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Movimento em Expansão, Primavera Secundarista Celebra Dois Meses

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Os estudantes que atualmente ocupam as escolas secundaristas no Rio de Janeiro, São Paulo e Ceará saíram para as ruas em um ato de solidariedade na manhã do dia 4 de maio.

Protestos de rua foram realizados em frente as escolas ocupadas para refutar as tentativas do governo de enquadrar as questões levantadas pelos estudantes como pertencentes a escolas individuais, ao invés de um sintoma de um problema mais amplo.

A partir das 8 horas da manhã, mais de 200 estudantes do Colégio Estadual Visconde de Cairú e do Colégio Estadual Central do Brasil fizeram uma passeata na Rua Dias de Cruz, no Méier, na Zona Norte. Outros protestos de grande dimensão ocorreram na Tijuca, Bangu, Centro, Ilha do Governador, Niterói, Saquarema e Angra, com várias escolas protestando individualmente e ao mesmo tempo por todo o Estado do Rio de Janeiro.

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“Este foi um ato unificado das escolas ocupadas“, disse Sarah, 17 anos, líder da ocupação do Colégio Estadual Central do Brasil. “Nós organizamos esse ato para mostrar o porquê da gente estar lutando por uma educação melhor“.

Os protestos no Rio mostram também que o apoio público aos estudantes cresceu, com muitos observadores parabenizando os estudantes, gritando mensagens de apoio e juntando sua voz ao coro de exigências dos jovens. Motoristas de ônibus e seus passageiros gravaram vídeos dos protestos com seus celulares, sorrindo e acenando aos estudantes que bloqueavam a estrada.

“Acho ótimo,” disse Luisa, uma jovem mãe do Méier que saíra para fazer compras. “Os estudantes não têm o que eles precisam para educar-se, eles lutam agora por uma mudança importante”.

Ruth, uma mulher de setenta anos que passava, disse que se comoveu com os protestos dos estudantes na televisão. “Nosso jovem foi completamente abandonado… Eu apoio todas essas manifestações”.

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Professores, que também protestaram dia 4 de maio no Palácio Guanabara assinalando os dois meses de greve, afirmaram que os protestos estudantis podem resultar em melhorias para a educação no Estado do Rio de Janeiro.

“Pela primeira vez, esta greve é diferente. Os estudantes acordaram e lutam por melhores condições para todos nós. Isso me dá esperança”, diz Thiago*, professor do ensino médio na Baixada Fluminense.

Mais tarde, no dia 5 de maio, os estudantes ocuparam o edifício da Secretaria de Estado de Educação (SEEDUC) na região do Porto, em mais uma tentativa de fazer suas vozes serem ouvidas e as negociações renovadas.

A SEEDUC tem tentado desacreditar o movimento repetidas vezes, chamando-o de antidemocrático e acusando os estudantes de comportamento agressivo e falta de vontade de negociar.

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“Eles nunca tentaram negociar com a gente”,  afirma Sarah, líder do Colégio Central do Brasil. “Ele disse que ele só queria falar com o líder, mas não temos um líder aqui, ele tem que falar com todo mundo. Quando houve a reunião eu fiquei nervosa, pois ele dizia: ‘vocês têm que desocupar, senão serão reprovados’”.

A SEEDUC também procurou limitar a mobilidade dos estudantes em protesto—bloqueando cartões de ônibus que permitem o deslocamento gratuito dos estudantes—e encorajando outros estudantes a se manifestarem contra as ocupações.

O órgão público ofereceu aos estudantes que se opõem às ocupações a oportunidade de serem transferidos para outras escolas públicas para terminarem o anoembora não esteja claro como escolas com apenas 20-30% de professores que não aderiram à greve nacional irão acomodar um número maior de alunos.

Contexto

Estudantes em todo o Estado do Rio de Janeiro protestam contra cortes de verbas das escolas estaduais, que resultariam na queda dos padrões de aprendizado e de ensino. Com as propostas do governo que visam combater o défice no orçamento para a educação, a infraestrutura escolar diminuirá mais ainda, alimentação gratuita será substituída por lanches nutricionalmente deficientes, e o pessoal de limpeza e segurança podem ser arbitrariamente demitidos.

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Desde o início das ocupações, os estudantes têm descoberto recursos escolares que haviam sido restringidos por falta de financiamento, incluindo laboratórios de ciência e computação, bem como bibliotecas.

Os estudantes contam que em suas escolas, milhares de livros novos de matemática, português, ciências, música e política estavam armazenados em salas de aula.

“Eles não tinham capacidade de dar aula no laboratório, porque o local estava sendo usado para estocar livros”, conta Alan, um aluno de 18 anos do Colégio Mendes do Moraes, na Ilha do Governador, apontando para os livros empilhados no auditório da escola.

“Já tendo os livros, eles normalmente distribuem. Porém, eles não fizeram isso porque não têm profissionais para isso. Por causa do corte das verbas da educação, não temos mais inspetores, não temos mais porteiros, não temos mais os guardas que ficavam na cabine policial que fica do lado, e não temos mais as funcionárias da biblioteca.”

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Muitas escolas ocupadas recebem apoio de comunidades locais que fazem doações de materiais de limpeza, comida e provisões, assim como acadêmicos voluntários que participam em atividades educacionais conduzidas pelos estudantes.

No último mês, figuras da cultura popular também demonstraram seu apoio às ocupações. Os músicos Marisa Monte e Leoni visitaram o Colégio Estadual André Maurois, na Gávea, e deram um concerto gratuito para os estudantes daquela ocupação. Tom Zé, Criolo e MC Carol também deram seu apoio ao movimento em várias ocasiões.

A ‘primavera secundarista’ já se espalhou para além dos estados de São Paulo e Rio, com protestos ocorrendo na Bahia, Rio Grande do Sul, Pará, Distrito Federal e Goiás.

Com o rápido crescimento do número de escolas ocupadas em abril, e de acordo com ativistas, até o dia 5 de maio, 75 escolas públicas do ensino médio se encontravam ocupadas só no Rio de Janeiro, além de várias escolas técnicas. Existindo 5 escolas ocupadas no Estado do Ceará e mais 15 escolas que foram re-ocupadas em São Paulo até 29 de abril.

Apesar do Estado de São Paulo ter concordado em não fechar escolas públicas no início de 2016, os estudantes enfrentam as mesmas condições de aprendizado que os do Rio de Janeiro e dizem que o estado não cumpriu o acordo que fez com eles.

Os estudantes do Rio e de São Paulo já passaram por situações de agressão, violência e intimidação por parte de indivíduos e da Polícia Militar em várias ocasiões.

*Alguns nomes foram alterados para proteger a identidade de fontes que temem retaliações.