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A Lutadora, O Lado Negro dos Jogos Olímpicos [RESENHA]

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O documentário A Lutadora conta a história da Vila Autódromo, favela que fez fronteira com o Parque Olímpico na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, através dos olhos de Naomy, de 12 anos de idade.

A Lutadora: O Lado Negro dos Jogos Olímpicos foi financiado pela campanha ChildrenWin, da ONG Terre des Hommes, que visa avaliar, especificamente, os efeitos de megaeventos nas crianças que vivem em cidades anfitriãs. O arco narrativo do filme inicia voltando a 2014. Naomy revela que o seu primeiro contato com as Olimpíadas foi no contexto da pressão para deixar sua comunidade, onde 900 famílias viviam originalmente.

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Uma série de imagens idílicas apresentam a vida na Vila Autódromo antes das construções para as Olimpíadas: o sol refletindo na água e silhuetas em frente ao moderno horizonte urbano da Barra da Tijuca, enquanto um morador rema pela lagoa em um pequeno barco. Naomy fala sobre caçar e comer jacarés com seu pai, um pescador da Vila Autódromo, enquanto um jacaré desliza por reflexos das nuvens. Mas o foco temático do filme–o trauma e a impotência sentida por crianças impactadas pelas remoções no período da preparação das Olimpíadas de 2016–é rapidamente introduzido, e de repente Naomy é mostrada em meio aos escombros de sua favela e algumas árvores restantes. O senso de incapacidade pessoal de ter controle sobre o que acontece é reforçado ao longo do filme, com a filmagem dos moradores observando enquanto trabalhadores nas construções empunham marretas e escavadeiras derrubando as paredes sem esforço.

A destruição da Vila Autódromo, tanto como espaço físico quanto como comunidade, é reiterada no decorrer do A Lutadora. Naomy comenta sobre como as construções Olímpicas poluíram a lagoa, destruindo o mercado da pesca que outrora havia sido a principal fonte de subsistência econômica da comunidade. A câmera assiste enquanto ela anda por um amanhecer rosado a caminho da escola, com as construções já em progresso. A trajetória do filme viaja até o tempo presente, e assim o número de habitantes remanescentes e a esperança entre aqueles que ficam diminui. Os amigos de Naomy e a família de sua mãe estão entre os muitos moradores que perderam as esperanças de se manterem em suas propriedades e que se mudaram.

Naomy abraça sua mãe que chora, ao verem casas na Vila Autódromo sendo demolidas.

A falta de um espaço seguro para crianças é um tema enfatizado ao longo do filme, com filmagens de crianças brincando próximo a escavadeiras ligadas e nos andares superiores de casas parcialmente destruídas do que restou da Vila Autódromo. Mas a alternativa oferecida pela prefeitura, habitação pública do Minha Casa Minha Vida, no Parque Carioca, para onde a mãe de Naomy se mudou, não é apresentada como um espaço mais amigável para as crianças: pequenos apartamentos em vez de casas, com espaço interno limitado e sem áreas recreacionais para crianças.

A Lutadora explora como a prefeitura minou a autonomia dos moradores, demolindo lares e usando violência policial para intimidar os cidadãos e ferir manifestantes pacíficos. A ativista Maria da Penha foi vítima de um desses incidentes, sendo ferida de modo a ensanguentar seu nariz e ter hematomas nos olhos, algo que pode ser visto em uma das entrevistas em A Lutadora. O pai de Naomy, Altair, foi forçado a construir uma nova casa após sua moradia original ter sido demolida–apesar dessa segunda casa também ter sido destruída com a ajuda das Tropas de Choque, depois que as filmagens de A Lutadora terminaram. Mas Naomy tem ainda menos poder do que os moradores adultos. Impossibilitada de participar dos protestos nos quais a violência policial é uma possibilidade, a incerteza de Naomy é contida nos seus escritos e reflexões que compartilha com a câmera. Ela pensa constantemente sobre o que acontecerá com ela posteriormente, onde ela irá viver, o que acontecerá com seus amigos e com as pessoas que viviam em sua comunidade e de onde veio os bilhões de reais necessários para sediar os Jogos no Rio.

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A análise do A Lutadora sobre como megaeventos, como as Olimpíadas e a Copa do Mundo, podem violar direitos à moradia foca nitidamente em como as crianças são seriamente afetadas por essas mudanças e no trauma que emerge da instabilidade criada. Apesar do filme terminar com uma mensagem de esperança–Naomy, andando por um sol que se põe, decide continuar na luta pelo reconhecimento de seus direitos–o relato de A Lutadora é apenas uma de muitas narrativas similares pelo Rio, onde a remoção forçada pelo governo infelizmente se tornou algo comum.

As 20 famílias restantes na Vila Autódromo chegaram a um acordo com a prefeitura do Rio para permanecerem–em casas recém-construídas–e receberem as chaves para suas novas moradias no dia 29 de julho. Naomy e seu pai não estavam entre as famílias que puderam continuar a morar na localidade original da Vila Autódromo, pois foram removidos após a prefeitura anunciar a desapropriação por decreto em 2015. Eles agora vivem de aluguel enquanto constroem sua nova casa e uma nova vida, a trinta minutos de distância.

Para assistir A Lutadora e os outros curta-metragens produzidos para a campanha Children Win, da ONG Terre des Hommes: “A Artista”; “O Estacionamento” e “A Bala”, procure-os na Internet ou venha hoje, 27 de agosto, para a exibição na Casa Pública. Os filmes, protagonizados por crianças de comunidades do Rio de Janeiro, revelam o olhar infantil diante de problemas como as remoções forçadas e a violência policial nas favelas cariocas. Após a exibição dos curtas de hoje, será realizado um debate com a representante da campanha Children Win Andrea Florence, Michele Gonçalves, do Instituto Igarapé, e Maria da Penha Macena, moradora e ativista da Vila Autódromo.

Assista ao filme aqui: