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Cia Marginal da Maré Apresenta Peça Enérgica e Cativante Abordando o Tráfico de Drogas

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No dia 29 de outubro, o grupo de teatro Cia Marginal lançou mais uma temporada da sua aclamada e premiada produção Eles Não Usam Tênis Naique no Teatro Gláucio Gill em Copacabana.

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A peça foi escrita pela dramaturga brasileira Marcia Zanelatto, e conta a história de um pai, Santo, que se encontra com sua filha, Roseli, após vários anos de separação. Ele foi traficante de drogas nos anos oitenta quando os grupos de traficantes de drogas nas favelas do Rio ainda tinham motivação política; hoje ela é traficante de drogas. A peça é um debate ideológico entre os dois personagens, apresentando um panorama, com nuances humanizadas do tráfico de drogas, que aborda o lado político, social, espiritual e afetivo.

Desde a ternura à raiva, do arrependimento à mágoa total, a peça narra a tentativa desesperada de um pai para salvar a sua filha de uma vida de violência, crime e sofrimento. Ele esforça-se para convencê-la, mas ela desconfia do pai, pois acredita que foi abandonada quando ela mais precisava dele, apesar dele afirmar que desapareceu para protegê-la. O idealismo comunista dele está fora de moda, não havendo mais nada em comum com a realidade atual do tráfico, e muito menos com o ponto de vista profundamente cínico da sua filha sobre o mundo.

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Quatro atores trocam harmoniosamente os papeis de pai e filha no palco, às vezes desempenhando os personagens ao mesmo tempo, e até trocando os papeis independentemente do sexo. Esta troca inesperada de papéis não confunde, ela prende a atenção dos espectadores e mantém o público alerto. A energia da peça é elétrica, visceral e impregnada de tensão, pois momentos de afeto e brincadeira rapidamente se transformam em violência. A rapidez e eficácia dessas transições é devida ao comando poderoso dos atores, cuja performance é cativante, enérgica e real. Ao final da peça, os atores também compartilham as suas histórias como moradores de favela, narrando as lutas e perdas bem como os seus sonhos para o futuro.

A Cia Marginal estreou esta peça em agosto de 2015 no Teatro Glauce Rocha no Centro do Rio de Janeiro. Marcia Zanelatto convidou a companhia para estrear o seu trabalho como parte de um projeto patrocinado pela Funarte chamado Grandes Minorias, uma ocupação cultural de dois meses do Teatro Glauce Rocha que apresentou produções artísticas que exibem histórias e questões relacionadas a grupos marginalizados da sociedade.

Rio de Janeiro/RJ

A Cia Marginal foi fundada 2005 no Complexo da Maré na Zona Norte. Surgiu de uma série de oficinas de teatro para jovens, na favela, que foram realizadas em parceria com a organização Redes de Desenvolvimento da Maré. A diretora Isabel Penoni conduziu essas oficinas durante cinco anos antes que um grupo fosse consolidado para formar uma companhia de teatro.

Geandra Nobre, uma das atrizes do grupo que está na companhia desde a sua fundação, descreve a sua entrada no mundo do teatro: “Eu passei a gostar do teatro, talvez por ter me incomodado no início do projeto. Quando você tem uma aula de história, de geografia da Maré, você senta numa cadeira e olha para um quadro a sua frente. Mas nas oficinas de teatro não era assim, nem tinha cadeiras, isso me gerava um certo incomodo, mas me fazia pensar com o corpo, não só com a mente”.

A experiência da atriz Priscilla Monteiro também ecoa isso: “Quando eu entrei era difícil para mim falar com as pessoas, mas foi bom porque eu comecei a me sentir viva….Ver o meu corpo se transformando, ver o que eu podia fazer com ele, ver o que meus colegas, meus amigos de aula de turma ou de grupo faziam também. Isso foi me fazendo querer estar naquele lugar”.

Wallace Lino explica que o que o atraiu para as oficinas de teatro foi a sua natureza horizontal: “Os professores não estavam ali em um movimento de vir para nos ‘salvar’. Isso que faz a diferença neste trabalho, o investimento contínuo”. Seguindo esta linha de pensamento, Geandra compartilha: “Teve um processo que começou a nos incomodar muito. As pessoas no entorno começavam a perguntar para a gente–por ser um grupo que teve a origem na favela e porque somos moradores de favela–‘o quê que o teatro mudou na sua vida?’, partindo do pressuposto que o teatro muda a vida, então precisaria mudar a vida de favelados. No entanto, essa não é uma pergunta que é feita para pessoas que fazem teatro fora da favela, mas era sistemático perguntar para a gente”.

Rio de Janeiro/RJ

A Cia Marginal é operada coletivamente, e sua missão é democratizar o teatro, torná-lo disponível aos membros da sociedade que foram historicamente excluídos dessa forma de arte. Isabel Penoni explica que “foi crucial para a consolidação do grupo, a relação do teatro com um pensamento crítico, a relação de teatro com política… se descobre uma nova maneira de fazer política, fazer política com a arte, e uma nova maneira de fazer arte”.

“Eu era morador do Caju, uma favela do lado da Maré,” conta o ator Phellipe Azevedo. “A minha relação com o teatro me fez questionar muito… eu entendi que nós temos vários direitos. Eu sempre achei que tinha que correr atrás e pagar, eu não sabia que eu poderia ter coisas porque eu tinha o direito. Quando eu encontrei o teatro na comunidade e a Cia Marginal, eu comecei a descobrir meus pares dentro do teatro”.

Eles Não Usam Tênis Naique é a quarta produção da companhia, e a primeira montada a partir de uma peça escrita. Os outros trabalhos da Cia Marginal foram criados pelo grupo, e apresentavam histórias tanto dentro como fora das favelas: Qual é a Nossa Cara narra a memória do bairro de Nova Holanda no Complexo da Maré, inspirada numa série de entrevistas realizadas com os moradores locais. A sua segunda produção Ô Lili contém narrativas de presidiários no Rio, também baseada numa série de trabalhos de campo e entrevistas com indivíduos encarcerados e suas famílias. Por fim, In_Trânsito é uma nova versão da Odisseia de Homero, pois discute as viagens cotidianas dos passageiros no transporte público urbano. É apresentada em estações de trens e vagões ferroviários, e chama a participação do público/passageiros para as suas odisseias diárias.

Eles Não Usam Tênis Naique está em cartaz no Teatro Gláucio Gill até 5 de dezembro. As sessões são sempre aos sábados, domingos e segunda-feira às 20 horas. Para mais informações sobre a companhia e o evento acesse a página do grupo no Facebook.