas peles e, ao longo do tempo, deixava listras brancas em suas costas. Por essa razão, esses escravos eram conhecidos como “tigres”.

Alguns sociólogos acreditam que a ampla disponibilidade destes “tigres” retardou o desenvolvimento de um sistema de saneamento durante décadas.

Ao longo do século 20, o Rio cresceu a esmo. As favelas proliferaram-se conforme os pobres da zona rural se dirigiam as cidades em grande expansão. Não encontrando moradia a preços acessíveis, eles criaram seus próprios barracos utilizando quaisquer materiais que podiam encontrar. Este crescimento incipiente, por um lado, promoveu um tipo de conforto informal que muitos dos moradores das favelas apreciam até os dias de hoje. Por outro lado, ele os privou de muitas conveniências modernas.

Oliveira, o diretor de operações da CEDAE, culpou as ruas estreitas das favelas pelo atraso na chegada do saneamento. Em alguns pontos essas ruas são praticamente corredores. Com o tráfico de drogas que ocorre, algumas vezes é muito perigoso para os trabalhadores municipais entrarem, disse ele. Em outros lugares, as pessoas parecem desrespeitar as regras com impunidade. Os bairros mais caros do Rio, Leblon e Ipanema, estão repletos das chamadas “ligações clandestinas”, onde condomínios e gerentes de hotéis têm ligado linhas de esgoto diretamente às águas pluviais.

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Lixo transbordando de uma lixeira no Santa Marta (The Atlantic)

No Centro da cidade, “é difícil para nós colocarmos uma nova tubulação de uma maneira não destrutiva”, disse Oliveira. Uma máquina tem que fazer túneis e assentar um enorme tubo de concreto por esses túneis–um processo que arrebenta as ruas e interrompe o trânsito.

Existem outros problemas pelos quais a CEDAE não tem controle. As outras cidades ao redor da baía têm os seus próprios prefeitos, necessidades de infraestrutura, e outras companhias de serviços. O Brasil tem sido esmagado por uma crise econômica, e os escândalos de corrupção tem impedido obras públicas. Em março, o diretor da Odebrecht, uma companhia que está encarregada de melhorar o saneamento de algumas partes da Zona Oeste do Rio, foi sentenciado à 19 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro.

Mesmo quando o governo tenta melhorar o sistema de saneamento, isso nem sempre funciona. Por consequência de no passado grandes projetos públicos terem falhado ao serem entregues, alguns moradores se recusam a pagar as taxas de esgoto–algo em torno de R$280,00 no caso de um projeto reportado pelo Dom Phillips no The Washington Post.

“Me surpreende que o Comitê Olímpico (Internacional) tenha acreditado que o Rio proporcionaria um sistema de tratamento elaborado de água e esgoto” antes das Olimpíadas, disse William Schaffner, professor de doenças infecciosas na Universidade Médica de Vanderbilt (Vanderbilt University School of Medicine). “Essas coisas requerem anos para serem construídas e são absurdamente caras. Eu acho que eles fizeram vista grossa…quando tomaram essa decisão”.

E depois das Olimpíadas? Os projetos vão continuar a todo vapor? Quando levantei essa questão ao Breno Herrera, um ecologista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ele simplesmente disse, “Não podemos ser otimistas”.

Os Jogos

As Olimpíadas, planejadas como deveriam ser, ocorrem na natureza. E a natureza domada como está, ferra os atletas em quase todos os Jogos Olímpicos.

Em 2000, Sydney teve sua cota de problemas de poluição. Os espectadores que foram a eventos testes no Stadium Austrália, reclamaram que o local cheirava “a esgoto”. O local das instalações olímpicas, Homebush, era a “capital mundial da dioxina” de acordo com o The Telegraph. Uma reportagem de 1999 pelo Daily Telegraph de Sydney dizia que, devido ao esgoto transbordado e outros tipos de poluição, “A água onde os triatletas mergulham no porto de Sydney durante as Olimpíadas sofre com a poluição bacteriana em um nível que excede as diretrizes nacionais de saúde”.Pequim em 2008 era que nem o Rio de Janeiro, mas com o problema no ar. A poluição da cidade obscurecia o sol com nível de fuligem que era o triplo da quantidade vista em Sydney ou Atenas. Os cientistas temeram que os atletas pudessem sofrer ataques da asma, e nos eventos testes os participantes disseram que eles tossiam um muco preto. Os comitês olímpicos britânico e americano chegaram a distribuir máscaras para os atletas usarem–embora sua absorção fosse limitada.A China também jogava esgoto não tratado e lixo industrial no oceano, fazendo com que espessos tapetes de algas brotassem pela água. Um desses afloramentos cobriu o local de uma regata de vela olímpica com vida vegetal verde e peluda, apenas seis semanas antes do dia em que os Jogos estavam previstos para começar.

