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O Rio de Janeiro Deveria Ter Um Museu da Escravidão?

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A Praça XV é um dos mais importantes locais históricos do Rio de Janeiro, localizado no centro histórico, circundado pela Alerj, o Paço Imperial e o terminal de barcas da cidade. Somente pessoas com profundo conhecimento da história sabem por que o mercado de ações do Rio também está nesse lugar. Antes das mercadorias, pessoas eram negociadas aqui. Não há nenhum sinal, placa, ou memorial que indique que esse lugar costumava ser um dos primeiros mercados de escravos da história moderna.

Entre os séculos XVI e XIX, mais de 5,5 milhões de africanos escravizados foram trazidos para o Brasil, e mais de 2 milhões desembarcaram somente no Rio. Em contraste, cerca de 400.000 chegaram em todo o território dos Estados Unidos.

Hoje, o Brasil é o país com a segunda maior população negra do mundo depois da Nigéria. Metade da sua população é negra. É um país que viveu menos de um quarto de sua história sem escravidão.

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Os impactos contínuos da escravidão sobre as estruturas econômicas e sociais são muito mais visíveis do que nas referências públicas na paisagem urbana do Rio. Brasileiros negros compõem a grande maioria dos trabalhadores da construção civil, empregadas domésticas e babás. O bairro mais rico do Rio, a Lagoa, é apenas 1,5% negro, enquanto que as favelas da cidade são de maioria negra, como é bem descrito nesta série de mapas raciais.

A historiadora Sadakne Baroudi afirma: “500 anos após a introdução da escravidão no Brasil, os negros ainda estão construindo nossas cidades. Cidades das quais são sistematicamente excluídos”. Sadakne Baroudi começou a pesquisar a escravidão no Rio há mais de uma década e lançou um site educacional bilíngue sobre a história da escravidão no Porto do Rio.

Quando Sadakne Baroudi chegou ao Brasil, em 2003, o racismo que sentiu era quase como o preconceito a que estava acostumada nos EUA. Exceto que aqui ninguém falava sobre isso. Um dos mitos nacionais mais comuns é que, devido à enorme variedade de cores de pele no Brasil, existe uma “democracia racial” na qual a discriminação racial é considerada irrelevante.

A narrativa nacional é que a discriminação terminou com a abolição da escravatura em 1890. Em contraste com os EUA, com suas políticas de discriminação rigorosas–as leis de Jim Crow–e distúrbios raciais, a raça é constantemente negociada no Brasil. “Alguém é apenas mais escuro ou mais claro que a pessoa ao lado, então todo mundo é empurrado para o meio. Não há uma distinção nítida entre preto e branco, como nos Estados Unidos”, diz Sadakne Baroudi. “No Brasil, as pessoas ficam orgulhosas quando me dizem: ‘pelo menos nunca fizemos ninguém sentar na parte de trás de um ônibus.’ A questão é: nem sequer estão no mesmo ônibus. O sistema de transporte ainda está segregando as pessoas”.

Outra pedra angular da identidade urbana do Rio de Janeiro é sua história como antiga capital do Brasil e do Império Português. A cidade orgulha-se de suas avenidas de inspiração européia, de ser uma “Paris Tropical”. E é também uma cidade apaixonada pela modernidade, progresso e transformação, produzidos principalmente às custas de seus cidadãos negros. Durante o último século, grandes transformações urbanas no Rio significaram que as comunidades de maioria negra foram regularmente deslocadas: a remoção do Morro do Castelo para o desenvolvimento do Centro do Rio na década de 1920; a remoção da Praça Onze para a construção da Avenida Presidente Vargas na década de 40; a construção do metrô na década de 1970; e, mais recentemente, os Jogos Olímpicos de 2016, para os quais cerca de 77.000 moradores perderam suas casas.

As obras Olímpicas não só moldaram a segregação racial da cidade, mas também revelaram algo do passado. As obras de drenagem realizadas no âmbito do projeto Porto Maravilha em 2011 revelaram o Cais do Valongo, principal mercado de escravos do Rio de Janeiro, depois que o Marquês do Lavradio, vice-rei do Brasil, ficou horrorizado com o que viu de seu Palácio na Praça XV. Por mais de um século e meio, o lugar foi mais ou menos esquecido. “Acredito que o enterraram para eliminar a evidência da escravidão”, diz Washington Fajardo, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade.

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No Valongo, os escravos podiam ser comprados individualmente ou em peso: por exemplo, um comprador poderia comprar um homem saudável a um preço fixo elevado ou fazer uma oferta por 100kg e obter uma combinação de pessoas disponíveis em pior forma, como algumas crianças, uma mulher grávida, ou pessoas feridas. O local também tinha “casas de engorda” e fossas coletivas onde aqueles que não tinham sobrevivido eram jogados ou aqueles que não sobreviveriam eram deixados para morrer.

Nada pode ser visto ou lido sobre esta história no recém recuperado sítio arqueológico. Há um adesivo em um pedaço de papelão com alguns fatos básicos e um mapa do Circuito da Herança Africana em torno do qual os visitantes podem explorar as influências africanas na área do Porto. Mas a região não atrai um grande número de visitantes e o Valongo muitas vezes parece mais um canteiro de obras abandonado.

