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Moradores de Favelas Denunciam nas Redes Sociais o Número de Mortes dos Jogos Olímpicos

"Acabaram o ouro, prata e bronze, mas o chumbo continua"! Cartoon por Carlos Henrique Latuff

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Entre 5 e 21 de agosto, ao longo dos Jogos Olímpicos, 92 tiroteios aconteceram no Rio, deixando pelo menos 31 mortos e 51 feridos por causa de conflitos armados, de acordo com os dados gerados pelo aplicativo Fogo Cruzado, lançado em julho pela Anistia Internacional Brasil para rastrear tiroteios no Rio reportados por usuários contribuidores.

A violência vivida em muitas das favelas do Rio durante estas duas semanas não era sem precedentes, nem aconteceram isoladamente. Desde 2009 quando o Rio foi escolhido para sediar os Jogos Olímpicos e Paralímpicos, a Anistia relata que mais de 2.600 pessoas foram assassinadas pela polícia na cidade. Dos quais mais de três quartos eram jovens homens negrosMesmo antes do processo de preparação Olímpica, o programa do Rio de segurança militarizada para os megaeventos já havia começado a tomar forma nos preparativos dos Jogos Pan-Americanos de 2007 e na Copa do Mundo de 2014. Repetindo o padrão observado antes dos dois megaeventos anteriores, execuções extrajudiciais aumentaram com a chegada dos Jogos Olímpicos de 2016.

Ao mesmo tempo em que houveram esforços combinados para desviar a atenção da mídia e controlar atos públicos de protesto político, as mídias sociais ofereceram plataformas poderosas para moradores de favelas, atingidos pela violência Olímpica, projetarem suas vozes. Muitos aproveitaram a oportunidade para denunciar aparatos de segurança pública que priorizam a segurança dos estrangeiros à custa da vida dos moradores de favelas.

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No início da manhã de 3 de agosto, apenas dois dias antes da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, uma megaoperação foi realizada pela Polícia Civil e pela Polícia Militar no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. O grupo de mídia independente Coletivo Papo Reto do Complexo do Alemão relatou a situação através de uma postagem no Facebook:

“Antes das 6h da manhã, moradores eram revistados em diferentes entradas da favela. Próximo das 6h30, o caveirão entra no morro e as casas tremem, enquanto somos acordados pelo barulho gigantesco do blindado aéreo, em seus rasantes tão perto das casas que parece que vai pousar em alguma delas. Essa é a realidade nas favelas, violações diversas e polícia como única política pública. Daí quando se pensa que não pode piorar, mandam mais polícia. A participação da favela nas OlimPIÁDAS, é ter nossa vida militarizada, é viver a contenção da camada pobre, sob o fuzil do estado.”

Durante todo o dia, Papo Reto compartilhou fotos enviadas pelos moradores, de casas invadidas durante as buscas policiais.

Além do Alemão, as favelas de Acari, Borel, Del Castilho, Manguinhos e Maré na Zona Norte; a favela Cidade de Deus na Zona Oeste; e a favela do Cantagalo na Zona Sul viveram intensas operações policiais durante o período em que os Jogos aconteceram.

Em tempos de tensão na Cidade de Deus, a medalha de ouro conquistada pela judoca Rafaela Silva foi amplamente celebrada como fonte de orgulho e inspiração para a comunidade. No dia 8 de agosto, moradores da Cidade de Deus e ator Ricardo Fernandes postaram: “Ontem, na Cdd, teve tiros, correria e desespero. Hoje, temos o primeiro ouro da equipe brasileira Olímpica, e esse ouro veio de uma MENINA, PRETA, MORADORA DA FAVELA CIDADE DE DEUS, a mesma FAVELA que ontem teve tiros, correria e desespero”.

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A vitória de Rafaela foi celebrada com um desfile através da comunidade algumas semanas mais tarde. No dia da comemoração, morador da Cidade de Deus e cineasta Wagner Novais postou:

“Quando terminou a luta reiniciou o tiroteio… Todos sabem que estamos num espaço de exceção isto não é novidade nenhuma… Foi bonito ver os olhos dos moradores brilhando com admiração de alguém que é cria da favela e, mesmo diante de tanta adversidade, se superou e venceu. Esta e outras histórias semelhantes inspiram, mas não vivemos só delas. É uma exceção que confirma a regra.”

No dia 10 de agosto, os moradores do Alemão foram despertados ao som de tiros–um fenômeno que se tornou rotina nos últimos meses. Thainã de Medeiros do Coletivo Papo Reto compartilhou um áudio de tiros sendo disparados, com a legenda: “Medalha de ouro em tiro #Rio2016 #CidadeOlimpica”.

No mesmo dia, na entrada da Vila do João na Maré, um soldado da Força Nacional foi baleado na cabeça e morto. O incidente, que recebeu generalizada atenção da mídia, foi citado como justificativa para uma série de operações policiais que se desenrolou na Maré, ao longo da semana. 