Soldiers of the People's Liberation Army (PLA) clear algae from the coastline of Qingdao, Shandong province July 4, 2008. China has thrown 10,000 people and 1,200 vessels into the fight to clean up a huge algae bloom that has turned large swathes of Qingdao's offshore waters green and encroached on a third of Olympic sailing waters. REUTERS/Nir Elias (CHINA) (BEIJING OLYMPICS 2008 PREVIEW) - RTX7MHA

Soldados limpam as algas do litoral de Qingdao, China, em 2008. (Nir Elias / The Atlantic)

Na época, as Olimpíadas de Pequim eram as mais poluídas de todas. Mas eles ainda se viraram bem–em parte por causa dos esforços de limpeza de última hora. Algo em torno de 20.000 pessoas “tanto voluntários e contratados” como o The New York Times relatou, foram recolher as algas. E por meses antes dos jogos, o governo chinês restringiu agressivamente o tráfego de carros, fechou fábricas, e inoculou as nuvens para fazer chuva. Isso não apenas melhorou drasticamente a qualidade do ar, como isso também melhorou temporariamente a saúde da população local.

O Brasil vai ser capaz de fazer o mesmo? Se as autoridades do Rio conseguirem parar com o fluxo de esgoto para a baía, os micro organismos que habitam a água agora vão morrer, disse Dorner, o professor de engenharia civil.A chuva levará mais esgoto para a baía, por isso as condições ideais para os dias de competição, de acordo com Moscatelli, seriam de maré alta e sol.

Nas suas investigações, a AP citou vários especialistas que projetaram que os atletas quase que certamente ficariam doentes durante os eventos, mas outros que eu entrevistei eram mais céticos. Schaffner, do Vanderbilt, disse que o risco de doenças era “não zero, mas muito baixo”. Ele recomendou que apenas quem pretende nadar no oceano do Rio tome uma vacina de Hepatite A.

O Iate clube na Baía de Guanabara (Olga Khazan / The Atlantic)

O Iate clube na Baía de Guanabara (Olga Khazan / The Atlantic)

Alex Saldanha, o treinador da seleção brasileira de vela, se inclui entre os serenos. Quando eu o conheci no Iate Clube perto da Baía de Guanabara, o ambiente não poderia ser mais diferente do pânico na Marina da Glória. O pico do Pão de Açúcar enquadrando os barcos a vela ancorados, e as pessoas bebendo vinho em brancas toalhas de mesa.

Saldanha tem velejado aqui durante toda a sua vida, e para ele não existe lugar mais lindo. “Tem se falado muito sobre [o esgoto], e por nada”, disse ele.

Eu olhei para cima, pensando que eu devo ter entendido mal.

“Pera aí, você não concorda que está poluído?” eu disse.

“Aé, com certeza”, disse ele. Por cerca de dois terços do tempo, a água é boa, disse ele. Em outras vezes, o time atinge a água “cor de Coca-Cola” cheia de camisinhas e bolsas plásticas.

Existe um problema de esgoto, ele admite. E os velejadores, que andam quase que paralelamente a água, andam apenas alguns centímetros da superfície, recebendo uma abundância de respingos. Embora eles não fiquem doentes, ele considera que é por causa dos “anticorpos naturais”. Similarmente, os atletas olímpicos devem ficar com diarreia, acredita ele, mas “você não morre por isso”.

Acredite em mim, ele disse, “a água de cocô não vai afetar a competição”.

A Favela

Mas isso não significa que ninguém é afetado. Alguns dias antes de eu me encontrar com o Saldanha, meu editor e eu pegamos um táxi em direção a uma feira livre na complicada Zona Norte do Rio. Lá, fomos saudados pelo Irenaldo Honório da Silva, o presidente da associação de moradores da favela Pica-Pau, lar de cerca de 7.000 pessoas.