O cemitério de escravos nas proximidades administrado por uma pequena instituição privada é ainda mais difícil de ser encontrado. Ao renovar sua casa, em 1996, Merced e Petrucio Guimarães descobriram ossos humanos. Quando descobriram que esses ossos pertenciam a mais de 20.000 corpos, muitos deles crianças e adolescentes, enterrados sob a sua nova casa, sentiram a obrigação de abrir um memorial público, o Instituto dos Pretos Novos – Museu Memorial (IPN). Como parte do projeto Porto Maravilha, o IPN recebeu um pouco de financiamento, mas Merced teme que sob o mandato do prefeito recém-eleito Marcelo Crivella isso acabe e o Instituto tenha que lutar para continuar seu trabalho.

O outro museu dedicado à preservação da história negra no Rio é financiado por uma organização muito mais rica, mas que ainda não está em muito boa forma. Dirigido pela Igreja Católica, o pequeno Museu do Negro está localizado na parte de trás da Igreja Nossa Senhora do Rosário e da Igreja de São Bento no Centro do Rio. A entrada é difícil de encontrar. O sinal discreto–“Museu Negro, fundado em 1969”–é, na verdade, no local oposto da entrada real, onde nada indica a existência de um museu. Depois de caminhar pelo salão de reunião da Igreja, você tem que acender as luzes sozinho.

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Na entrada, há uma ilustração antiga de escravos no Brasil: uma cena de mercado retratada de forma agradável, porém com um escravo carregando uma pedra presa a seu tornozelo, outra com um barril de água na cabeça e uma mulher com uma cesta de abacaxis. Os colares de ferro em torno de seus pescoços têm ornamentos decorativos e parecem colares africanos.

A imagem é do pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848). Suas litografias estão entre as mais importantes documentações gráficas da vida diária brasileira nas primeiras décadas do século XIX. Aparecem frequentemente nos livros escolares. Em suas pinturas, a escravidão parece um episódio exótico na história antiga do Brasil, longe de representar a realidade brutal deste capítulo sombrio.

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A quase romantização da escravidão no Brasil não é incomum. Existe a ideia de que o Brasil empregou a “escravidão suave“, o mito de que os portugueses eram muito relaxados para executar um eficiente sistema escravagista. Hoje a ideia básica de que a escravidão era de fato brutal ainda é contestada. No Museu do Negro não há etiquetas, nem sinais ou explicações dos objetos exibidos. Além disso, o papel da Igreja durante a escravidão foi complicado. Com esta instituição dirigindo o museu, Sadakne Baroudi questiona: “Quem controla a narrativa?”

Museus de história negra bem-sucedidos podem ser encontrados fora do Rio, como o Museu Afro Brasil de São Paulo ou o recentemente lançado e celebrado Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana em Washington DC. O museu de 400.000 metros quadrados fica ao lado do Monumento a Washington no National Mall, perto dos mais famosos museus da capital dos EUA. O edifício é “bronze e contemplativo”, nas palavras do arquiteto David Adjaye, “flutuando em um mar de mármore branco e calcário [os outros museus]”. E museus estabelecidos para inspirar reflexão e uma reconciliação com períodos sombrios na história de suas nações, como o Museu da Memória e dos Direitos Humanos de Santiago, Chile, são um fenômeno crescente e importante. Mas esses museus notáveis não se dedicam a preservar e refletir sobre o legado da escravidão; eles são dedicados à história e cultura dos africanos nas Américas em geral, ou outros temas de direitos humanos. Na realidade, apesar de sua enorme escala e impacto mundial, o mundo está praticamente desprovido de museus que refletem sobre a escravidão.

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A Região Portuária do Rio, onde desembarcaram milhões de africanos escravizados, conquistou dois novos museus de classe mundial nos últimos anos. O Museu de Arte do Rio (MAR), de R$185 milhões, foi inaugurado em 2013. O Museu do Amanhã, de R$250 milhões, abriu no início deste ano, a tempo dos Jogos Olímpicos. No entanto, a história da região e seu significado para o tráfico de escravos do Brasil–e do mundo–permanecem não reconhecidos neste espaço dramaticamente renovado.

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Esse apagamento institucional do passado do Porto e a contínua falta de um museu que preserve a memória da escravidão enfurecem muitos brasileiros negros e historiadores. Ronilso Pacheco, representante da ONG Viva Rio e membro do Coletivo Nuvem Negra, um grupo de estudantes negros da PUC-Rio, escreve: “Afeta minha história, e minha consciência histórica, saber que um passado negro é deliberadamente ignorado e destruído, para que um futuro branco classe mediano seja erigido no lugar, com festa e pompa. Alguém aqui imagina a construção de um Museu do Amanhã no território dos campos de concentração em Auschwitz? Nunca”.

O professor de História e político Marcelo Freixo, candidato à prefeitura no mês passado, é uma das poucas vozes oficiais a expressar essa visão, dizendo: “Nada contra o Museu do Amanhã, mas e o nosso passado? A região foi porta de entrada de escravos, mas todo o passado negro está dentro de um contêiner. Berlim tem um museu sobre o holocausto, por que não existe um museu da escravidão na zona portuária?”.

A questão merece séria consideração e discussão entre os governantes, acadêmicos e a sociedade civil do Rio. Para que a cidade se mova em direção a um futuro justo, ela deve computar, confrontar e reconhecer adequadamente seu passado brutal.