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Violência Estrutural Através da Perigosa Alterização de Moradores de Favelas

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A teoria do Orientalismo de Edward Said oferece uma referência útil para compreender as atitudes de brasileiros abastados para com os moradores de favelas, assim como a de não brasileiros para com brasileiros em geral. Edward Said afirma que o Ocidente tem historicamente criado uma imagem específica do Oriente, particularmente do leste da Ásia e do Oriento Médio, que legitima o imperialismo. É uma imagem dupla que reduz a cultura oriental a algo exótico e romantizado, salientando suas ricas e misteriosas tradições, as mulheres sensuais e personagens apaixonados, enquanto que, por outro lado, ridiculariza os povos orientais e suas habilidades, descrevendo-os como irracionais, violentos, sempre presos ao passado, e, assim, subdesenvolvidos. Ele argumenta que a conclusão que resulta da ênfase dada às diferenças das pessoas do Oriente, é que o Ocidente se vê como racional, melhor e superior. Outra conclusão, que acompanha esta primeira, é que o Ocidente tem de tomar o Oriente pela mão, e governar ou ajudar a seu povo, porque eles não podem fazê-lo por si mesmos.

Padrões similares estão em jogo na percepção comum sobre as favelas do Rio de Janeiro. Em entrevistas com moradores de condomínios fechados na Barra da Tijuca, os dois lados dessa história ficaram aparentes.

Por um lado, os entrevistados descreveram favelados como pessoas que vivem suas vidas com paixão e produzem a cultura popular. André, por exemplo, vive no condomínio Península e pensa que os moradores das favelas “vivem a vida mais do que nós”. Eles são mostrados de maneira exótica em propagandas como pessoas felizes em casas coloridas. A Feira Hippie em Ipanema e lojas turísticas em toda a cidade vendem pinturas e esculturas de favelas, e passeios por favelas muitas vezes lucram com turistas que veem esses espaços como o lar dos “Outros” (embora tours lideradas por moradores podem desmascarar noções que os moradores das favelas são diferentes de qualquer outra pessoa).

Por outro lado, os entrevistados no condomínio apresentaram uma imagem da favela como um lugar de criminalidade, onde os moradores sempre recorrem a violência e nunca são capazes de ajudar uns aos outros a menos que recebam ordens de fora. Esta noção é muitas vezes reforçada através de programas de televisão que mostram a polícia fazendo apreensões de drogas ou “pacificando” criminosos em favelas e pelos meios de comunicação que publicam artigos sensacionalistas sobre a violência nas favelas.

Marcelo viveu em um condomínio fechado toda a sua vida e explica que ele “sempre ouviu duas histórias: ou de ‘traficantes e violência’, ou ‘das boas pessoas sempre tentando encontrar um sorriso'”. Amanda, arquiteta que mudou-se recentemente para um condomínio fechado, a fim de criar os filhos sem se preocupar com sua segurança, argumenta que as políticas de bem-estar social mantiveram os moradores das favelas dependentes: “Os pobres são dependentes do PT que dá dinheiro às pessoas. Ele vai diretamente para suas mãos em vez de ir para educação e saúde“. Este argumento sugere dúvidas sobre a capacidade dos moradores das favelas de gastar seu dinheiro com sabedoria e presume que não são contribuintes ativos para a sociedade.

Porém, outros moradores de condomínios fechados foram mais empáticos em suas definições de moradores de favelas. Flavio, da Barra, diz que as pessoas das favelas são “apenas pessoas nascidas em outro lugar”. Ele acrescentou que “traficantes e criminosos são a minoria, a maioria são pessoas boas”.

A sociedade em geral, muitas vezes vê as milhares e diversas favelas do Rio como bairros uniformes. Carlos Alberta Costa, conhecido pelo apelido “Bezerra”, é presidente da Associação de Moradores da Asa Branca, uma favela relativamente pequena e tranquila em Curicica, na Zona Oeste. Ele reclama que a polícia trata os moradores da Asa Branca como criminosos de qualquer maneira: “A polícia entra com a ideia da favela como extremamente perigosa. Eles são violentos com nossos moradores, que não são criminosos”.

