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Ativistas Comunitários Lançam Série de Rolés em Favelas Para Cariocas e Turistas

'Rolé dos Favelados' Destaca Cultura e Resistência

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A segunda edição do Rolé dos Favelados deu seu pontapé inicial no sábado passado, 18 de fevereiro, na favela da Providência, no Centro do Rio, que comemorará seu 120º aniversário neste ano. Em meio a um cenário de foliões e vendedores ambulantes do Grande Rio que desembarcavam na Central do Brasil para participar do pré-carnaval carioca, um grupo de onze visitantes–todos moradores do Rio, entre eles cariocas e estrangeiros–encontrou o guia Cosme Felippsen “O Favelado” e a jornalista comunitária Gizele Martins para um tour pela Providência, primeira favela do Rio.

O tour surgiu do trabalho de Cosme e Gizele como ativistas comunitários dedicados a combater a estigmatização das favelas do Rio. Cosme, que tem formação em turismo, reconheceu a necessidade de mudar as percepções negativas que moradores da cidade formal têm das favelas, quando começou sua carreira como guia turístico aos oito anos de idade. Na ocasião a Providência comemorava seu centenário e os visitantes da Igreja Metodista no bairro vizinho da Saúde o pagavam com picolés por passeios pelo morro.

Gizele Martins, uma jornalista comunitária do Complexo da Maré, na Zona Norte, que estudou história oral e atualmente está fazendo um mestrado em Periferias Urbanas no Departamento de Educação da UERJ em Duque de CaxiasBaixada Fluminense, vê o tour como uma oportunidade para moradores de favelas refutarem os estereótipos negativos que dominam as narrativas da mídia e dos políticos sobre favelas e seus moradores, em sua maioria negros e pobres. “A gente quer as nossas referências, a nossa linguagem, para que os outros sintam um pouco o que a gente vive, o que a gente sofre“, disse ela no começo do tour.

A ideia do Rolé dos Favelados é que os dois conduzam tours em várias favelas com guias e ativistas locais. Eles planejam realizar dois tours em março no Santa Marta e na Maré, para mostrarem aos visitantes locais e estrangeiros que, enquanto as 1000 favelas do Rio possuem características em comum, elas exibem uma rica variedade sócio-histórica e cultural e atualmente enfrentam diferentes formas de opressão do estado e do mercado, como remoção, ocupação e violência policial, e a gentrificação.


O tour é intencionalmente participativo e didático. Na Providência, a visita começa na Ladeira do Barroso, uma ladeira repleta de arquitetura colonial portuguesa, conhecida por ser o local de nascimento e infância do Machado de Assis. Cosme começou o tour perguntando a todos no grupo se aquele lugar específico era uma favela. As respostas variavam por conta do local não contar com as casas, os comércios e as vias auto-construídas associadas à maioria das favelas, mas Cosme aproveitou a oportunidade para ressaltar a dinâmica social que existe nas favelas: “Os que moram aqui dizem que não é favela, mas tem traficante, e os que moram encima acham que faz parte da favela porque é o mesmo morro. Muitas pessoas que moram aqui moravam lá encima, o sonho é descer do morro“. O acesso às necessidades básicas, como esgoto e ruas pavimentadas, não apenas marca os limites entre o morro e o asfalto, mas também os limites entre aqueles que conseguiram subir a escada social descendo o morro fisicamente.

Cosme então perguntou ao grupo o que é uma favela, e Gizele deu uma resposta histórica, política e pessoalmente informada: “A favela é construção. Não é só o fato que nós construímos nossas próprias casas. Somos aqueles que dirigem os ônibus, somos os garções, as babás, as pessoas que trabalham sem carteira assinada para que a cidade funcione. Nós construímos tudo. Nada aqui foi dado. A população negra nunca teve reparações. Então foram para o quilombo, e a favela é o quilombo urbano“. Ela continuou a expressar sua frustração com a abordagem unilateral de ‘insegurança pública’ do estado para com as favelas, realidade esta que ela experimentou em primeira mão durante a ocupação militar na Maré, antes da Copa do Mundo de 2014: “O estado entra para matar a gente. Fazem isso para nos controlar. A sociedade nos chama de minoria. Minoria LGBT, minoria negra, minoria indígenas porque se a gente soubesse que somos a maioria o sistema cairia”.