O Grupo da mídia comunitária Maré Vive postou o relato de um morador a partir da linha de frente no dia seguinte:

“Helicóptero voando baixo, janela tremendo forte. O dia clareando. As ruas tomadas pelo silêncio e por carros blindados, tanques de guerra. Tensão. Favela da Maré. Exercito, BOPE, Força Nacional. Segurança Pública… De volta as ruas. Cruzo com o BOPE. Medalha de chumbo em arrombamento de portas. De volta pra casa. Na tv, o “ao vivo” mostra o cerco da policia a comunidade. Estamos na mídia. Lugar a ser evitado. Vou na janela, primeiro plano. O helicóptero dá rasantes na Vila do João. Ministro da justiça. Errou o caminho. Foi baleado.. suspeitos identificados. Café quente, vento frio. Nos escondemos na sombra do medo. Horizonte. Por trás do helicóptero, cristo redentor, pedra da gávea e o pão de açúcar. Ponto turístico. Repórter sorrindo. Fechando a janela, o blindado está vindo…”

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Apesar das  proteções constitucionais contra invasões de casa sem mandado (exceto em circunstâncias excepcionais sancionados judicialmente, de acordo com Artigo 5, secção XI), os moradores da Maré relataram frequentes violações de direitos. Maré Vive postou uma foto de dois oficiais do BOPE camuflados, um que aponta seu rifle e outro que aparece mexendo no portão de uma casa, com a legenda: “Essa é a polícia na Cidade Olímpica. Medalha de chumbo em arrombamentos de portas. Agindo por impulso e colocando a vida de muita gente em risco. Mandado? Não existe. Aqui tá liberado invadir a casa das pessoas…”.

No mesmo dia, 11 de agosto, Maré Vive compartilhou uma postagem pelo fotógrafo Bira Carvalho, descrevendo “os Jogos Olímpicos de todo dia” em um espaço militarizado:

“100, 200 metros para salvar a própria vida, um detalhe, a equipe de tiro estava com mais de um uniforme, tinham preto e tinha camuflado, mas aqui, os alvos não são uma silhueta preta, aqui são pretos vivos ou mortos de medo. Eu pensava que como na Grécia antiga, os jogos eram uma forma de trazer paz, de evitar a guerra, porém aqui, não funcionou.”

A jornalista comunitária Gizele Martins da Maré postou: “‘Clima Olímpico’ no asfalto e ‘Clima de guerra e medo’ na favela! Estamos pagando com a vida para você se divertir! Uma guerra inventada pelo Estado!”.

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“Chacina de Negro. Pobres favelados… Você grita gol!”

Também em 11 de agosto, uma operação do Batalhão de Choque da Polícia Militar na favela Bandeira 2 em Del Castilho, deixou três jovens mortos–idades 14, 15 e 22. O fotógrafo Carlos Coutinho do Coletivo Papo Reto capturou a cena na manhã seguinte com sangue escorrendo pela rua. Papo Reto compartilhou a foto com o subtítulo: “Só escorre sangue de favelado, preto e pobre”.

Blood running in Bandeira 2. Photo by Carlos Coutinho

Em 16 de agosto, uma segunda operação intensa foi realizada na Maré. A operação deixou três pessoas mortas, sem mesmo mandado de prisão em seus nomes. Maré Vive contou o caos que se seguiu:

“Até agora o saldo é de 5 pessoas mortas, algumas baleadas e milhares de pessoas impedidas de trabalhar, estudar, assustadas, aterrorizadas, com suas casas invadidas… O nome disso é genocídio, extermínio, chacina, esculacho. E ninguém fala nada… Dentro das favelas do Rio de Janeiro o que não falta é arma. A gente precisa viver!”

Nesse mesmo dia, Raull Santiago do Coletivo Papo Reto postou:

“JAMAIS SE ESQUEÇAM que ‘operação policial de guerra às drogas‘ e ‘bala perdida’ só acontecem e existem em lugares específicos de nossa cidade. É nas favelas e periferias, que nossos lares e corpos são encontradas pelo fuzil que dispara racismo, preconceitos e extermina diariamente nosso povo em sua maioria preto e nordestino, nessa justificativa de repressão as drogas. Operação de guerra às drogas é controle violento de uma certa população e ‘bala perdida’ é ferramenta de extermínio.”

Camila Santos do Complexo do Alemão postou um tributo para Darlene da Silva Gonçalves, de 43 anos de idade, mulher baleada e assassinada por uma bala perdida em 18 de agosto: “O povo chorando em Copacabana… Pelo ouro. E nós chorando aqui no Complexo do Alemão pelo sangue derramado de mais um inocente. Descanse em paz dona Darlene”.

Em 19 de agosto, em face de mais um dia de intensos tiroteios no Complexo do Alemão, Coletivo Papo Reto postou um vídeo de “Aqui é Cidade em Guerra” subtitulado: “Enquanto alguns comemoram, aqui tentamos sobreviver! Áudio enviado por uma moradora, um pequeno recorte da intensa guerra de hoje. Ontem, uma moradora ficou ferida e outra morreu, encontrada pelas tais ‘balas perdidas’ que só existem dentro das favelas. ISSO TEM QUE PARAR!!!!”

Seguindo a redenção do Brasil contra a Alemanha na final do futebol masculino, moradora do Complexo do Alemão Mariluce Mariá de Souza postou no Facebook:

“Queria tanto que fossemos bons também no quesito educação, saúde, segurança, política, etc. Amanhã volta tudo como antes, os nossos queridos jogadores embarcarão para os países onde moram e vamos ficar aqui com os nossos problemas de sempre.”

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Entre os espectadores no estádio do Maracanã em 20 de agosto estava Carlos Henrique do Carmo Souza, pai do Carlos Eduardo da Silva de Souza de 16 anos de idade, conhecido como Carlinhos, uma das cinco vítimas mortas a tiros por 111 balas em Costa Barros em novembro de 2015. Em um ato de protesto pacífico, Carlos Henrique segurou uma faixa sobre o parapeito no estádio com os rostos dos cinco rapazes, mortos pela polícia, dentro dos anéis olímpicos. Na faixa estava escrito: “Rio, por 450 anos campeão olímpico de assassinatos a índios, negros e pobres”.

Ana Paula Oliveira, cujo filho Jonatha de 19 anos foi morto pela polícia em maio de 2014, compartilhou uma foto da demonstração de Carlos Henrique no Maracanã, escrevendo: “Eu queria tanto que esse Maracanã lotado gritasse contra o extermínio da juventude negra!! A INDIFERENÇA TAMBÉM MATA!!”.

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Também no dia do jogo, moradores de favelas e simpatizantes foram às ruas para realizar o primeiro ato da campanha #FomeDeViver na Praça Mauá, na Região do Porto, em um esforço para chamar a atenção para as atrocidades cometidas sob o pretexto de garantir a segurança durante os Jogos Olímpicos. Os manifestantes levantaram uma grande faixa laranja brilhante, com os dizeres: “Com quantos corpos negros e favelados se faz uma Olimpíada?”

Refletindo sobre a cerimônia de encerramento, a moradora de Acari, Buba Aguiar escreveu uma postagem no Facebook criticando a narrativa do Rio como cidade-sede imperfeita-mas-bonita, sem vergonha de suas falhas, propagada por algumas autoridades Olímpicas:

“As mazelas do Rio de Janeiro foram expostas para o público Olímpico não pelos organizadores da tal festa, mas pelas pessoas atingidas pelos bastidores da mesma, que em nenhum momento foram convidados pro evento, e pelo contrário, foram convidados a se retirarem de cena. Nós, moradores de favelas, durante os Jogos Olímpicos, fomos atacados de inúmeras formas pelo estado e seu braço armado em nosso território. E sim, fomos NÓS quem denunciamos as NOSSAS mazelas, assim como também fomos NÓS quem mostramos tudo de bom que tem em NOSSAS favelas.”

Poucos dias após o encerramento dos Jogos, em 23 de agosto, Thainã de Medeiros postou um gráfico do The Intercept Brasil com dados sobre a violência durante os Jogos Olímpicos, comentando: “Que bom! 107 tiroteios, 34 mortos, 58 feridos ajudaram a deixar 90% dos turistas seguros. Um detalhe importante é que dos 34 mortos, 6 eram agentes de segurança e dos 58 feridos 28 eram agentes públicos, ou seja, a ‘política de segurança’ não serve nem para os próprios agentes do estado. Isso é uma escolha, a opção aqui é clara: investimento em guerra nas áreas pobres pra garantir os ricos. Não importa quem morre. Somos substituíveis”. (Os dados do The Intercept incluem os dois dias antes da cerimônia de abertura na sua faixa de dados, assim, ligeiramente diferentes dos números citados anteriormente pelo Fogo Cruzado).

Na esteira das Olimpíadas da Rio 2016 meios de comunicação internacionais refletiram sobre os Jogos–alguns celebraram a evasão de uma catástrofe provocada pela Zika ou por terrorismo, outros avaliaram os custos efetuados: foram os Jogos Olímpicos bem-sucedidos? A cidade estava segura? Valeu a pena? Os aproximadamente 85.000 agentes de segurança espalhados por todo o Brasil, incluindo 21.000 militares dotados de poder de polícia no Rio devem patrulhar corredores turísticos através das Paraolimpíadas e pelo menos até as eleições municipais de outubro. Enquanto isso, a militarização do espaço urbano em muitas das favelas da cidade continuará a ser experimentado como um legado Olímpico que vai muito além destas semanas de esporte e folia. 

“Eles conseguem tudo com perfeição”, a moradora do Complexo do Alemão Zilda Chaves postou“Só não conseguem acabar com as ‘balas achadas’ em corpos pretos no Rio de Janeiro”.