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A Pequena ONG que Mudou a Forma de Reportar Favelas do Rio Durante as Olimpíadas

Imagens da Vila Autódromo, favela perto do Parque Olímpico que recebeu moradia em área urbanizada após uma longa batalha contra a remoção.

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Leia a matéria original por Katia Savchuk em inglês no The Development Set aqui. Matéria da destaque ao trabalho da Comunidades Catalisadoras e do projeto RioOnWatch promovendo mais nuance e coberturas produtivas sobre as favelas do Rio no período pré-Olímpico.

“Se jornalistas não têm acesso às comunidades ou noção de suas histórias, eles começam a produzir os mesmos velhos estereótipos.”

Crianças maltrapilhas” fuçando o lixo. Milhões de pessoas amontoadas “em barracos em meio a esgoto e tristeza”. “Um mundo de gangues de jovens, crimes violentos e tráfico de drogas” que representa uma “zona proibida“. Essas eram algumas das descrições das favelas do Rio que apareciam nos principais meios de comunicação global enquanto a cidade se preparava para sediar os Jogos Olímpicos.

Essas imagens eram exatamente o que Theresa Williamson temia. Após 16 anos trabalhando com moradores de favelas, assentamentos informais que são moradia de quase um quarto da população da cidade, ela sabia que repórteres caindo de pára-quedas para cobrir os Jogos estariam propensos a recorrer a clichês prejudiciais. Como em muitas cidades, a cobertura da imprensa sobre os assentamentos informais do Rio frequentemente os tem descrito como decrépitos, perigosos e miseráveis. São os mesmos estereótipos que o nadador americano Ryan Lochte e seus companheiros buscaram para criar sua falsa história sobre terem sido assaltados à mão armada, há pouco mais de um mês atrás.

Muitas das cerca de 1000 favelas realmente enfrentam problemas com saneamento precário, habitação inadequada e violência. Mas as comunidades variam muito, e muitas delas são vibrantes, com economias produtivas e casas feitas de concreto e tijolo. A violência relacionada às drogas ganha imensa cobertura, mas apenas 37% das favelas são controladas por traficantes e menos de 1% dos moradores estão envolvidos com o tráfico. Uma cobertura com mais nuances tem surgido nos últimos anos, mas Theresa estava preocupada que os Jogos Olímpicos, para os quais se esperava atrair 30.000 jornalistas ao Rio, pudessem criar um tumulto perfeito: uma multidão de repórteres com prazos apertados, recursos limitados e ignorância sobre a língua e o panorama local.

“Nós achamos que poderíamos ver um aumento do número de reportagens pobres, estigmatizantes e imprecisas”, disse ela numa entrevista por telefone. “Se os jornalistas não têm acesso às comunidades ou noção de suas histórias, eles ignoram as favelas ou começam a produzir os mesmos velhos estereótipos.”

Através da sua pequena ONG baseada no Rio de Janeiro, Comunidades Catalisadoras (conhecida como ComCat), Theresa Williamson e seus colegas decidiram fazer tudo o que podiam para mudar essa narrativa. Theresa, brasileira criada nos Estados Unidos, fundou a organização em 2000, durante sua pesquisa de doutorado em planejamento urbano, pela Universidade da Pensilvânia. Primeiramente, o grupo criou um banco de dados online e um centro comunitário físico para apoiar iniciativas locais nas favelas. Em 2008, mudou para capacitação das comunidades em publicações online e ferramentas de mídia social. Depois que o Rio foi escolhido para sediar as Olimpíadas, no final de 2009, a equipe, com o equivalente a somente quatro funcionários trabalhando em tempo integral e dezenas de voluntários, focou-se na preparação para a avalanche da cobertura.

