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De Barcelona 1992 ao Rio 2016: Uma história de Duas Cidades Olímpicas

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Em setembro de 2015, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, escreveu um artigo de opinião na Folha de São Paulo, proclamando, orgulhosamente, que as Olimpíadas do Rio deixariam o mais importante legado em qualquer cidade, desde os Jogos de Barcelona de 1992. Intitulado “Os Jogos da Inclusão”, o artigo do prefeito repetiu as palavras do presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, prometendo que as mudanças na Cidade Olímpica melhorariam a vida de todos os cariocas, particularmente os mais pobres.

O artigo enfureceu ativistas sociais e moradores que sentiram e lutavam contra os efeitos perversos dos preparativos da Cidade Olímpica. Aliás, o artigo de opinião deu ao Comitê Popular da Copa do Mundo e das Olimpíadas o título apropriado para o seu extenso dossiê sobre as violações dos direitos humanos relacionadas aos megaeventos: Os Jogos da Exclusão. O slogan tornou-se um grito de guerra para muitos movimentos, que culminou com o protesto do dia 5 de agosto, que aconteceu próximo e um pouco antes da Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos 2016, com a ação intitulada “Rio 2016 – Jogos da Exclusão”.

Há problemas evidentes em comparar Barcelona, uma cidade de 1,6 milhões de habitantes na Europa, com o Rio, uma cidade de 6,4 milhões de habitantes, que ainda está lutando para conciliar a sociedade fragmentada herdada dos tempos da escravidão. Embora Barcelona tenha tido concentrações de barracos que foram “erradicados” seguindo a política que criminalizou e desalojou uma comunidade local de ciganos, isso não coincide com a rigidez da dualidade da cidade do Rio, dividida entre os vastos e cronicamente desfavorecidos assentamentos informais e uma cidade formal mais rica. Além disso, o crescimento inegável de Barcelona após os Jogos Olímpicos de 1992 foi impulsionado por diversos fatores, incluindo a entrada da Espanha na União Europeia, enquanto que as Olimpíadas do Rio estão acontecendo em um contexto de crise econômica nacional, instabilidade política e o recentemente anunciado “estado de calamidade pública” no Estado do Rio de Janeiro.

A pretensiosa comparação do prefeito com Barcelona pode ser vista como uma tentativa desesperada de distrair observadores das remoções em massa nas favelas, da degradação ambiental e da violência policial persistente e matança sistemática de jovens negros associadas a esse momento.

No entanto, o modelo de desenvolvimento urbano que o Rio seguiu pelas duas últimas décadas tem sido amplamente inspirado no chamado “Modelo Barcelona”. Consultores catalães desempenharam um papel influente na criação do plano estratégico municipal do Rio, nos anos seguintes ao “sucesso” das Olimpíadas de Barcelona de 1992. Através de reuniões entre consultores catalães e autoridades cariocas, ideias-chave derivadas da experiência de Barcelona foram trazidas para o Rio. Isso incluiu um modelo de planejamento específico que entende as cidades como nós econômicos estratégicos localizados em um ambiente competitivo, e que considera a função principal dos governos locais estar controlando e vendendo a imagem da cidade no mercado global, para atrair investimentos.

Depois de duas décadas, ainda não está claro até que ponto o Rio seguiu as recomendações estratégicas que os exportadores do “Modelo Barcelona” tinham a intenção de compartilhar, mas o enorme orçamento publicitário da prefeitura sugere que o Rio está tentando atrair investimentos através da gestão da marca. Porém, Jordi Borja, o criador do Modelo Barcelona e consultor das autoridades do Rio, desde então se distanciou abertamente da estratégia de planejamento especulativo e claramente excludente que o Rio seguiu durante os últimos sete anos.

Barcelona 1992: um modelo falho?

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Barcelona ainda oferece um modelo digno de ser desejado?

Barcelona começou a ganhar renome internacional pelas suas conquistas de planejamento no início dos anos 80, quando o primeiro governo municipal democraticamente eleito após a longa ditadura de Franco assumiu o cargo. Eram tempos de esperança entre os cidadãos locais. Uma atmosfera generalizada de triunfalismo social-democrata criou um consenso sobre o tipo de intervenções de planejamento que a cidade precisava urgentemente para melhorar as condições socioeconômicas e materiais para a população.

Soluções de planejamento socialmente construídas eram particularmente urgentes em face da crise econômica global nos anos 70, que teve um forte impacto em uma Barcelona degradada e desindustrializada, que estava resvalando para uma segregação social cada vez mais profunda. Conversas com catalães de mais de 40 anos sempre revelam o quão grande e rápida foi a transformação da cidade em apenas uma década. No início dos anos 80, autoridades locais usaram o planejamento urbano como a principal ferramenta estratégica para conter os efeitos da crise, gerando e promovendo atividade econômica baseada em serviços e no setor cultural, e construindo e melhorando espaços e instalações públicos, tanto em bairros centrais quanto em periféricos.

Esse modelo de desenvolvimento baseado em intervenções socialmente orientadas e de pequena escala mudou depois que Barcelona ganhou sua candidatura Olímpica na segunda metade da década de 80, quando crescentes recursos financeiros permitiram intervenções de grande escala e a melhoria da infraestrutura básica como as redes de mobilidade e de esgoto. Os esforços de planejamento da cidade rapidamente se voltaram para a geração de crescimento econômico, mudanças cosméticas, preparação dos esportes e instalações de alojamento, desenvolvimento da arquitetura icônica e crescente inclusão do setor privado para desenvolver eficientemente projetos específicos em parceria com autoridades públicas. Em suma, a prioridade passou de ajudar a população para preparar a festa Olímpica.

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Em Barcelona, a abertura da cidade para o mar e a construção de uma praia urbana foi um projeto Olímpico popular que continua a ser um legado positivo para a população. Mas outros grandes projetos de reabilitação urbana, particularmente aqueles no centro da cidade e ao longo dos distritos à beira-mar, foram altamente especulativos e destrutivos de muitas maneiras. Transformações urbanas de larga escala como a construção da Vila Olímpica e do 22@ district transformaram bairros da classe trabalhadora e industriais em um polo turístico e de entretenimento e em um distrito financeiro, respectivamente.

A construção desses distritos provocou a destruição da estrutura social e dos laços que existiam nas áreas antes das intervenções e do desalojamento de pequenos negócios locais, devido às pressões da competitividade econômica, e até a destruição do patrimônio arquitetônico. Além disso, a criação de condomínios fechados e privados, especialmente na Vila Olímpica, representou a privatização do espaço. Projetos como a Vila Olímpica repercutiram como planos anteriores solicitados por poderosos proprietários durante o período da ditadura.

Transformado em uma máquina de crescimento que patrocinou o turismo e a especulação imobiliária, o desvio que o “Modelo Barcelona” tomou nos anos que antecederam os Jogos Olímpicos e após os mesmos tornou-o irreconhecível até para alguns de seus criadores. Era apenas uma questão de tempo até que a insustentabilidade do modelo se tornasse evidente. Desde o início da crise econômica e da recessão, em 2008, um “estado de emergência social” tem agravado problemas persistentes associados ao turismo de massa e à gentrificação. Dezenas de milhares de famílias que não tinham condições de pagar hipoteca foram despejadas de suas casas à força; níveis de desemprego dispararam, especialmente entre os jovens; esforços para arcar com contas de luz e água tornaram-se uma realidade generalizada; e os riscos reais de exclusão social se multiplicaram.

Barcelona não tinha, e ainda não tem uma política de habitação social completa, que atenda tanto as parcelas mais ricas quanto as de menor renda da cidade; nenhuma legislação jamais foi feita para proteger os moradores dos efeitos da gentrificação galopante nos bairros centrais. A combinação desses fatores ajudou Ada Colau, uma ativista anti-remoções, que levou a nova coalizão de esquerda “Barcelona en Comú” a ganhar a eleição municipal há um ano, por assinalar o desejo público de afastar-se do modelo de desenvolvimento obsoleto e socialmente nocivo.

O modelo real: aprendendo de baixo para cima

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Barcelona não é um modelo e não há uma fórmula mágica Olímpica que pode ser simplesmente exportada e implementada em qualquer lugar no mundo. Se quaisquer paralelos podem ser traçados entre Rio e Barcelona, eles encontram-se na mobilização dos moradores para defender seus interesses coletivos e direitos à cidade contra os projetos da cidade Olímpica e da prolongada marketização da cidade como uma marca. Cidades, governos locais e, mais importante, moradores não devem ser seduzidos pela estratégia de marketing de discursos oficiais que afirmam reproduzir modelos exemplares.

Em Barcelona, as transformações da cidade desde o início dos anos 90 provocaram forte oposição das associações de moradores e organizações civis. Moradores organizados lutaram contra a destruição do patrimônio histórico (como o patrimônio industrial no distrito de Poble Nou) e pela inclusão, nos planos de desenvolvimento da cidade, de instalações em bairros mais periféricos.

Andrés Naya e Albert Recio, moradores e ativistas de Barcelona, refletiram sobre as lições que queriam compartilhar com ativistas em outras cidades Olímpicas: “Eles não devem ter que esperar para ver se os Jogos melhoram radicalmente a situação [antes de se mobilizar], e eles devem promover campanhas bem organizadas em torno de objetivos concretos. Além disso, eles não devem esperar muitos aliados. Nós todos sabemos que megaeventos esportivos alienam muitas consciências”.

Essas conclusões e lutas são comparáveis àquelas dos moradores e ativistas do Rio que lutam contra a violência do estado e as remoções de comunidades inteiras, e que lutam por educação, moradias decentes e melhoria das condições em bairros de baixa renda e favelas.

O estudioso de geografia humana da Universidade Federal Fluminense, Jorge Luiz Barbosa, explica que “Barcelona nunca teria alcançado o prestígio internacional que possui hoje se não fosse pelas conquistas sociais e urbanas promovidas pelas lutas dos movimentos dos moradores”. Tais lições devem ser adotadas na próxima Habitat III – Conferência das Nações Unidas Sobre Moradia e Desenvolvimento Urbano Sustentável. Copiar e colar um modelo de desenvolvimento urbano baseado em investimentos orientados para o mercado e marketing municipal nunca irá gerar uma cidade igualitária. As lições mais valiosas devem ser aprendidas de baixo para cima.