Apesar de Cosme admitir fazer a pergunta porque ele mesmo ainda não tem chegado a uma conclusão definitiva, sua resposta foi igualmente pungente: “As favelas são a solução. Foi a moradia dos soldados que voltaram da Guerra de Canudos e não receberem a terra que o governo prometeu [e então ocuparam o morro]. É o governo que diz que são um problema“.


Como em qualquer tour tradicional, Cosme destacou locais importantes ao longo de toda a favela, porém o tour centrou-se em torno das questões que ambos os guias tinham enfrentado como moradores. Cosme se concentrou nas remoções ocorridos na Providência devido à construção do teleférico, atualmente fora de operação, que foi construído em 2013 para conectar o morro à Estação Central. Em grande parte impulsionado pela especulação imobiliária devido ao programa Porto Maravilha, dito para revitalizar a Zona Portuáriaum importante local para a história e cultura afro-brasileira–a construção do teleférico removeu 200 casas. Antes das remoções, a prefeitura marcou as casas para a destruição com as infames letras ‘SMH’ e um número. Apesar de SMH ser a sigla da Secretaria Municipal de Habitação, os moradores brincam dizendo que significava “sai na mesma hora” e “sai do morro hoje”.

Cosme até cantou sua própria versão do samba “Opinião” do compositor Zé Kéti, modificando o famoso verso “daqui do morro eu não saio não” com os nomes das favelas que recentemente viveram a violência do estado: “Da Vila Autódromo eu não saio não, da Maré eu não saio não, do Alemão eu não saio não, da Providência eu não saio não”.

Gizele falou para os visitantes–com a experiência vivida em sua comunidade–sobre a extensão da violência física e estrutural que as UPPs têm causado aos moradores das favelas: “A gente pede água, luz, educação, direitos. Não pedimos polícia, pedimos segurança, que é diferente“. Ela falou francamente sobre como a polícia e os militares assediam, danificam, violam e matam os moradores das favelas com impunidade. Cosme acredita que a instalação da UPP na Providência em 2010 foi parte de um plano estratégico da prefeitura para controlar e aterrorizar os moradores: “Colocaram 200 policiais aqui. E se fossem professores e médicos?”


Um objetivo principal deste tour é chegar aos cariocas que talvez nunca tenham pisado em uma favela em sua própria cidade–não apenas turistas internacionais. Carolina, pesquisadora de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e moradora de Botafogo, disse que ela e seu namorado Daniel já estiveram no Santa Marta devido à proximidade da sua casa, mas que esse foi seu primeiro tour em favela. “[Tours] são uma questão delicada”, disse ela. “Você não quer que seja como se fosse um zoológico para observar a pobreza. A mentalidade sempre foi esconder a favela, [o tour] mostra que a favela é parte da cidade. Isso prova que é uma parte importante, relevante e interessante da cidade”.

Em última análise, o tour serve como mais um exemplo de resistência. Lamentando que as UPPs tenham proibido muitas expressões culturais nas favelas, do forró aos bailes funk, Gizele enfatizou que a favela não é algo a ser negligenciado e depois consumido em benefício dos não moradores: “A polícia entra e proibi as coisas que nós produzimos e que agora os outros consumem. A gente [na favela] respira resistência na educação, na cultura”.

Para acompanhar o trabalho de turismo comunitário de Cosme Felippsen e saber sobre o próximo Rolé dos Favelas, curta sua página no Facebook. Ou simplesmente faça sua inscrição no próximo Rolé no Santa Marta, marcado para sábado, 18 de março.