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‘Olympia’ Mistura Documentário e Fantasia para Contar a História da Corrupção no Rio [RESENHA]

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Olympia é um filme chocante, que mistura documentário e ficção ao explorar a natureza da corrupção durante a preparação para os Jogos Olímpicos de 2016. Inspirado no trabalho do jornalista investigativo Lucio Vaz e por acontecimentos reais da história do Brasil, o roteirista e diretor Rodrigo Mac Niven faz uma inteligente justaposição entre o mundo ficcional e não ficcional. O filme, realizado através de uma campanha de financiamento colaborativo bem sucedida, foi finalizado em apenas seis meses. A estreia será essa quinta-feira, 15 de setembro. Parte lenda, parte documentário, parte thriller político, Olympia parece assombrosamente familiar ao Rio de Janeiro pós-Olímpico.

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O filme se passa na cidade de Olympia, uma versão fictícia do Rio de Janeiro. A cidade possui uma história de fundo, contada em uma novela gráfica, chamada Olympia: A História Perdida. A história, embora mitológica, é uma narrativa sobre a opressão política bastante familiar. Um povo que já foi livre, representado na história pelos voadores (personagens com asas), é perseguido e têm suas asas aparadas pelos pés-no-chão (personagens ligados a terra). Em um momento importante da trama, os pés-no-chão cortam a cabeça de uma voadora chamada Demokracia, para que a ordem seja mantida. O ato simbólico se torna o tema dominante do filme.

O filme se inicia no século XIX na Barra do Bananal, uma referência à Barra da Tijuca. Vemos uma mulher fugindo desesperadamente de um cavaleiro mascarado, um confronto que é supostamente uma referência aos fazendeiros e pescadores que tiveram suas terras roubadas pelos abastados chefões da Barra da Tijuca. A área hoje, um dos centros Olímpicos, é um local onde ocorrem contínuas disputas pela terra, e é um dos pontos focais do filme.

Somos transportados então para a Olympia dos tempos modernos, um Rio de Janeiro distópico onde uma estátua de Demokracia decapitada ocupa conspicuamente o local do Cristo Redentor. Neste ponto, Mac Niven é apresentado ao (também na vida real) advogado e ativista ambiental Jean Carlos Novaes. Na cena, que é uma recriação da conversa que iniciou o projeto do filme Olympia, Novaes conta a Mac Niven que o controverso Campo de Golfe Olímpico foi construído no local de uma reserva ambiental. Uma ação legal foi feita para revogar o status de proteção da terra, permitindo que a construção continuasse. Essa ação legal, que foi revertida no mês passado, é um grande exemplo da corrupção que caracteriza a política brasileira. Inspirado, Mac Niven pede a ajuda da amiga a jornalista Lia, interpretada por Patricia Abelson, e o trio se estabelece para montar o filme.

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O público é levado pelo processo investigativo através de diversos escândalos, todos em referência finamente disfarçada a pessoas e eventos reais do Rio. Embora baseado em fatos verídicos, o filme mistura elementos fantásticos o tempo todo de forma provocativa. Enquanto os personagens se aprofundam na investigação, suas asas ressurgem de maneira emblemática.

Cenas intensas em Olympia são intercaladas com entrevistas no tradicional estilo de documentário, com uma grande quantidade de especialistas e figuras políticas, incluindo participantes da Conferência Internacional Anticorrupção de 2012, sediada em Brasília. Entre os entrevistados estão o filósofo colombiano Bernardo Toro e o poeta brasileiro Sérgio Vaz, que recita de maneira comovente seu poema “Os Miseráveis”.

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Notavelmente, uma parte do filme é dedicada a documentação da história dos moradores da Vila Autódromo e a sua impressionante história de resistência contra as remoções causadas pelas Olimpíadas. Cada morador documentado senta-se em uma cadeira posicionada acima das ruínas de sua comunidade demolida. Filmagens aéreas feitas por um drone, juntadas com áudios verídicos gravados durante uma tentativa de demolição na Vila Autódromo em 3 de junho de 2015, faz com que o trecho pareça ter sido tirado de um filme de terror.

O slogan que acompanha o filme, “a cidade onde nem todos têm preço”, veio diretamente da boca de uma liderança muito querida da Vila Autódromo, Maria da Penha. A frase, que passou a representar a luta dos moradores, foi pichada pelos muros de toda a comunidade. Mas, apesar de nem todos terem um preço, fica bastante claro durante o filme que as Olimpíadas de 2016 tiveram o preço de US$20 bilhões, segundo as estimativas do economista Andrew Zimbalist, isso sem mencionar os custos abismais para a sociedade e o meio ambiente. Após o testemunho de peritos como Chris Dempsey, vice-presidente da No Boston Olympics (Não aos Jogos Olímpicos em Boston), a imagem que se tem é que ser nomeada para sediar as Olimpíadas significa mais uma maldição do que um prêmio para uma cidade.

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O filme termina com um discurso televisionado de Pablo Passos, interpretado por Cláudio Mendes, Secretário Municipal fictício e candidato a prefeito de Olympia. Cláudio Mendes, que talvez seja a melhor performance do filme, faz um monólogo que transborda presunção e condescendência. “Igualdade? Direitos humanos?!”, ele zomba.

Mais estranho que a ficção, e definitivamente mais estranho que um documentário, Olympia é um filme que perturba. O filme deixa um sussurro urgente no ouvido do público, para que estes acordem e encontrem a coragem necessária para desenvolver uma nova ética política. O filme, que mostra defensores verídicos da democracia e da justiça e mais 534 voadores, representa um exemplo do poder alcançado pela bravura coletiva.

Olympia estará nos cinemas a partir de 15 de setembro. Para mais informações, visite a página do filme no Facebook

Assista o trailer oficial do filme aqui: