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Comitê Olímpico e Reportagens Australianas Perpetuam a Estigmatização das Favelas

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O Comitê Olímpico Australiano planeja proibir seus atletas e membros da equipe de visitar favelas, enquanto estiverem no Rio para os Jogos Olímpicos. A equipe do RioOnWatch pedi ao AOC que reconsidere a sua proibição e comentários, reconhecendo o papel que a mídia australiana tem desempenhado na visão deturpada das favelas como lugares inerentemente perigosos. Tal como está, a proibição de visitas nas favelas só contribui para estigmatizar ainda mais essas comunidades e justificar políticas nocivas, em um momento em que os Jogos Olímpicos oferecem uma grande oportunidade para aprender mais sobre as diversas realidades das favelas com quem mais as conhecem– seus moradores.

Em dezembro de 2015, o Comitê Olímpico Australiano (AOC) anunciou o que deveria ser “a emissão de protocolos sobre zonas proibidas”, que proíbe os atletas australianos de ir a certas áreas do Rio. A Chefe da Missão da AOC, Kitty Chiller, afirmou que “nenhum atleta ou membro da equipe será autorizado a entrar em uma favela, o que muita gente gosta de fazer–para dar uma olhada. Isso vai ser zona proibida para nós”.

Mais recentemente, em fevereiro de 2016, Chiller foi citada oferecendo mais explicações para as políticas de segurança do Comitê Olímpico: “Nós não queremos ser um Big Brother, não queremos atletas trancados em seus quartos às 20h, mas temos o dever de cuidar deles”.

O porta-voz  do AOC Mike Tancred emitiu declarações semelhantes: “Nossos atletas certamente irão se envolver com os moradores do Rio, e eles irão participar da diversão na praia de Copacabana, mas as favelas são áreas que não podemos controlar e a segurança pessoal dos nossos atletas deve vir em primeiro lugar”. A linguagem de controle e segurança aqui contribui para a estigmatização, um retrato errôneo de favelas como lugares inerentemente selvagens, caóticos, imprevisíveis e, finalmente, altamente perigosos.

Ironicamente, os comentários de Chiller em fevereiro fizeram referência ao assassinato de uma turista argentina em Copacabana, como se isso fosse um fator que contribuiu para o aumento do “risco de segurança” nas favelas. Este trágico incidente ocorreu na praia em um bairro formal em plena Zona Sul, não em uma favela. Correlacionando um incidente violento isolado em um local, com um risco de segurança generalizada em centenas de favelas em toda a cidade do Rio é um exemplo do preconceito equivocado que macula a percepção dessas comunidades.

O Prefeito do Rio Eduardo Paes foi rápido no seu comentário sobre a proposta  da AOC sobre “zonas de perigo” na cidade. “Paz e amor, Austrália, por favor!”, Disse à ABC News. Ele reconheceu que “há muita ignorância sobre o Rio e o Brasil, um certo drama da forma como as coisas são”, mas sugeriu: “Venham com o coração mais aberto e a mente aberta”. Referindo-se a uma sobrecarga percebida nos comentários críticos da Austrália, o prefeito disse: “Está OK  fazer [a proibição]. Eu não me queixo, mas o que [eu estou dizendo] é que isto sempre vem da Austrália”.

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A tensão entre as autoridades olímpicas australianas e Paes remontam desde abril de 2014, quando o vice-presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), o australiano John Coates, fez o comentário de que os preparativos para a Rio 2016 eram os piores que ele já tinha visto.

Felizmente a visão das favelas do Comitê Olímpico Australiano não é compartilhada por todos os outros na região da Oceania. O Comitê Olímpico da Nova Zelândia planeja apoiar o desporto nas favelas do Rio, doando equipamentos e envio de atletas e treinadores para trabalhar com jovens na Mangueira durante os Jogos. O Chefe de Missão da Nova Zelândia Rob Weddell explicou à equipe que estava “animado em trazer os Jogos Olímpicos para [a juventude da Mangueira] pois de outra forma poderia não chegar a vê-la e há um papel a desempenhar lá”. Ele ressaltou que os atletas precisam ter cuidado em todas as partes do mundo, mas questionou a necessidade da Austrália de “uma espécie de abordagem de encobrimento” de favelas.

AOC Chef de Mission Kitty Chiller. Photo by Ryan Osland

Favelas na mídia Australiana

As reportagens internacionais por muito tempo perpetuaram um retrato sensacionalista e estigmatizante das favelas do Rio de Janeiro. Geralmente, tem havido uma mudança positiva na cobertura da mídia internacional sobre as favelas, introduzindo mais nuance e contexto, ao longo dos últimos cinco anos. No entanto, nos últimos meses os comentários de autoridades olímpicas australianas e a cobertura pelos meios de comunicação australianos produziram retratos pobres que merecem especial atenção por reproduzir estigmas prejudiciais.

Em fevereiro de 2016, TEN Esporte publicou uma reportagem da AFP (Agence France-Presse) sobre o projeto de boxe Luta pela Paz na Maré com o título, “Jogos Olímpicos trazem esperança para crianças das favelas – para a sobrevivência”, com a frase de abertura: “Para as crianças em uma das favelas mais difíceis do Rio de Janeiro, o sonho de infância de glória olímpica vem com motivação extra: uma melhor chance de permanecer vivo”. A dramática descrição da Maré como um “mundo à parte, com áreas parecidas com o filme Mad Max” e a ênfase sensacionalista sobre o tráfico de drogas e violência oferecem uma percepção distorcida de uma comunidade conhecida por sua rica história, cultura e uma sociedade civil vibrante.

Em novembro de 2015, ABC News publicou um artigo sobre turismo na favela que iniciava assim: “No meio de um dos subúrbios mais pobres do Rio de Janeiro um homem negro alto se aproxima de mim e pega a minha mão. Ele não está prestes a roubar-me. Ou me vender drogas. Ele não tem planos para roubar meus órgãos ou dar-me a um traficante de pessoas. Ele só quer me mostrar como dançar”. Nesta introdução a autora reafirma todos os estereótipos falsos e negativos sobre os moradores negros das favelas e define o tom para um artigo estranho que mistura percepções pessoais da Rocinha com imprecisões, como igualar o programa da UPP com um processo de “civilização”.

As favelas não são lugares criminosos por natureza, mas são alvos fáceis para os grupos criminosos devido a três fatores principais: a negligência histórica do Estado que as deixou vulneráveis por mais de um século com baixa qualidade de acesso à ensino e saúde de qualidade (além de outros serviços públicos), a estagnação econômica de 1975 a 2005 e novamente agora–ao produzir baixos níveis de oportunidade econômica para os moradores e a criminalização histórica da pobreza que torna a aquisição de trabalho para os moradores de favelas excepcionalmente difíceis. Este último fator inclui uma série de situações que vão desde a discriminação que enfrentam os moradores negros de baixa renda das favelas quando se candidatam a empregos, às detenções arbitrárias sob a ditadura militar e também pelo atual programa da UPP que vê favelas como territórios a serem ocupados e “pacificados”.

O mesmo artigo da ABC News também faz confusão com a sua explicação de favelas: “Para os não iniciados, as favelas são enormes bairro de barracos que cresceram na periferia do Rio ao longo de mais de um século”. Na realidade, porém, as favelas hoje são bairros que podem ser encontrados em todas as partes da cidade. A própria Rocinha é uma favela na rica Zona Sul do Rio.

Além disso, as favelas não são nem “shanty towns” (lugares de barracos) nem “slums” (bairros miseráveis), como o artigo publicado na TEN Sport as rotula. “Shanty towns” são definidas pela má qualidade dos materiais de construção, de modo que o termo é um rótulo impreciso porque os barracos improvisados das favelas de antigamente, na sua grande maioria foram substituídos por estruturas sólidas de materiais de padrão. A conotação chave da palavra “slum” é miséria, e a palavra deriva de uma frase irlandesa que significa “um lugar sombrio e desamparado”.

A partir de 2013, no entanto, os moradores das favelas do Brasil foram responsáveis pela geração de R$38,6 bilhões por ano em atividades comerciais e 65% deles estavam na classe média. Muitas pessoas que vivem e trabalham em favelas não as vêem como sombrias, mas sim, como o diretor do Observatório de Favelas Jorge Barbosa escreveu: “Favelas são solos férteis para criação cultural”, onde “nos seus becos, vielas e pequenas praças estão os diferentes encontros que formam um tecido denso de sociabilidade, de religiosidade, de humanidade”.

Rocinha

Olhando mais para trás no tempo, nossas matérias anuais sobre as melhores e piores reportagens internacionais em favelas desde 2013 têm frequentemente listado matérias australianas entre as piores. Em dezembro 2014 a Fox Sports Australia destacou um relato da visita de um escritor ao Complexo do Alemão. O relato não tem quaisquer perspectivas diretas de moradores das favelas, o que permite que o autor, Adam Peacock, faça generalizações que estigmatizam a população. “Os pais estão ou desesperados tentando sobreviver, ou, mais provavelmente, enredados pela dependência das drogas”, escreve ele, insinuando que a maioria dos pais na favela são dependentes, ainda que não tenha dados para comprovar isso. Enquanto isso, a imagem de crianças felizes e ingênuas com pés descalços e “vestindo roupas esfarrapadas” retrata um nível de pobreza que existe no Complexo do Alemão, mas que não é a média. A comunidade, aliás, é cada vez mais habitada pela classe média baixa de consumidores e novos empresários, incluindo o primeiro shopping center da área. Para Peacock, no entanto, as “histórias e os sinais” que ele encontrou “deprimem a alma, que é ainda mais esmagada ao perceber que essa é apenas uma entre milhares [de favelas] no Brasil”.

Falando sobre “as favelas”

A sugestão de que as favelas são um grupo homogêneo, com condições idênticas alimenta diretamente a proibição da AOC a visita de atletas a qualquer favela do Rio de Janeiro. “As favelas” consideradas como iguais, altamente perigosas e lugares inerentemente criminosas é uma deturpação violenta da diversidade de comunidades do Rio de Janeiro. Há mais de 1.000 favelas no Rio e menos de 1% dos seus moradores estão envolvidos diretamente no tráfico de drogas. Nos últimos meses a Sky News Austrália e a 9news.com.au têm coberto a luta contra a remoção em curso na Vila Autódromo, favela localizada ao lado do Parque Olímpico. A Vila Autódromo é um exemplo de uma favela que nunca teve tráfico de drogas, e onde os moradores têm lutado por anos para permanecer na comunidade que amam.