Em meio a uns rabiscos de grafite, uma fachada de cimento perto da entrada da comunidade tem um desenho do Pica-Pau (do desenho animado).

Um sistema rudimentar de tubos se conectam as casas em Pica-Pau (Olga Khazan / The Atlantic)

Irenaldo nos levou por um tour pela raiz do problema de esgoto do Rio de Janeiro, e nos apresentou a algumas pessoas que carregam a maior parte do peso desse problema. Aqui, a água é bombeada através de uns finos canos brancos que se vem de um tanque central, passa pelas calhas das ruas, e se conecta nas casas individuais.

O sistema de esgoto é antigo e não suporta mais o número de pessoas vivendo aqui. Cerca de três vezes na semana, o esgoto transborda e escorre pela rua abaixo passando pelas casas, Irenaldo disse. Várias vezes depois de chover, uma água nojenta inunda as ruas e entra nos pequenos espaços entre as casas, como se fosse achocolatado com leite entre cubos de gelo numa bandeja.

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Bombas de água em Pica Pau (The Atlantic)

A chuva faz com que as rachaduras nos canos d’água suguem o esgoto que transborda, contaminando o suprimento de água de dezenas de casas de uma única vez. Os moradores dizem que algumas vezes o chuveiro deles fede e a pele coça. Os mais velhos ficam com erupções cutâneas e os mais novos ficam com diarreia, e os moradores precisam ir em algum mercado próximo para comprar garrafas de água.

Para que algo assim seja consertado, Irenaldo tem que telefonar para um amigo, um contato com um deputado federal, o qual vai enviar pessoas para ajudar quando puder–normalmente dentro de uma semana. “Se nós não tivermos amigos”, ele explica, “estamos fritos”.

O esgoto da comunidade flui para o Rio Irajá, que fica ao lado do bairro e tem um odor de deixar os olhos lacrimejando. A estação de tratamento está assentada a cada margem do Rio, mas ela não esta funcionando ainda, e Irenaldo não sabe quando isso vai acontecer. (Oliveira disse que isso vai ser feito no próximo mês.) Ainda assim, a estação só vai remover o esgoto que já está na água do rio, e não vai impedi-lo de chegar até lá em primeiro lugar.

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O Rio Irajá perto da comunidade Pica-Pau é significativamente poluído (Olga Khazan / The Atlantic)

Nós andamos por crianças jogando ping-pong em mesas improvisadas e homens vendendo lanches fora de suas janelas. No meio de uma estrada, uma poça se formou daquilo que Irenaldo suspeitava que fosse água de esgoto. Alguém tinha derramado detergente nela, transformando-a em azul.

Mosquitos são atraídos para essas poças. Irenaldo sabe que entre 10 e 15 pessoas, todo ano, pegam dengue ou chikungunya. Ele mesmo teve Zika. Em 2011, cerca de 400.000 brasileiros foram hospitalizados com infecções intestinais, presumindo que tenham vindo do contato com o esgoto não tratado.

Diferente dos turistas e atletas, a crise de saneamento não é escondida das comunidades como Pica-Pau, disse Herrera, o ecologista da UFRJ. “Eles veem suas crianças brincando na água fétida”, disse Herrera. “Eles ficam respirando e tocando naquilo”.

Desde a minha visita, a prefeitura anunciou que vai trabalhar para melhorar o saneamento básico e o sistema de água da favela Pica-Pau. Entretanto, a comunidade foi passada para trás antes. A prefeitura anunciou um programa similar na comunidade em 2012, mas desistiu no início de 2013, de acordo com Theresa Williamson, diretora da Comunidades Catalisadoras, uma organização sem fins lucrativos que trabalha em defesa das favelas do Rio.

No fim da minha visita, eu perguntei ao Irenaldo se ele estava animado para as Olimpíadas.

Ele disse que está feliz pelas Olimpíadas estarem fazendo do Rio um lugar mais conhecido, mas ele não sabe se esta atenção extra vai beneficiar o Pica-Pau. “Nós fomos esquecidos”, disse ele.