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Jornalistas Comunitários Falam Sobre a Comunicação Comunitária e a Mídia na Favela

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No dia 3 de junho, a Faculdade de Comunicações da PUC reuniu um grupo de jornalistas de favelas para participar do ciclo de palestras “A Manhã de Mídias Locais”. Os irmãos Michele e Michel Silva da Rocinha, criadores do Jornal Fala Roça e Viva Rocinha; Gizele Martins, jornalista do O Cidadão do Complexo da Maré; e Claudia Santiago Gianotti, coordenadora do Curso de Comunicação Popular do Núcleo Piratininga de Comunicação, falaram para uma plateia de 100 pessoas sobre a importância das reportagens por moradores de favela sobre suas próprias histórias e vidas.

Comunicação Comunitária

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Os palestrantes ressaltaram a importância de empoderar moradores de favelas com o engajamento na comunicação comunitária, a qual defini os moradores de favelas como geradores de conteúdos e narradores de suas próprias histórias. Quando moradores das favelas se envolvem em jornalismofotografia, cinema, música e, em geral, expressam as suas vidas e dos demais moradores para outros moradores, eles estão realizando a comunicação comunitária. Gizele Martins disse aos jornalistas da PUC: “A comunicação comunitária reconhece o valor de nossas vidas, é uma criação da nossa identidade”. Além disso, as redes de expressão locais são as que mais recebem efetivamente mensagens de toda comunidade.

Gizele explicou que ao invés de ir à uma comunidade e decidir o que é a comunicação apropriada, “Você deve aceitar como os favelados já se comunicam”. Ela mostrou documentários feitos pelos moradores e enfatizou como os autores e protagonistas dos filmes e mesmo os criadores de trilhas sonora eram todos moradores de favelas, se comunicando de maneira adequada às necessidades de sua comunidade. Ela deu o exemplo do funk como sendo um estilo musical revolucionário que atua como um museu cultural vivo e um meio de comunicação, apesar das barreiras linguísticas.

Em um esforço para promover o jornalismo comunitário, Claudia Santiago Giannotti criou um curso de jornalismo direcionado às favelas, no qual moradores interessados podem desenvolver habilidades práticas para relatar sobre suas próprias vidas. Do curso, surgiu o jornal Vozes das Comunidades, uma plataforma voltada à publicação do trabalho realizado a cada ano por um grupo de estudantes em uma revista anual, disponível online. A plataforma explica que os alunos são “moradores de favelas ou ocupações, militantes sociais diversos, jornalistas, estudantes e demais interessados em construir a comunicação comunitária, aquela que dá voz a quem normalmente não possui espaço nos meios tradicionais [de mídia].”

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Do mesmo modo, Gizele Martins desenvolveu o Favela Fala, um curso de dois meses sobre comunicação comunitária para moradores da Maré. Ela contesta a ideia que pressupõe que se alguns moradores de favela não conseguem ler, logo não podem se comunicar: “Comunicar-se é um direito humano. Favela Fala é um curso que provará como todos podem se comunicar”.

Assim como Michele e Michel Silva criaram oficinas através do Fala Roça para apoiar jovens aspirantes a jornalistas em suas comunidades, esses coletivos de jornalistas comunitários demonstram uma tendência do jornalismo de favela no qual os participantes dão apoio a outros para ingressarem nesta atividade. Isso tanto oferece novas oportunidades para indivíduos, como fortalece comunidades inteiras, empoderando uma pluralidade de vozes anteriormente marginalizadas.

Desafios e estratégias

Os palestrantes também falaram sobre os desafios que a comunicação comunitária enfrenta, como censura e ameaças, escassez de financiamento, e o simples fato de que ainda nem todos os leitores ou seguidores em potencial têm acesso regular à internet, embora um estudo indica que moradores de favelas estão tecnologicamente mais conectados do que a média dos cidadãos do Rio. Entretanto, no verdadeiro espírito de favela, jornalistas comunitários são empreendedores criativos e têm encontrado táticas para superar essas dificuldades. Nas palavras de Michele Silva: “quando você tem contato com o outro lado da história, você não pode permanecer calado”.

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Plataformas online podem ser restritas aos moradores das comunidades com acesso à internet, mas a mídia digital também é um modo de baixo custo para publicar bastante conteúdo e se comunicar rapidamente com uma rede crescente de pessoas. A equipe do portal Viva Rocinha também decidiu reproduzir cópias impressas limitadas das publicações do jornal online para os moradores sem acesso à internet.

Michele Silva mencionou alguns problemas para obter financiamento, sem comprometer a integridade do jornal comunitário. Ela disse: “Temos que investir em vários projetos, mas hoje já estamos pensando em como podemos usar os fundos de que dispomos para fazer o melhor sem nos endividarmos. Estamos sempre tentando reduzir nossos custos, pois se necessitarmos de verbas de ONGs haverá uma série de restrições”. Utilizando anunciantes da comunidade e mantendo uma presença digital e o espaço de trabalho, Fala Roça é capaz de manter os custos baixos.

Documentando os documentários

Pouco antes do fim das palestras, Claudia Santiago Giannotti e Gizele Martins compartilharam o livro, o qual são coautoras, Experiências em Comunicação Popular no Rio de Janeiro Ontem e Hoje, publicado no dia 10 de maio. O livro documenta a história da resistência através da comunicação nas favelas do Rio. Experiências em Comunicação Popular proporciona um contexto aprofundado do trabalho local que tem servido de inspiração a muitos projetos de jornalismo comunitário e que inclui estudos de caso sobre numerosos grupos de comunicação comunitária nas favelas.

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