Enquanto destacar favelas individuais sem tráfico é ótimo, supor que todas as outras têm o tráfico ainda é impreciso e problemático: esta reportagem da AFP publicada na Austrália Herald Sun diz que a Vila Autódromo não tem “nenhuma habitual violência alimentada pelo tráfico de drogas”, o artigo implica que a violência é “típica das favelas”. A moradora e guia turística do Santa Marta, Sheila Souza, expressou o quão frustrante essa tendência da mídia é: “Eu odeio quando as pessoas tentam nos classificar: ‘as pessoas da favela são assim’, ‘as pessoas da favela se comportam desse jeito’… É importante vir aqui e ter uma reação diferente, para entender que a vida real é diferente”.

Na verdade, tendo se desenvolvido organicamente a partir de uma necessidade não atendida de habitação e sem regulamentação do governo, uma característica definidora das favelas do Rio é que cada comunidade é inteiramente original. A cobertura das transformações da cidade feita pela jornalista australiana Yaara Bou Melhem para a SBS em 2013 destaca-se como um, particularmente, excelente exemplo de reportagem australiana que capturou a diversidade das favelas do Rio de Janeiro.

As percepções australianas importam

Então, por que as declarações do Comitê Olímpico Australiano ou a linguagem de jornalistas australianos importa? Porque fortalecendo as noções estigmatizantes a cerca de favelas do Rio, seja aqui no Brasil ou a milhares de milhas de distância, na Austrália, também fortalece as justificativas para políticas autoritárias mal planejadas e de mão pesada. Se favelas são vistas como inerentemente violentas, em seguida, as práticas policiais agressivas são vistas como justificáveis, e se favelas são vistas como miseráveis, então as remoções de moradores para habitação pública parecem intervenções generosos para melhorar a vida das pessoas.

A mídia sensacionalista ou comentários de atores de alta visibilidade como um Comitê Olímpico levam ao risco de perpetuar um ciclo vicioso. Se eles justificam políticas que negligenciam as reais necessidades das favelas, então a situação de vida realmente piora para o moradores, e essas condições por sua vez alimentam e irão fortalecer ainda mais os estigmas.

Com a aproximação dos Jogos Olímpicos as percepções internacionais importam agora mais do que nunca, porque tais megaeventos colocam a cidade anfitriã, essencialmente, em um palco para o público global criticar, e as pessoas no Rio–autoridades do governo e os cariocas em geral-são hiper-conscientes que a reputação será formada neste período dado ao intenso foco da mídia. Neste contexto, a proibição geral e comentários da AOC são simplesmente irresponsáveis, e os meios de comunicação australianos devem reconhecer seu papel na construção de uma imagem das favelas que guiou à decisão do Comité Olímpico.

Melbourne procurando imitar as qualidades de favela

Em contraste com os retratos destacados acima, as favelas possuem uma série de atributos e qualidades exaltadas por planejadores urbanos, e que cidades de todo o mundo procuram para a criação de um senso de comunidade. Elas têm baixa verticalidade porém alta densidade; orientação para pedestre; edifícios de uso misto (casas acima de lojas e locais de trabalho); alta utilização de bicicletas e transporte público; residências próximas aos locais de trabalho; e arquitetura orgânica (casas que evoluem de acordo com as necessidades dos seus ocupantes).

Na verdade, o The Age da Austrália publicou um artigo em 2014 reconhecendo a eficiência criada pelo desenvolvimento no estilo favela ao perguntar, “O que podem as favelas do Brasil nos ensinar sobre as cidades do futuro?”

O plano urbanístico mais recente da cidade de Melbourne–PLAN Melbourneconsidera a necessidade de um modelo não muito diferente deste, onde subúrbios tem como objetivo recriar um senso de comunidade. O Plano chama isso de “20 Minute City” (Cidade em 20 minutos), uma área onde as atividades e recursos diárias dos moradores são acessíveis dentro de 20 minutos de suas casas. Além da conveniência, promove a comunidade e também pode reduzir a densidade dos carros e aumentar o uso de bicicletas para fins ambientais.

As favelas do Rio oferecem espontaneamente um poderoso exemplo das qualidades de planejamento urbano que cidades (tais como a tentativa de Melbourne) muitas vezes têm grande dificuldade de emular. No entanto, a interpretação perpetuada pela proibição geral de que os atletas australianos visitem favelas, comentários de autoridades do AOC e reportagens estigmatizantes pelos meios de comunicação australianos se combinam para obscurecer as qualidades e lições positivas a serem aprendidas a partir dessas comunidades urbanas vibrantes e diversificadas.

Convidamos os membros do COA, bem como os atletas olímpicos australianos e jornalistas para visitarem as favelas com alguns dos guias moradores de favelas que já destacamos no RioOnWatch.