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UERJ em Crise: Cotistas Excluídos do Direito à Educação [OPINIÃO]

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Na favela onde moro, o governo gasta centenas de milhares de reais para a Polícia Militar entrar com tanques de guerra e armamento pesado. Quem se importa se as balas perdidas matarem pessoas inocentes?

Na minha universidade, por falta de financiamento, o reitor quer que o período dure apenas dois meses. Quem se importa se os alunos não aprendem nada?

Bem-vindo ao Rio de Janeiro, a terra da pós-Olimpíadas.

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde eu estudo, é a 5ª melhor universidade pública do Brasil e possui mais de 30.000 estudantes. Mas no ano passado, devido ao corte de gastos para financiar as Olimpíadas, a UERJ entrou numa situação de abandono: o ano letivo só começou após cinco meses sem aulas, e o nosso semestre terminou com várias aulas canceladas por causa de manifestações.

Ao final do mesmo ano, o governo do Estado do Rio de Janeiro declarou falência, o que resultou na falta de repasse de verbas necessárias à manutenção e na ausência de pagamentos dos servidores da instituição. Alunos ficaram sem bolsa permanência, professores e terceirizados não receberam salários e os problemas com limpeza, segurança e elevadores só pioraram.

Banheiro insalubre: sem iluminação, sem insumos e pia com defeito

No início deste ano, depois de um conflito não resolvido entre o governador e a reitoria, não houve surpresas ao se aproximar a data de início das aulas: a UERJ iria parar mais uma vez. No começo, a reitoria avisou que iria adiar as aulas por uma semana; depois, adiaram por mais uma. A cada semana, o tempo previsto para o regresso das aulas foi aumentando.

Um mês depois uma solução apareceu: o governador iria privatizar a CEDAE que seria dada como garantia para um empréstimo que quitaria as dívidas com os setores públicos, permitindo que a UERJ voltasse a funcionar.

Contudo passado um mês da privatização ter sido aprovada na ALERJ, a reitoria ainda não tinha falado nada sobre o regresso das aulas. Alguns dos meus colegas da instituição, cansados de esperar, entraram em novos empregos; outros viajaram; outros ainda pediram transferência para uma faculdade particular, onde iriam ter que começar de novo e pagar uma mensalidade, mas ao menos teriam uma data prevista para a formatura.

Inesperadamente após cinco meses de estado de greve, mais três meses da reitoria adiando as aulas e um mês depois da privatização da CEDAE, fomos notificados numa quinta-feira de que nosso reingresso estava marcado para a próxima segunda.

E os alunos que já estavam trabalhando? Perdem o semestre ou abandonam o novo trabalho? E os que já tinham feito planos para viajar, para começar em outra faculdade? Perdem o semestre ou perdem o dinheiro que haviam investido?

Restaurante Universitário de portas fechadas

A pior parte é não saber se o semestre vai mesmo continuar: ao comparecer essa semana no campus universitário, me deparei com os mesmos problemas estruturais.

As bolsas permanências continuam atrasadas e o restaurante universitário, onde se consegue refeições baratas, está fechado. A questão salarial dos professores e de outros servidores permanece sem ser resolvida. Na parte dos serviços terceirizados, os banheiros e elevadores ainda precisam de reparo.

Estacionamento dos alunos com carros luxuosos

Sim, eu estava dentro da UERJ, mas era outra UERJ, composta dos alunos que possuem o privilégio de frequentar às aulas diante dessa crise de recursos, a parcela que não depende de ajuda de custos.

Nossa universidade foi a primeira instituição do país a implantar um sistema de cotas. Não tenho vergonha de falar que entrei lá por esse sistema, porém eu tenho orgulho de ter conseguido ser a segunda pessoa na minha família (depois do meu irmão), a cursar uma faculdade apesar de passar por uma rede pública inadequada e várias dificuldades dentro de casa.

Entretanto com esse retorno forçado, somos exatamente nós, estudantes cotistas, que estamos sendo excluídos do direito à educação. Sem o custeio da bolsa e com o transporte cancelado, estamos sendo privados do nosso direito de frequentar às aulas também.

Cartazes espalhados pelo campus reinvidicando direitos.Diante de toda essa situação, eu voltei para casa extremamente frustrada: em que país, em que faculdade, um aluno é notificado do nada que o semestre de uma faculdade vai começar em quatro dias? E quanto a seus planos, seu emprego? Em que país, em que faculdade, as aulas ficam abertas só para os alunos que não precisam de bolsa (que está atrasada e irá continuar assim)? Em que país, em que faculdade, a reitoria deixa funcionar uma instituição totalmente sem condições de pagar a manutenção das instalações, nem seus servidores?

Na terça à noite, descobri minha resposta ao ver o calendário divulgado pela reitoria com as datas de duração do semestre. Em sete meses, faríamos três períodos: dois meses cada, e um tempinho para descansar, como se nossa universidade tivesse virado um supletivo, onde somente é preciso aprender o básico, decorar, gravar e passar na prova.

Uma universidade que segue por esse rumo não forma intelectuais nem produz conhecimento. Ela somente entrega diplomas.

Nesse momento, percebi que nada disso tinha a ver com minha educação, e nunca teve: tinha a ver com as negociações políticas entre a reitoria e o governador, com o dinheiro perdido nas Olimpíadas, com o quanto a cidade do Rio de Janeiro e o Brasil poderia recuperar sua imagem na mídia depois de tantos problemas em todas as esferas da sociedade.

E foi assim que lembrei onde eu moro: no Rio de Janeiro, a terra da pós-Olimpíadas. Terra onde a polícia tem verba para uma política que continua matando meus vizinhos. Onde os políticos tem grana para dar aos seus amigos, na forma de contratos de obra e cargos em seus gabinetes. Onde a universidade não tem verba para a educação.

Aline Galdino é estudante universitária, aluna de Ciência da Computação na UERJ e moradora do Complexo da Maré.