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Movimento ‘Black Lives Matter’ Visita o Rio

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Quarta-feira, 20 de julho, marcou o primeiro dia da visita do movimento Black Lives Matter (As Vidas Negras Importam) ao Rio como parte do Julho Negro.

O dia começou com uma coletiva de imprensa na Casa Pública em Botafogo onde os líderes do movimento Black Lives Matter se reuniram com ativistas do Coletivo Papo Reto, Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro, Movimento Mães de Maio, Mães de Manguinhos, Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência, Justiça Global, Fórum Social de Manguinhos, Anistia Internacional Brasil e outros grupos de ativismo locais e estudantes em defesa dos direitos da juventude negra no Brasil. A delegação do Black Lives Matter presente no Rio inclui Elizabeth Martin, Daunasia Yancey, o Reverendo Doutor John L. Selders, Jr., Pamela Selders, a Reverenda Waltrina N. Middleton e Brittíni Gray.

Na coletiva de imprensa, os líderes e ativistas compartilharam suas ideias sobre as semelhanças entre os Estados Unidos e o Brasil, comparando experiências de violência policial, história, racismo, formas de resistência e o papel da mídia.

Desde 2009, quando o Rio foi escolhido para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, mais de 2.500 pessoas foram mortas pela polícia. Durante o ano da Copa do Mundo de 2014, o número de assassinatos pela polícia aumentou em 40% no Estado do Rio. Conforme se aproxima o início dos Jogos Olímpicos no Rio, o número de mortes causadas por violência policial continua a aumentar em uma taxa ainda mais alta do que em 2014.

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Durante a conferência, os representantes do Black Lives Matter declararam que até o momento, em 2016, 600 pessoas foram mortas pela polícia nos Estados Unidos. Com o disparo na violência policial no Rio e os recentes assassinatos filmados de Philando Castile e Alton Sterling pela polícia e aumento da tensão racial que se seguiu nos EUA, estes diálogos tinham uma intensa urgência para eles, apesar de tanto a delegação do Black Lives Matter quanto os mobilizadores cariocas concordarem que estes problemas não são novos. 

No Brasil “a polícia é uma instituição essencialmente racista que foi criada para controlar e exterminar os negros. Não tenho esperança de um diálogo com o Estado; eu não acredito em um diálogo com a Polícia Militar. Acredito que nós só temos umas as outras”, declarou a fundadora da Mães de Maio, Débora Maria da Silva, cujo filho Edson Rogério Silva dos Santos, 29, foi morto a tiros pela polícia em 2010.

Brittíni Gray, uma mobilizadora do Black Lives Matter, poeta e estudante de mestrado, afirmou: “Nós construímos estes países, mas somos empurrados para o desespero econômico, sem oportunidades para viver plenamente nossas vidas. O racismo nos dois países pode parecer diferente, mas nossos ancestrais são os mesmos. Viemos da resistência. Nos defender faz parte de nós”.

Elizabeth Martin, que fundou a Brazil Police Watch (Dê Olho na Polícia Brasileira) após seu sobrinho Joe ser morto pela polícia carioca em 2007, disse: “Quando eu lia sobre a violência no Brasil, sempre se tratava dos criminosos–nunca da polícia. Estamos sabendo sobre os custos das construções Olímpicas, água poluída, Zika e crime, mas eu quero que o mundo saiba do horror que é a polícia matando cidadãos como parte das preparações para as Olimpíadas”.

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Os mobilizadores do Black Lives Matter e mobilizadores cariocas concordaram que a mídia exerce um papel importante na criminalização dos negros em geral e dos homens negros jovens especificamente, e também ao ignorar a violência policial, dando a ela uma cobertura mínima, se alguma. Débora Maria da Silva disse que a mídia no Brasil mostra apenas imagens negativas destes jovens, como no caso do seu filho. Após a morte destes jovens, a grande mídia não oferece oportunidades às famílias para se expressarem e explicarem a gravidade da violência que está ocorrendo. Ela tem esperança de que a mídia internacional possa trazer maior visibilidade da violência policial que está acontecendo no Brasil.

Apesar das semelhanças entre os dois países, os problemas no Brasil são reforçados pela relação única do país com a questão racial e a natureza extrema da força da Polícia Militar, que foi criada no século XIX explicitamente para reprimir a resistência negra e manter o privilégio branco. Com todas as diferenças, entretanto, havia um senso de união e solidariedade ao longo do evento de quarta-feira.

Daunasia Yancey, fundadora do braço de Boston do Black Lives Matter e ativista LGBT, disse: “Estou feliz de estar aqui, solidária a todos vocês. É importante que apoiemos uns aos outros porque sabemos que esta violência está conectada. A violência contra os negros é global e nossa resistência é global. Esta é uma longa tradição de resistência que mantemos juntos hoje. Como dissemos antes, não se trata de apenas um mau policial. Este é um sistema da polícia, com a qual a polícia trabalha. Precisamos que a mídia seja honesta, diga a verdade e compartilhe todas estas histórias. Juntos devemos recusar que ocorram mais assassinatos. Ser negro não é crime. O sistema cria as circunstâncias e então nos criminaliza por vivermos nelas. E isto é inaceitável. Vamos impedir isso juntos”.

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Após a coletiva de imprensa, os líderes e ativistas se deslocaram para o edifício do Ministério Público do Rio de Janeiro para se solidarizar com a mãe de Rafael Braga em uma vigília contra a prisão injusta de seu filho de 26 anos desde 2013.

Ana Paula Oliveira é uma ativista e membro do Mães de Manguinhos, um grupo de mães da favela de Manguinhos na Zona Norte que perdeu filhos para a violência policial. O filho de Ana Paula, Jonatha, foi morto a tiros pelos policiais da UPP enquanto estava indo comer sobremesa na casa da avó em maio de 2014.

Ana Paula disse: “Tenho uma imagem do Jonatha no meu peito, mas sei que esta imagem não representa apenas a ele: ela representa os muitos e muitos jovens que são assassinados todos os dias. Eu tenho consciência de que quando digo o nome Jonatha eu não estou falando apenas pelo meu filho, mas pelas muitas outras mães cujos filhos foram assassinados”.