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Complexo do Chapadão Inspira com Sua 1ª Festa Literária na Biblioteca Comunitária Paulo Freire

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Era início da década de 90 e o país passava por incertezas. A inflação tirava o sono de todos, o presidente acabara de renunciar após um processo de impeachment e o governo recém-empossado tentava implantar mudanças na economia com uma nova moeda, o real. No Rio de Janeiro, especificamente na Zona Norte da capital, famílias de bairros como Pavuna, Guadalupe e Costa Barros resolveram construir um novo futuro. Estavam cansadas dos aluguéis, da falta de perspectivas e de amparo. Viram no conjunto de morros de barro amarelado, onde crianças brincavam de tobogã, o seu pedaço de chão. Homens, mulheres e crianças munidos de cordas e arames se ajudavam na demarcação dos terrenos. Os familiares, por muitas vezes, se revezavam na vigilância do local para que o tão sonhado lote não fosse ocupado por outros moradores. As construções improvisadas de madeira, aos poucos foram sendo substituídas por alvenaria e hoje, quase trinta anos depois, o Complexo do Chapadão, sonho de futuro melhor desse povo, é visto como um dos mais problemáticos conjuntos de favelas do Estado, no que diz respeito à segurança pública.

Formado por dezesseis favelas e localizado na Zona Norte, o complexo é figurinha carimbada nas páginas policiais. Segundo especialistas em segurança, atualmente, o local é considerado o quartel general da facção criminosa mais antiga do Rio. Tal fato teria ocorrido após a ocupação pelo Exército e em consequência da instalação da UPP no Complexo do Alemão, até então, o QG do crime organizado.

Entre os casos de violência ocorridos no Complexo do Chapadão que ganharam grande repercussão recentemente, está a morte do taxista Jorge Fernando Souza. De acordo com a polícia, a vítima, que era militar do Exército, teria sido confundido com um informante da polícia. O rapaz foi torturado antes de ter a morte decretada.

Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ) mostram que a violência na cidade que em agosto sediará os Jogos Olímpicos só aumenta. Em 2015, o estado viveu o pior dos últimos 23 anos no que diz respeito à roubo de cargas e, em 2016, a situação caminha para superar essa marca. Só no primeiro trimestre deste ano, foi registrado um número 11% superior que o do mesmo período do ano passado nessa modalidade. Foram registrados 1.988 roubos de carga, contra 1.790 casos nos três primeiros meses de 2015. Quando falamos sobre casos de mortes violentas, os números assustam ainda mais. Em 2015, cerca de 75% dos homens mortos pela polícia na cidade do Rio de Janeiro eram negros ou pardos. Das 232 vítimas de homicídio decorrente de suposto confronto, cerca de 25% tinham entre 18 e 29 anos. Na capital, quase metade das vítimas eram pardas (48,5%). Do total dos mortos em supostos confrontos, cerca de 28% eram negros. Entre as mais de 600 mortes oficialmente causadas pela polícia em todo o Estado, quase 30 eram de menores de idade.

Em todas essas estatísticas, a região figura como a com maior número de ocorrências dos chamados autos de resistência. No ano passado, foram 48 mortes. O número é bem diferente quando comparado com a Zona Sul da capital fluminense, onde durante todo o ano de 2015, somente uma pessoa foi morta em suposto confronto com a polícia.

Com uma crise econômica que vai afundando o Estado a cada dia e com a falta de políticas públicas, resta a população contar com o apoio dos moradores que sonham um dia em poder vivenciar uma realidade diferente da do atual momento. Na contramão deste cenário chocante, são pessoas com o mesmo perfil das vítimas assassinadas por ações do Estado que vêm fazendo a diferença na região. Elas não medem esforços para dar um novo rumo ao Complexo do Chapadão e, por muitas vezes, acabam ocupando o lugar que o governo deveria ocupar.

