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Projeto Bandeirantes Já! Modelo de Educação Popular na Comunidade César Maia

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Localizada na Zona Oeste do Rio, cerca de 7 km ao oeste do recentemente construído Parque Olímpico, a comunidade César Maia é um conjunto habitacional existente há 22 anos e é o lar de um projeto sociocultural incrível, que oferece educação de qualidade para as crianças da comunidade. Fundado pela moradora Débora Vieira, Bandeirantes Já é um programa de educação complementar para crianças e jovens entre 3 e 21 anos. Bandeirantes Já é totalmente auto-sustentado e dirigido pela sua fundadora e jovens professores, que foram ex-alunos do projeto. No entanto, pela necessidade de se mudarem para um novo local, eles lançaram uma campanha de financiamento colaborativo para arrecadar fundos e criar uma nova sede na comunidade.

O projeto foi criado inicialmente em 2009 por oito alunos de um curso de empreendedorismo, incluindo Débora Vieira, e teve seu início com várias melhorias em toda a comunidade, como a criação de um parque público, e pintura e limpeza de espaços públicos.

Viera diz: “Queremos mostrar que existem pessoas boas aqui, porque quando as pessoas de fora olham para esta comunidade tudo que elas veem está relacionado ao crime… Queremos destacar os seres humanos que vivem aqui, há muitas pessoas instruídas. Pessoas que querem ter sucesso na vida”.

Débora Vieira, fundadora do Bandeirantes Já

Em seguida o projeto focou na educação de crianças e jovens. Débora começou a dar aulas de educação sexual, de graça, em uma escola pública local. Lá ela conheceu a estudante Beatriz, que dava aulas para as crianças em seu quintal e a ideia de criar uma “escolinha” (complementar) surgiu.

Atualmente, o projeto oferece educação gratuita para até 140 alunos. Eles treinam cerca de 20 ex-alunos para serem os professores e coordenadores do projeto. Os alunos que se tornam professores usam camisas vermelhas. Hoje, 22 alunos estão em treinamento para serem monitores, que irão vestir camisas verdes para monitores. O programa, portanto, ensina os alunos, treina os seus professores e prepara seus coordenadores, ou seja, todos os profissionais foram alunos do projeto.

As crianças do projeto também podem assistir às aulas na Escola SESC, que é um projeto de educação que oferece cursos multidisciplinares, tais como: teatro, gastronomia, artesanato e artes.

Dentro do projeto Bandeirantes Já! as crianças recebem aulas de leitura e redação, matemática, ciências da terra e da vida, assim, como cozinha, cabeleireiro e maquiagem. Há crianças que entraram no projeto aos 12 anos de idade semi alfabetizadas. Porém, um ano depois elas estavam aptas a realizar atividades do nível escolar da sua faixa etária.

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Além da ajuda na vida escolar, o projeto de educação proporciona as crianças um bom resultado também em seu desenvolvimento pessoal.

Berenice, 17 anos, coordenadora dos estudantes, diz: “quando entrei no projeto, eu era uma pessoa diferente. Eu era muito irritada e não tinha paciência, o que eu mais gostava era de dormir. Chegava na escola e dormia. Eu não pensava em mais ninguém, só em mim. Mas depois eu vi que tudo poderia mudar. Com as crianças aprendi a rir. Eles não tinham medo de mim, eles começaram a me chamar de ‘tia’, me abraçavam e me beijavam. Então, eu senti que as coisas podiam mudar”.

Outros alunos monitores contam histórias semelhantes. Luis Leonardo, 14 anos, fala da sua experiência com o Bandeirantes Já e como o projeto realmente mudou a sua vida. Descrevendo-se como encrenqueiro, ele diz: “Mudou meu comportamento, meu caminho e minha vida social porque eu fiz muitos amigos… e agora eu sei o que significa amizade… antes, eu era um menino com baixa autoestima. Quando entrei no projeto e comecei a fazer este trabalho minha autoestima foi levantada”.

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Gabriel, 17 anos, disse que o projeto o fez mais maduro, menos egoísta e lhe ensinou como lidar com a responsabilidade. Quando o projeto começou Gabriel foi um dos primeiros alunos. Ele está entrando no seu quarto ano como professor.

Os processos que os coordenadores do projeto passam é semelhante ao que professores do mundo todo passam e precisam dominar, mas com uma grande diferença: a idade. Quando Gabriel começou a ensinar ele tinha 13 anos e seus alunos 11. Ele diz: “eu fiquei muito nervoso e as crianças sentiam isso e respondiam, provocando um caos. Eu falava com eles e eles começavam a rir. Eu dizia ‘fiquem quietos’ e eles riam ainda mais, eles não me respeitavam… Dias e algumas semanas se passaram e as crianças começaram a me chamar de ‘tio’ e eu comecei a gostar e hoje todo mundo me respeita e eu me sinto muito bem”.

Gabriel enfatiza que o tempo dispensado no projeto é livre e ninguém é obrigado a estar lá, trate-se dos professores ou dos alunos. Ele afirma que o projeto se tornou parte da vida de todos, inclusive da dele.

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Dentro do César Maia esta ideia revolucionária teve um efeito de bola de neve significativa: o conhecimento, inicialmente repassado para os jovens professores, se espalhou entre os alunos mais jovens, que podem se tornar coordenadores a partir de um certo ponto de maturidade. Graças ao projeto uma atmosfera de desenvolvimento de baixo para cima tem crescido e César Maia está melhor devido a isto. Este tipo de projeto de educação popular, desenvolvido inteiramente de dentro para fora, pode crescer ainda mais com suporte. Ele também pode servir como um modelo para outras comunidades que apresentam similares déficits do ensino público, especialmente em um momento em que os professores do Rio estão em greve e os alunos ocupam as escolas para exigir melhorias. Débora espera espalhar sua ideia e, atualmente, está desenvolvendo uma metodologia detalhada que ela espera usar para se comunicar com outras iniciativas educacionais.

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A comunidade César Maia se beneficiou bastante com o projeto. Quando o Bandeirantes Já foi fundado há sete anos a comunidade estava abandonada pelas autoridades há vários anos. A iluminação pública não era mantida, não existiam espaços públicos, o lixo não era recolhido e não havia instalações de saúde pública. O conjunto habitacional foi construído sobre um antigo aterro e os gases de resíduos estão presos no subsolo, colocando o local em risco de explosão a qualquer momento.

Bandeirantes Já ajudou a mobilizar a comunidade, e como resultado alguns destes problemas foram resolvidos. A infraestrutura de iluminação pública é mantida. Agora, existe uma Clínica da Família acessível para todos os moradores e espaços públicos foram construídos e organizados. Graças a ações educativas sobre como lidar com o lixo e os seus riscos para a saúde, coordenadores do projeto tiveram sucesso com uma campanha de aumento de recipientes para a coleta de lixo na comunidade.

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Hoje, no entanto, Bandeirantes Já se encontra em uma situação difícil. O edifício que atualmente usam é um espaço público e não possui banheiros funcionando e a área fica muitas vezes inundada, trazendo lixo e mosquitos. A fundadora e diretora Débora Viera encontrou um espaço alternativo na rua principal do conjunto habitacional, onde vivem 90% dos alunos. Neste novo, e maior, edifício ela tem o sonho de acolher mais alunos. Ela também quer construir um dormitório para as crianças, caso necessitem quando enfrentarem situações complicadas em sua casa. Débora Vieira está cheia de ideias de como melhorar o projeto. Agora, o que ela precisa é angariar fundos, por isso lançou uma campanha de financiamento colaborativo que dura até o dia 01 de setembro. O objetivo é levantar US$5.556 para a compra do novo edifício e já conseguiram 57% do seu objetivo. Para saber mais sobre o projeto e fazer doações é só acessar a página da campanha aqui.

Confira nossas fotos do projeto (clique aqui para o álbum Flickr):