Com base em uma rede de 1200 líderes comunitários de cerca de 200 favelas, a ComCat lançou, em maio de 2010, o RioOnWatch, um site de notícias locais. Recursos online foram compilados, incluindo uma lista com mais de 50 líderes comunitários dispostos a conversar com repórteres. Eles enviaram boletins informativos sugerindo pautas pouco abordadas, sobre os quais os moradores desejavam falar: uma favela centenária que enfrenta um processo de remoção, uma comunidade com risco de desmoronamento de um lado e ignorada pelas autoridades, a Vila da Mídia para as Olimpíadas construída sobre um cemitério de escravos localizado dentro de um quilombo. Depois de começados os jogos, eles levaram cerca de 30 jornalistas para “tours de realidade” que os apresentaram às favelas que suportaram o impacto das construções dos Jogos Olímpicos e aos líderes comunitários que lutam por saneamento e moradias seguras.  

“Favelas fazem parte da história”, diz Theresa Williamson. “Nós vimos uma oportunidade de criar uma narrativa mais precisa e nuançada, que reflita os atributos das comunidades e que nos permitirá ajudar as favelas a se desenvolverem de uma maneira mais dirigida pela comunidade, após os Jogos Olímpicos. Não importa quão bem uma política seja concebida, se as comunidades são vistas através de lentes estigmatizantes, as políticas são mal implementadas”.

Theresa queria que os repórteres evitassem descrições superficiais e genéricas das favelas e as tratassem como espaços únicos e específicos. Ela esperava distanciá-los das descrições dramáticas de tráfico de drogas e barracos, que não se aplicam à grande maioria dos moradores das favelas. Ela queria ter certeza de que a mídia não ignoraria os estragos que os projetos Olímpicos causaram nas comunidades. Ela desejava fortemente que os repórteres entendessem que as favelas tinham suas raízes em uma história de escravidão, negligência do estado e estigma. E ela tinha como objetivo destacar suas qualidades constantemente ignoradas, como a auto-organização e a solidariedade.

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Mich Cardin, uma jornalista independente baseada em Nova Iorque, encontrou a ComCat na internet e entrou em contato poucos dias antes de aterrissar no Rio, em maio. Ela tinha acabado de receber um pedido do Broadly, um site do portal VICE focado em mulheres, para elaborar um artigo e uma série de fotos sobre favelas afetadas pelas construções dos projetos dos Jogos Olímpicos. Ela não conhecia ninguém no Rio, não falava português e tinha somente duas semanas.

Mich leu artigos no RioOnWatch, e, após desembarcar na cidade, David Robertson, um colaborador da ComCat fluente em português, encontrou-se com ela no hotel.  Ele a levou até a Vila União de Curicica, onde centenas de moradores tinham sido removidos para a TransOlímpica, e outros estavam sob ameaça. Ela se reuniu com moradores como Gloria, que viveu na Vila por 25 anos, e mostrou-lhe as demolições nos lotes antes ocupados por seus vizinhos.

“Eu sabia que a mídia tinha abordado a situação das favelas de forma sensacionalista, mas não sabia até que ponto”, disse Mich Cardin. “Essas pessoas investiram todo o dinheiro que tinham para tornar suas casas mais confortáveis, e havia ali um grande senso de comunidade. Muitos estereótipos foram quebrados para mim”.

Mais tarde, Mich tomou um Uber sozinha e foi até o Vidigal. O motorista cautelosamente concordou em ser seu tradutor por um pagamento extra, mas ninguém estava disposto a falar com ela.

“Minha intuição foi a de que eles estavam cansados de receber a mesma reputação negativa na mídia”, disse Mich. “Seria praticamente impossível fazer isso sozinha”.

Will Carless, um correspondente da Rádio Pública Internacional (PRI), baseou-se nos recursos da ComCat desde que desembarcou no Rio, há um ano. Recentemente, a leitura do RioOnWatch o inspirou a continuar escrevendo sobre remoções, e a organização o conectou com uma fonte no Largo do Tanque, uma comunidade que ainda não havia recebido muita cobertura da mídia.