Horizonte visto da Asa Branca

Ao invés de suposições sobre as diferenças culturais ou o estigma relacionado com a violência, Xaganthe, morador da Rocinha na Zona Sul, prefere desenhar a linha que divide os moradores das favelas das outras pessoas em torno das circunstâncias históricas e subsequentes diferenças empíricas de suas comunidades: “A diferença com o asfalto é enorme. Eles têm mais opções. Essa diferença vem dos tempos da a abolição. Os negros viviam nos morros (que eram terras públicas, e, portanto, mais fácil de ocupar). Então, negros e pobres não eram valorizados e não receberam apoio do governo. Sem saneamento básico, estradas pavimentadas. A política e o governo não chegavam lá”. Em sua opinião, a história moldou a favela e a cidade de maneiras diferentes e esses ambientes, por sua vez, moldam as experiências de vida de seus moradores.

César, 50, também mora na Rocinha e fala com orgulho sobre a comunidade, mas revela a complexidade da identificação de sua comunidade como uma favela: “A palavra favela é muito limitada e tem algumas conotações negativas que não contam a história de cada comunidade. Mas, por outro lado, tenho muito orgulho de ser um favelado”. Falando sobre turismo na favela, ele diz: “É bom que muitas pessoas queiram ver a alma da favela”. Portanto, ao passo que ele não gosta de ser estereotipado por pessoas de fora, César valoriza o fato de fazer parte de uma comunidade e cultura compartilhada, com a qual ele pode se identificar.

Legitimando a violência contra o “Outro”

“Alterizar” moradores de favelas ou tratá-los como pessoas fundamentalmente diferentes, torna mais fácil para quem não mora nas favelas segregá-los ou até participar de políticas discriminatórias, como a implacável violência policial, nascida da alterização dessas comunidades. Se os incidentes de violência em favelas podem ser atribuídos a algo inerente às favelas ou seus moradores, quem não é da favela se sente absolvido de responsabilidade e até mesmo legitimado em seu preconceito. Sob tais circunstâncias, eles não consideram outros fatores em jogo, o seu papel no processo, ou as condições históricas que podem não ser de sua responsabilidade, porém, de todo modo, os trouxeram até a realidade atual e os beneficia as custas de outros. 

Aqui é central a teoria da violência estrutural. O sociólogo Johan Galtung a separa da violência “pessoal” ou “direta” (físico). Trata-se de atos menos acidentais e observáveis ​​e é realizada de forma indireta. A distribuição desigual de recursos, por exemplo, não é uma aberração de curto prazo, mas uma parte integrante da sociedade que pode ser considerada violência por meio de exclusão.

O fato diário da menor expectativa de vida para os pobres não faz manchetes tão facilmente como um triplo homicídio incidental, por exemplo. Pedro, que vive no condomínio Rio II, acredita que “existem ‘direitos humanos’ apenas para os criminosos. Os meios de comunicação os mostram matando tantas pessoas, mas ainda assim eles sempre ‘merecem uma segunda chance’. Na semana passada, eu vi que uma mãe foi morta na frente de sua filha. Essa criança não terá uma segunda chance”.

Os efeitos da violência estrutural parecem menos chocantes, porque eles não se destacam na vida diária, o que explica a tendência comum, incluindo da mídia, em se concentrar em uma ‘história única’ que retrata problemas relativos à violência física espetacular, em vez dos problemas mais sistêmicos.

Barra da Tijuca separada do resto da cidade

Vinicius do condomínio Via Barra percebe uma tendência dos moradores da Barra de se distanciarem do resto: “Em algum ponto na década de 1980, o povo da Barra de fato tentou se separar do Rio. Este é o tipo de pensamento que acredita que ‘somos melhores porque somos ricos'”. Querer separar a “cidade desenvolvida” do resto do “Rio conturbado”–embora muitos moradores de favelas entrem em condomínios fechados da Barra todos os dias para trabalharem–é uma espécie de violência excludente que está claramente relacionada, porém raramente associada, à violência física que cria manchetes.

Aqueles que vivem na cidade e os que vivem nas favelas não são diferentes espécies de pessoas, vivendo dentro de seus próprios ecossistemas distintos de violência. Imagens distorcidas na televisão de favelas cada vez mais perigosas, ou de favelados descuidados e alegres, apenas consolidam a imagem dos moradores de favelas como os “Outros”. A violência da favela é um problema tangível e fácil de vender como sendo do “Outro”. Os verdadeiros problemas, violência estrutural e sua parceira, a estigmatização, não têm recebido a devida atenção, e infelizmente são muito fáceis de ignorar.

Christian Kuitert está pleiteando um mestrado em “Conflito, Territórios e Identidade” na Universidade de Radboud, Holanda, com foco em cidadania comparativa entre as favelas do Rio e os condomínios fechados.