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Monumentos Vivos do Vidigal Se Tornam Patrimônio do Rio

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Na Avenida Niemeyer, na entrada do Vidigal, na Praça de Direitos Humanos da comunidade e no ponto das kombis do Vidigal, há um muro com um grafite colorido retratando a história da comunidade numa espécie de museu territorial. Acima dele, plantas verdes se esgueiram sobre o telhado, oferecendo uma moldura natural que se encaixa na obra de arte, no primeiro ponto de transporte coletivo com ervas medicinais do Rio, onde, segundo seu criador, Guto Graciano, “a harmonização do espaço promove para a população uma galeria de arte ecológica a céu aberto”.

A galeria a céu aberto e o Telhado Orgânico Medicinal e Galeria Viva estão no Vidigal desde 2014, quando a subprefeitura da Zona Sul do Rio concedeu à Associação de Moradores a permissão de uso do espaço público para propósitos da comunidade. O projeto é conduzido por um coletivo de moradores focado em “arquitetura, agricultura e arte”, e que, dentre outras tarefas, realiza os cultivos, cria obras de arte, acolhe eventos da comunidade e promove a nutrição. Dois principais curadores artísticos se encarregam de liderar as ações diárias e criar estratégias para o crescimento futuro.

Os curadores Guto, no centro, e Graça, à extrema direita, com membros do coletivo

Carlos Augusto Graciano, conhecido pelos amigos como Guto, é um urbanista de 34 anos e morador do Vidigal. Ele é o arquiteto do projeto, Guto utilizou seu conhecimento técnico para transformar o telhado e verificar a maneira como os moradores interagem com o espaço. O papel de Guto como arquiteto do projeto é complementado por sua parceira colaborativa com Graça dos Prazeres, 43 anos, que também é moradora da comunidade. Graça oferece suas habilidades como chef de culinária orgânica viva.

O projeto é totalmente financiado pelos moradores e por doações provenientes do capital humano da coalizão artística envolvida no trabalho. Comerciantes locais, proprietários das kombis e a Associação de Moradores do Vidigal apoiam e fazem com que todos os moradores sejam beneficiários do projeto. Todas as plantas do jardim, com exceção de uma variedade–a pitaya–são nativas e, portanto, obtidas localmente, sem custos.

De acordo com Graça, o projeto é inédito, pois este é o único jardim comunitário simultaneamente medicinal e autossustentável do Rio de Janeiro. No jardim, os colaboradores cultivam ervas e plantas como o boldo, duas variedades de Trapoeraba (Commelina), pitaya e cacto. Ao longo do processo, o espaço no telhado é usado para educar o público sobre jardinagem e práticas sustentáveis.

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Graça quer ajudar a “quebrar o paradigma no Brasil”, pois ela vê uma evasão, por parte da população, do consumo de comida fresca e saudável devido à falta de acesso a ela e a seu custo. O suco verde não é só para a Giselle Bündchen ou a Beyoncé, afirma, dando risada. Ela deseja que mais brasileiros possam abrir sua mente a novos tipos de comida e estilos de vida e, em especial, às hortas em casa e aos benefícios medicinais das ervas. Como ativista e militante da saúde alternativa, formada em educação popular em Saúde pela Fiocruz, e prestando trabalho social voluntário quando necessário no posto Médico Dr. Rodolpho Perissé na comunidade, ela defrontou-se com muitas pessoas sofrendo de doenças que podem ser tratadas através da mudança no estilo de vida, tais como o aumento no consumo de frutas e legumes orgânicos e germinados.

Ela enxerga a horta orgânica no telhado como uma ferramenta importante no processo de educação da comunidade e, desde o início da ideia, conta que muitos de seus vizinhos começaram a cultivar suas próprias hortas nos quintais ou nos parapeitos das janelas.

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Como arquiteto, Guto acredita que seu papel vai além de resolver desafios físicos. Ele afirma que arquitetos podem projetar espaços que promovam a igualdade social. A arquitetura impõe, tipicamente, uma narrativa de elite ou dominante, e Guto enxerga o mural de arte e o telhado vivo como um ato de resistência da comunidade contra tal narrativa. O projeto se faz um marco da resiliência no Vidigal.

Entrementes, o mural de arte pode ser atualizado desde que não fuga do foco referente, representando a história local. Cenas pintadas contemplam os monumentos vivos do Vidigal como patrimônio da cidade.

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Como moradores e mobilizadores da comunidade, Graça e Guto estão muito cientes da gentrificação e do turismo na favela, admitindo a natureza multifacetada desses problemas. Por um lado, nota Graça, moradores de classe média promoveram grandes benefícios intelectuais e artísticos no ambiente social da comunidade. No entanto, eles conhecem muitos moradores da comunidade que não puderam acompanhar os aumentos exorbitantes nos preços dos aluguéis e dos produtos básicos, e tiveram que se mudar para bairros distantes. No contexto em que tais mudanças estão acontecendo no Vidigal, os dois curadores enxergam as iniciativas da comunidade, como o telhado orgânico medicinal e a galeria de arte, como essenciais para a celebração e a preservação da cultura.

Guta and Graca, foto por Carlos Moraes - Jornal ExtraDiversos meios de comunicação locais reconheceram o trabalho de Guto e Graça. Guto explica que “o grande diferencial das obras do Telhado Orgânico Medicinal e Galeria Viva é que são os primeiros monumentos vivos do Rio de Janeiro, talvez do Brasil, e são as primeiras obras que os elementos construtivos do monumento são as habilidades artistas (talento) das pessoas envolvidas, onde o trabalho mútuo buscou a conciliação do conhecimento intuitivo e técnico dando possibilidade para que o achismo se transformasse em experimentações”.

Parada verde, foto por Selmy Yassuda - Veja RioNo ano passado, quando o Vidigal celebrou seu 75º aniversário, o espaço foi concluído como o “marco de resiliência” dos 75 anos do Vidigal. Em seguida, o Projeto de Lei nº 1583/2015 declarou o telhado orgânico medicinal como patrimônio cultural urbano de natureza imaterial do Rio de Janeiro, decisão que segue em tramitação na Câmara do Rio com parecer favorável. Enquanto isso, no dia 8 de agosto deste ano, dia em que o telhado medicinal completou dois anos, ele passou a fazer parte da agenda comemorativa da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, como Monumentos Vivos do Vidigal como Patrimônio do Rio.

Guto e Graça desejam agradecer a todos os envolvidos nos vários aspectos do projeto:

– Agricultura (Horta medicinal): Graça dos Prazeres (chef de culinária orgânica viva) / J.P. OLIVER (gestor ambiental) / Tiago Oliveira (biólogo)
– Pedagogia (literatura local): Professora Barbara Nascimento /apoiadores: Professor Paulo Cypa e o Jornalista Dan Delmiro
– Hino do Vidigal (Arte): MCs: Flip / MK / TG / VINCI / TOM / Compositores: Marquinho do 14 e Marcão
– Grafite “arte Urbana” (Arte): LUIZ SK / Vinicius revolução / MAlac Abreu/ Sonia Magalhaes / AfroGrafiteiras
– Os garis comunitários do Vidigal
– Escolas públicas do Vidigal: Escola Municipal Almirante Tamandaré e Escola Municipal Prefeito Djalma Maranhão
– Associação dos Moradores do Vidigal (AMVV) e lideranças formadores de opiniões do Vidigal
– Proprietários das Kombis
– Comerciantes e moradores simpatizantes do Vidigal