Entre esses benfeitores está Jocemir Moura dos Reis. Apesar de ter passado dos 30 anos, poderia facilmente ser enquadrado no perfil de vítima. Jocemir Reis tem como grande ferramenta de inclusão o incentivo à literatura para ajudar na formação e informação de quem vive no conjunto de favelas. Filósofo e produtor cultural, Jocemir sempre foi apegado a leitura. Seu pai, que trazia livros para serem restaurados em sua casa, acabou sendo a ponte. Com apenas 11 anos, o livro A República, obra de Platão, era o primeiro de muitos outros que o levaram ao caminho atual. Ganhador do Prêmio Extraordinário 2014, na categoria Educação, Jocemir foi reconhecido por realizar a Biblioteca Comunitária Paulo Freire, em Anchieta. O prêmio reconhece ações que têm como objetivo a melhoria da sociedade.

A Biblioteca Comunitária Paulo Freire completa uma década de atuação em um território completamente ignorado pelo poder público. Em comemoração à data, Jocemir criou a 1° FLICC – Festa Literária do Complexo do Chapadão, que aconteceu nos dias 03, 04 e 05  deste mês, na própria biblioteca.

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Um dos beneficiados é Diogo Oliveira, de 25 anos. Fruto do extinto projeto Luz, Câmera e Ação, escola de cinema que funcionou por 5 anos também em Costa Barros, o jovem viu de perto a fundação da biblioteca. Frequentador assíduo naquela época, agora ele ajuda na coordenação da Paulo Freire. “No início, não fazia parte da equipe, mas participava das oficinas e debates que aconteciam semanalmente”.

A vontade de proporcionar cultura e educação aos seus vizinhos não é pequena: “Tocamos o barco sem nenhum recurso público e por mais que o trabalho seja em prol da comunidade, ainda enfrentamos muitos desafios. Nossa equipe é pequena, o que torna tudo mais difícil”. No entanto, Diogo não desanima e acredita que cada vez mais a população local vem acreditando e participando de forma mais ativa dos projetos: “Com todos os problemas e dificuldades, a gente não perde o prazer pelo trabalho. O público vem aumentando. Adotamos uma estratégia de sempre criar eventos, como sarau, cine clube e exposições. A antiga casa contava com um grupo maior de artistas e produtores locais, o que ajudava a fomentar um público maior, mas creio que a nova casa já registra um número superior de visitantes”.

O jovem admite que no primeiro ciclo da biblioteca, estava muito presente, mas não recorda de ter lido mais de cinco livros naquela época. Na sua visão, estudar não era seu forte, mas as boas influências que teve foram fundamentais para que hoje ele não esteja nas páginas policiais. Segundo ele, a vontade que sentiu ao voltar aos estudos foi a chave que o fez redescobrir a biblioteca. “Reencontrei o Jocemir depois de alguns anos e ele me contou que estava criando um grupo de estudos que tinha como foco ajudar aos jovens a entrar em uma universidade pública. Não tinha nenhuma pretensão, achava impossível cursar uma universidade, até que decidi participar. Assimilei bem ao programa e em 2015 passei para a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, para o curso de artes visuais”.

Neste momento, Diogo tornava-se o primeiro de sua família a entrar em uma faculdade.

Durante a FLICC, alguns moradores que têm papel fundamental na transformação cultural local participaram das mesas de debate. Foi uma excelente oportunidade de evidenciar e afirmar a atuação na região.

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Jorge Wallace, de 23 anos, foi um deles. Comunicativo e sonhador, “Mais Um” como é conhecido, é organizador de uma batalha de rimas e de uma roda de brincadeiras paras as crianças. Tudo acontece em seu bairro, a Pavuna, vizinha ao Complexo do Chapadão. Wallace, assim como outros jovens que participaram da FLICC, poderia ter sido mais uma nas páginas policiais. Talvez nem estivesse vivo se não fossem os projetos sociais. O jovem falou sobre a apropriação da educação e cultura como ferramentas em prol do crescimento pessoal e comunitário. “O método de ensino utilizado no Brasil é muito antigo, e isso afasta, mas mesmo assim temos que absorver o máximo às coisas boas nas escolas. Por mais que alguns temas sejam desestimulantes, os livros continuam sendo uma saída”.

Para Jocemir, a principal proposta da festa é projetar o território como um grande centro de produção cultural que é excessivamente abafado pela preferência da grande mídia em divulgar temas que se refiram apenas à violência. Quanto a realidade local, o filósofo chama atenção: “Nossa maior dificuldade é o fato de que a população de um modo geral não consegue se ver enquanto território de cultura e não assume este modo de viver. Assim, a sensação é de que musica, artes plásticas, poesia, livros não fazem parte do horizonte do nosso povo, da nossa gente ou território”.

Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, formulada pelo Instituto Pró-Livro, a média da população brasileira, em 2015, foi ler 2,54 livros inteiros ou em partes. Se formos além, cada leitor leu 1,06 livro inteiro e 1,47 em partes. A região Sudeste foi a que teve a maior média, maior inclusive que a média nacional, com 2,98 livros. Sobre a percepção da população brasileira em relação às bibliotecas do país, o estudou mostrou que a Biblioteca é muito associada ao espaço para estudo e pesquisa. Embora sejam mais frequentadas por estudantes, cerca de 37% do público é formado por não estudantes. Entre outros dados, a pesquisa concluiu que o número de pessoas que afirmam saber existir uma biblioteca em seu bairro ou cidade caiu de 67% em 2011, para 55%, em 2015. Os entrevistados foram questionados se conheciam alguma biblioteca comunitária mantida por estabelecimentos ou moradores. Somente 15% deles confirmaram saber da existência. Deste total, apenas 4% disse frequentar uma biblioteca comunitária.

Durante a FLICC, foi possível perceber a pesquisa de forma prática e como a intenção da festa deu certo. Robson Soares, de 20 anos, é filho de uma diretora de escola pública e apesar de residir na mesma rua da Paulo Freire, esta foi a primeira vez que ele fez uma visita ao espaço. “Não sabia da existência da biblioteca, apesar de morar próximo, mas agora vou fazer da biblioteca meu segundo lar. Quero estar presente e ajudar no que for necessário para que o local receba cada vez mais visitantes”. Robson ficou sabendo do evento através de um cartaz dentro de um ônibus que circula dentro do complexo.

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Atualmente, o acervo da Paulo Freire conta com mais de 3.500 livros e atende algo em torno de 150 pessoas por mês. Os títulos vão desde Camões a Julio Ludemir, escritor carioca que tem as favelas como pano de fundo para suas obras.

Ludemir, criador da Festa Literária das Periferias – FLUPP, reconhece a importância do evento. “A FLICC é mais uma ação de democratização da leitura e tem o papel de criar um diálogo com toda a cidade. Não é porque o território é perigoso que as outras pessoas devam evitá-lo. Além disso, esses festivais são esforços para formação de novos leitores, que por sua vez, estão justamente nas periferias”.

A FLUPP foi premiada com o London Book Fair International Excellence Awards 2016 na categoria “Festival Literário”, concorrendo com outros três festivais, um deles foi a FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, que também ocorre no Estado do Rio de Janeiro.

Sobre os frequentadores da Paulo Freire, Jocemir diz que são alunos da região, principalmente da rede pública. Contudo, professores, universitários e idosos também utilizam o acervo. Aliás, a biblioteca proporciona momentos emocionantes. Uma vez, uma senhora chegou trazendo um menino para ter aulas de reforço escolar. Ela tinha uns 65 anos e era avó do garoto. Quando entrou no espaço, a senhora começou a chorar. Ela dizia que jamais havia visto tantos livros juntos e achou o máximo poder estar ali dentro.

Atualmente, o Complexo do Chapadão trava uma guerra de facções com outro conjunto de favelas, o Complexo da Pedreira, dominado por bandidos rivais. Não é só está guerra que interrompe o avanço educacional e cultural ali. As operações policiais, que são necessárias para coibir as constantes investidas do tráfico geram o mesmo prejuízo. As escolas fecham suas portas no primeiro som de tiro. Pais e filhos retornam para casa, sem ter com quem deixar as crianças, seus responsáveis acabam perdendo o dia de trabalho também. Na última operação, pelo menos 2.000 crianças ficaram sem aula.

A batalha de Jocemir e agora da FLICC é justamente essa, ser uma extensão da escola, ser uma alternativa. Mas com tantos problemas é difícil dizer que estarão sempre ali.

Renan Schuindt, nascido e criado em Costa Barros, atualmente trabalha como produtor de jornalismo da TV Band e coordena o Cineclube Cine Costa Barros. Renan já realizou trabalhos jornalísticos para a CUFA, Viva Favela, entre outros.

Colaboração Thiago Tiara.

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