Quando Will fez uma reportagem, em junho, sobre a Cidade de Deus, comunidade que ficou famosa em razão do filme homônimo de 2003, a planilha de contatos da ComCat o ligou a fontes de lá. Ele mudou a narrativa por meio de relatos mostrando a forma como os moradores da favela, que se sentiam seguros em casa, achavam assustadores os assassinatos em massa nos Estados Unidos. Mesmo sendo fluente em português, Will Carless disse que não poderia ter trabalhado na Cidade de Deus sem uma orientação.

Em agosto, a ComCat levou dezenas de jornalistas à Cidade de Deus além de várias outras favelas e conjuntos habitacionais, para falar com os moradores sobre os impactos dos Jogos Olímpicos e outros desafios. Susan Ormiston, uma correspondente veterana do Canadian Broadcasting Corporation, participou de parte das visitas. Ela tinha que produzir cinco histórias por semana para televisão, rádio e internet durante o mês que passou no Rio. Tendo trabalhado em 25 países, ela estava acostumada a encontrar fontes de forma aleatória, mas as excursões da ComCat lhe permitiram focar rapidamente a cobertura nas favelas negligenciadas pelos investimentos Olímpicos. Durante a visita a Rocinha, ela registrou “cachoeiras de esgoto” e conversou com líderes comunitários sobre as ações judiciais contra o governo exigindo saneamento básico.

“Eu trabalho principalmente em televisão e, a menos que as pessoas vejam, elas não entendem”, diz Susan. “[A ComCat] atua quase como um tradutor, e eu não me refiro à língua, mas à cultura. Seria útil em outros países”.

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Com um orçamento anual de $100.000,00 financiado basicamente por doações pequenas, a pegada da ComCat é necessariamente limitada. Na mídia internacional, estereótipos continuam a se infiltrar.

Estamos nos dirigindo contra um dos maiores estigmas sociais do mundo atual”, diz Theresa Williamson. “Há também o julgamento dos que vêm de fora, assumindo que dinheiro significa felicidade ou que dinheiro significa desenvolvimento”.

Mas a julgar pelos mais de 200 artigos internacionais que a ComCat têm ativamente dado suporte, a organização tem sido bem sucedida em trazer as perspectivas e as vozes da favela para a mídia. Esse número não inclui repórteres que leem o RioOnWatch mas não contataram a organização. A cobertura até melhorou as condições de indenizações para moradores removidos e evitou demolições em algumas áreas, diz Theresa.

Com o fim dos Jogos, Theresa planeja lançar um manual multimídia para ajudar outras cidades a reproduzir a estratégia de mídia da ComCat. O grupo também publicará uma análise dos últimos oito anos de cobertura das favelas. Enquanto isso, o RioOnWatch passará a atuar no foco principal da organização: cobrir soluções desenvolvidas pelas comunidades.

A ComCat, certamente tem seu ponto de vista, mas Theresa resiste à ideia de que o grupo esteja pintando um mundo cor-de-rosa sobre as favelas. “Nós nunca negamos os problemas e limitações das favelas, mas [problemas e limitações] são a verdade em todos os lugares”, diz ela. “O fato de falarmos sobre coisas boas não significa que nós estamos romantizando [a favela]. Na realidade é o oposto: não reconhecendo seus ativos, suas qualidades, estaremos privando a eles e a nós do verdadeiro desenvolvimento”.

Will Carless diz que jornalistas que utilizam os recursos e informações da ComCat não correm o risco de serem parciais se eles estiverem seguindo padrões profissionais. “Eu entendo, como a maioria dos correspondentes aqui também, que a ComCat tem sua visão de mundo específica e uma agenda… Devem os jornalistas aceitar de forma mastigada tudo o que [Theresa] diz? Certamente não. Deveriam procurar outros pontos de vista? Absolutamente! Mas isso é o básico do jornalismo”.

Para Theresa passar a mensagem é essencial: “Políticas públicas no Rio são contraproducentes porque são baseadas no estigma. Nós precisamos vir a enxergar as favelas por meio de suas qualidades, o que tornará muito mais fácil lidar com os seus desafios”.