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Cidades Radicais: Pela América Latina em Busca de uma Nova Arquitetura por Justin McGuirk [RESENHA]

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No seu livro Radical Cities: Across Latin America in Search of a New Architecture (Cidades Radicais: Pela América Latina em Busca de uma Nova Arquitetura), o crítico de arte Justin McGuirk leva os leitores por uma viagem através das paisagens físicas e sociais da América Latina urbana, cruzando o continente, concentrando histórias excepcionais de inovação urbana.

A percurso começa em Túpac Amaru, um conjunto habitacional na Argentina. McGuirk então segue para o norte, analisando a intervenção governamental e a habitação pública em Lima, no Peru, e em Santiago, no Chile; favelas, informalidade e integração urbana no Rio de Janeiro; e a política local na famosa Torre David em Caracas, Venezuela. Ele faz uma longa pausa na Colômbia, celebrando relatos de revitalização urbana criativa em Bogotá e Medellín. Por fim, os leitores ficam com o que McGuirk chama de ‘equador político’, onde as logísticas dos espaços metropolitanos transnacionais e os laços ambientais entre as subdivisões em San Diego, EUA, e colonias em Tijuana, México, complicam um relacionamento que já é tenso.

Através desses relatos, McGuirk conta a história urbana contemporânea da América Latina, ressaltando o distante movimento das utopias modernistas que foram implementadas (muitas vezes sob o domínio militar), o uso de habitação social em massa como ferramenta para remoções e reassentamentos, eventualmente dando espaço à um estilo mais sensível de desenvolvimento urbano baseado no local, cunhado como “acupuntura urbana“. De fato, houve fatores econômicos e políticos que favoreceram esta mudança, incluindo o reconhecimento dos fracassos dos megaprojetos modernistas e da adoção do neoliberalismo. Em Cidades Radicais, McGuirk ressalta as contribuições dos indivíduos responsáveis por esta nova abordagem ao planejamento urbano, reconhecendo uma nova, porém pequena geração de arquitetos, mobilizadores e políticos que assumiram o papel de “idealistas pragmáticos”. Para eles a compreensão das favelas como solução é o núcleo do trabalho.

Empiricamente, faz sentido abordar e adotar a informalidade ao invés de ignorá-la. Na América Latina extremamente urbanizada, um terço dos habitantes nas cidades moram em condições informais. McGuirk complementa esta estatística bem conhecida com outra: o fato que 85% das moradias em todo o mundo serem construídas ilegalmente. Isto faz com que os moradores de assentamentos informais sejam os principais desenvolvedores de espaços urbanos, ditando o projeto e o uso de mais metros quadrados do que os arquitetos e os governos. Com isso em mente, McGuirk coloca duas perguntas: “Quando aceitaremos o fato que as favelas não são um problema de urbanidade, mas a solução? E, quando aceitaremos que a favela é a cidade?”

A história da Torre David na Venezuela é certamente emblemática quanto a união entre os assentamentos informais e a cidade. Trata-se de uma torre inacabada de 42 andares no centro de Caracas que inicialmente foi destinada a ser um imóvel comercial de alta categoria. Quando o construtor David Brillembourg faleceu e as finanças minguaram, o prédio permaneceu inacabado e desocupado até que um grupo de indivíduos em Caracas ocupou o prédio em 2007 e revolucionou o seu uso. Desde então, cerca de três mil pessoas consideradaram a Torre David como seu lar. O Urban Think Tank (Centro de Estudos Urbanos), um grupo de arquitetos da Venezuela, tem sido essencial na documentação e exibição do modelo singular–um arranha-céu ocupado informalmente–e até apresentou o prédio na Bienal de Veneza em 2012. Como muitos, McGuirk é fascinado pelo prédio, referindo-se a ele como uma “utopia pirata”, onde os moradores superaram condições impossíveis para criar um lar e uma comunidade.

É interessante notar que no capítulo sobre o Rio de Janeiro intitulado “A Favela é a Cidade”, McGuirk não focaliza apenas um arquiteto ou projeto, mas relata as origens e a história das favelas no Rio, discutindo a ampla gama de políticas e programas que tornaram a cidade um tipo de laboratório urbano vivo. Preocupado com a integração da favela, McGuirk comenta os programas de pacificação, o Favela Bairro, e a singular, porém equivocada, tarefa de planejamento para megaeventos.

Enquanto certos projetos recentes no Rio poderiam ser caracterizados como acupuntura urbana, incorporando inovações novas e emergentes, McGuirk reconhece que as remoções e a produção de moradias em massa, as velhas ferramentas dos negócios para “lidar com” favelas, ainda são usadas no Brasil e em toda a América Latina. O ressurgimento de habitações sociais distantes produzidas em massa através do programa Minha Casa Minha Vida, com mais de dois milhões de unidades habitacionais construídas desde 2009, representa a antítese da sua proposta para a acupuntura urbana.

A tensão entre as abordagens de uma intervenção governamental e a viabilidade de uma abordagem mais sensível foi extremamente visível na semana em que houve a divulgação da notícia de que o governo de Caracas começou remover moradores da Torre David. Em uma notícia ainda mais desesperadora, foi revelado que a estrutura seria demolida. As famílias serão levadas para um novo projeto social habitacional a cerca de uma hora do centro da cidade. Esta ação ameaça apagar a rica história social urbana que surgiu desde a ocupação em 2007. A ironia lamentável é que enquanto McGuirk explorava a possível reprodutibilidade de um modelo da Torre David a fim de desafiar o status quo do mercado no qual os pobres urbanos são empurrados para assentamentos espontâneos na periferia enquanto os prédios permanecem sem uso e vazios no centro da cidade, o governo e os construtores privados tinham outros planos.

Apesar da celebração de McGuirk do informal, a sua análise favorece a criatividade e o carisma dos arquitetos, políticos e organizadores, que são celebrados por realizar grandes inovações com orçamentos pequenos/menores, mais do que as ações discretas dos indivíduos responsáveis pela construção da cidade informal. Desta forma, o autor corre o risco de minar a capacidade de adaptação dos moradores e das comunidades ao projetar e construir localmente. Na realidade, a natureza “radical” das cidades na América Latina ressaltada no livro reflete a reconceituação da arquitetura para engajar-se diretamente com a informalidade usando poucos recursos, ao invés de um entendimento novo/radical  de quem ocupa ou tem algo a dizer sobre o nosso futuro urbano. No entanto, ele posiciona a experiência urbana latino-americana como sendo relevante e exemplar em uma escala global. Segundo McGuirk: “aceitar a cidade informal como uma característica inevitável da condição urbana, e não como uma cidade-à-espera, é a principal lição que esta geração de arquitetos latino-americanos pode oferecer ao mundo”.