Últimas Notícias

Rio 2016 É Uma Piada Pronta: Humor como Resistência aos Jogos Olímpicos

Click Here for English

“O humor é uma arma perigosa” escreveu o filósofo francês Michel de Montaigne. George Orwell observou que cada piada é uma pequena revolução. Mark Twain proclamou o riso como a única arma verdadeiramente eficaz que a humanidade possui. Ativistas do Rio têm usado a criatividade como arma nos Jogos Olímpicos Rio 2016, assim como os ativistas de Londres que usaram o humor para destacar várias queixas ao evento, incluindo os danos ambientais causados pelos patrocinadores Olímpicos como a BP (British Petroleum).

Em Activism and the Olympics (Ativismo e as Olimpíadas), o estudioso acadêmico dos Jogos Olímpicos Jules Boykoff documentou como os ativistas em Londres sentiram que precisavam ser criativos, já que qualquer outra forma de intervenção seria impossível devido à repressão policial. O humor também foi uma estratégia deliberada para aumentar a audiência às críticas Olímpicas, estendendo a mão para além daqueles que já eram críticos. Dito isto, o humor sempre foi reconhecido como sendo um componente do mosaico ativista durante os preparativos dos Jogos Olímpicos de 2012.

IMAG0373

No Rio, os grafites ao redor da favela Vila Autódromo, ao lado do Parque Olímpico, viraram um terreno fértil para os trocadilhos. Grafitado sobre a parede que divide a comunidade do canteiro de obras do Parque Olímpico estava a palavra “Olim(piada)”. Ativistas até mesmo entoaram “Olim…piada, Olim…piada, Olim…piada!” em protesto quando o prédio da Associação de Moradores da Vila Autódromo foi demolido. Outro grafite utilizou a frase “paz e amor” e a reescreveu como “Paes sem amor”, ao mudar PAZ para PAES o grafiteiro destacou a falta de humanidade e amor na política do Prefeito Eduardo Paes quanto as remoções.

O programa da UPP, um componente chave na política de segurança do legado Olímpico, também tem atraído trocadilhos, juntamente com críticas pesadas do Coletivo Papo Reto. Raull Santiago escreveu em novembro de 2015 sobre o Complexo do Alemão: Cinco anos de “paciFICÇÂO com destaque para o fracasso da UPP em trazer a paz, de acordo com o nome prometido.

Durante a páscoa deste ano a hashtag #PazcoaNoAlemão foi trending topic nas mídias sociais, misturando as palavras Páscoa com Paz para pedir trégua dos tiroteios na comunidade.

Recentemente, o Coletivo Papo Reto e outras organizações da comunidade se apropriaram de um slogan usado pelos brasileiros descontentes com o processo de impeachment contra a Presidente Dilma Rousseff. A frase original era “Primeiramente, Fora Temer” em referência ao presidente interino. Para muitos moradores da favela o desrespeito pelos seus direitos humanos básicos é uma preocupação muito mais premente, levando alguns a postar a frase “Primeiramente, fora UPP”.

1610962_726672050792710_1643317672763789692_n

O vídeo abaixo, postado na página do Facebook Maré Vive, parodia potenciais esportes Olímpicos em uma favela, incluindo o atletismo (policias correndo com armas) e atirando em moradores negros da favela. “Fo***da-se” é escrito com os anéis Olímpicos na abertura do vídeo.

O Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas, um grupo de ativistas que coordenam as resistências contra as mudanças que as Olimpíadas trouxeram para o Rio, publicou uma contagem regressiva para os Jogos chamado “Cem dias sem direitos” jogando com as palavras 100 e “sem”.

As pessoas também têm feito conexões entre os Jogos Olímpicos e os escândalos políticos que tem acontecido no Brasil usando a hashtag #Olimpeachment enquanto a hashtag do geógrafo Christopher Gaffney, abaixo, destaca os excessos cometidos no planejamento da prefeitura nos últimos anos com outro aceno para Eduardo Paes, criando a hashtag #whoateallthepaes (#QuemComeuTodasAsTortas, onde em inglês “pies” ou “torta” se fala que nem “Paes”).

Um movimento para apagar a tocha Olímpica durante a sua passagem pelo Brasil fez pessoas criarem páginas no Facebook com o intuito de apagarem a tocha em São Paulo e no Rio de Janeiro, que, juntas, conquistaram mais de 85.000 seguidores. As tentativas iniciais de realizar isso com baldes de água e extintores de incêndio foram infrutíferas, mas no dia 27 de julho os protestos em Angra dos Reis, Estado do Rio de Janeiro, fizeram os carregadores da tocha Olímpica ter que recuar para um ônibus com a chama Olímpica apagada. O Comitê Olímpico Internacional se baseia sobre simbolismo, então apagar a chama da tocha Olímpica é uma forma de criticar as Olimpíadas, demonstrando a raiva sobre os enormes gastos, enquanto questões mais importantes para os moradores do Rio e do Brasil vão sendo ignoradas e subfinanciadas.

Infraestrutura em bairros fora da região das Olimpíadas, tanto em bairros formais ou informais, tem sido notoriamente negligenciados nesses anos pré-Olímpicos. No histórico bairro de Santa Teresa foi feito um protesto através de vídeo em 2015, falando do “Parque Olímpico de Santa Teresa”, destacando as obras lentas que ocorrem no bairro há meia década, descrevendo um atleta que compete no “novo Parque Olímpico”:

O humor é uma parte importante do ativismo ajudando a alcançar novos públicos, dando a organizadores a energia para seguir em frente. Com cada piada, nessa era contemporânea das mídias sociais, onde os memes se espalham como fogo, o ponto de vista político de um ativista pode alcançar novos públicos. Isso abre espaço para perspectivas críticas sobre temas como os Jogos Olímpicos e as UPPs, que são, por vezes, apresentados como positivos pela grande mídia. Enquanto alguns argumentam que fazer piadas diminui a mensagem, dentro de uma veia maior de ativismo, o humor pode envolver novos públicos em discursos críticos de uma forma que outras formas de ativismo não podem. Apenas rir não muda nada, mas pode unir as pessoas–e quando um número suficiente de pessoas se organizam em conjunto tudo é possível.

Adam Talbot é um pesquisador de doutorado no Centro de Estudos de Esportes, Turismo e Lazer da Universidade de Brighton, no Reino Unido. Ele está realizando um projeto etnográfico com foco em movimentos sociais e ativismo nos Jogos Olímpicos Rios 2016.