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Reabilitação e Tratamento para Crianças com Deficiência na Obra Social Dona Meca na Zona Oeste

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Quando Maria do Socorro, 39, chega em casa, ela deixa a cadeira de rodas do filho de cinco anos, Alejandro, na casa de uma vizinha e o carrega nos braços até sua casa. Para chegar ao apartamento, ela precisa carregá-lo pelas escadas até o quarto andar–ele pesa 20kg–todos os dias.

Não há espaço para deixar a cadeira de rodas no térreo ou no apartamento, mas ela está feliz por finalmente ter conseguido uma, após quatro anos e meio. Alejandro tem paraplegia desde o nascimento devido a mielomeningocele, o que significa que ele nunca irá caminhar por conta própria. Eles moram em Rio das Pedras, uma favela com aproximadamente 40-65.000 habitantes na Zona Oeste do Rio.

Duas vezes por semana, Maria leva Alejandro a Obra Social Dona Meca, um centro de reabilitação sem fins lucrativos para crianças com deficiência, localizado no bairro Taquara, Zona Oeste. A instituição foi fundada em 1992 por Rosângela Chacon, uma psicóloga que continua trabalhando ali. Para proporcionar o atendimento gratuito às crianças com deficiência, eles contam com doações, financiamento público, patrocínios e voluntários.

Atualmente, a Obra Social Dona Meca oferece tratamento ambulatorial para 263 crianças e abrigo para 35 crianças que foram abandonadas, maltratadas ou cujas famílias não tinham condições de sustentá-las. Ao todo, a Dona Meca recebe 6.530 visitas ao mês e oferece 2.450 horas de terapia.

A extensão do serviço prestado pela Obra Social Dona Meca é impressionante. No entanto, não é suficiente para atender à demanda, já que não existem instituições similares no Rio. Anderson Gama, responsável pelos setores de comunicação e desenvolvimento institucional da Obra Social Dona Meca, não se recorda de nenhuma outra. Há aproximadamente 100 crianças na lista de espera para receber tratamento no centro.

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Maria de Socorro está feliz por ter um lugar para Alejandro, e que “não é muito longe”. Mesmo assim, eles levam aproximadamente uma hora e meia de ônibus para chegar. Ela conta que os ônibus, às vezes, não param e ela e Alejandro precisam esperar mais uma hora em um ponto de ônibus sem estrutura. Segundo Maria, a mobilidade é um dos principais obstáculos em sua vida. Educação é outro. Alejandro atualmente frequenta uma escola pública regular e gosta de lá. No entanto, sua mãe tem medo que não haja acesso para cadeirantes quando ele chegar ao ensino médio.

Anderson Gama reforça a preocupação de Maria sobre o acesso à educação: “Segundo a lei de inclusão, toda criança tem o direito de frequentar uma escola regular. O que é uma boa ideia, porque crianças não têm preconceito. Mas, na prática, nossas escolas não estão preparadas. Não há professores qualificados, nem rampas, nada. Um de nossos pacientes foi colocado sentado longe da sala de aula e foi deixado ali o dia inteiro. No final, eles encararam como uma brincadeira. Eu receio que o novo governo só irá piorar as coisas”.

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Em sua proposta de reformas, o presidente Michel Temer, já propôs um teto para gastos públicos por até 20 anos.

De acordo com os dados do Ministério da Educação, entre 2003 e 2014 a acessibilidade para pessoas com problemas físicos aumentou 381%. No entanto, os dados oficiais devem ser encarados com desconfiança. A pergunta sobre quantos brasileiros são, de fato, deficientes, é polêmica. Com base nos dados do censo, o IBGE afirma que 24% da população apresenta algum tipo de deficiência, o que é uma afirmação chocante. Anderson Gama contesta os números do IBGE. “Mesmo na Ucrânia, onde há uma guerra acontecendo, os números são bem menores”, afirma. “Todos que precisam de óculos apresentam um problema físico e, portanto, são contabilizados. Não é muito preciso”.

Não se sabe exatamente quantos moradores da favela são deficientes, mas com certeza o dia-a-dia deles apresenta vários desafios. “Tudo é complicado”, diz Maria. Os Jogos Paralímpicos foram feitos para mudar isso. Maria espera que as recentes Paralímpiadas tenham impactado a percepção geral da sociedade sobre as pessoas com deficiência. O mais importante para ela e o filho foi a diversão proporcionada pelo evento. Eles foram três vezes e adoraram. O clima era ótimo e andar pelo Parque Olímpico com uma cadeira de rodas não foi um problema: “Se a realidade fosse a mesma dali, a vida seria fácil”.