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Movimento Anti-Olímpico de Tóquio Chega ao Rio: Unificação das Lutas Contra os Jogos

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Embora os Jogos Olímpicos já estejam muito longe do Rio, o legado deixado foi de uma infraestrutura incompleta, luta de moradores removidos por uma compensação justa e as consequências do deslocamento. Há um aumento crescente de oposição aos Jogos nas futuras cidades-sede, tanto nas já selecionadas quanto nas cidades prospectivas, além de cada vez mais críticas na mídia. A categoria do ativismo anti-Olímpico se expandiu com grupos de oposição que perceberam a oportunidade de unir forças em todo o mundo por meio de uma coligação internacional anti-Olímpica, que vem crescendo nos últimos cinco anos, com contatos no Rio, Vancouver, Chicago, Londres, Sochi, Pyeongchang, Los Angeles, Nova York, Toronto, Boston, Barcelona, Paris e Tóquio. No dia 29 de maio, a UFRJ recebeu Misako Ichimura do movimento Hangorin No Kai /Não às Olimpíadas de Tóquio para discutir os esforços anti-Olímpicos em Tóquio.

Giselle Tanaka, representante do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio e pesquisadora de planejamento urbano do Laboratório Estado, Trabalho, Território e Natureza (ETTERN) no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da UFRJ, havia anteriormente visitado a organização de Ichimura em Tóquio. Ela começou o evento apresentando suas reflexões sobre a visita. Gisele explicou que o movimento em Tóquio “reúne várias lutas” com diversas motivações para rejeitar as Olimpíadas. Enquanto alguns se opõe às Olimpíadas devido ao evento em si, outros estavam mais preocupados com a preservação dos centros históricos e da arquitetura de Tóquio, enquanto outros grupos estavam ainda preocupados com os efeitos da gentrificação e privatização do espaço público ou com o nacionalismo inerente ao processo. Gisele explicou que, no Japão, o movimento anti-Olímpico uniu todos estes grupos isolados, enquanto no Rio “nós focamos muito na questão da cidade”.

Segundo Gisele Tanaka, o modelo Olímpico–que copia um conjunto de “padrões” internacionais, independente da “condição específica” de uma região–é equivocado. Ela descreveu alguns dos projetos Olímpicos mais disruptivos em Tóquio até o momento. Eles incluem o Estádio Nacional no Parque Meiji, que provavelmente irá causar gentrificação no bairro de classe trabalhadora adjacente, e que foi o responsável pelo fechamento completo do parque (ao invés do fechamento parcial necessário para a construção dos prédios Olímpicos), resultando na remoção de sua comunidade sem-teto. A demolição dos Apartamentos Kasumigaoka, devido à intensa pressão e remoção de moradores idosos, alguns dos quais já haviam sido removidos para os Jogos Olímpicos de Tóquio em 1964, também foi ressaltado como um exemplo de remoções para os Jogos. Devido à semelhança dos dois casos, os moradores da Vila Autódromo fizeram uma declaração de apoio a todos aqueles que resistem à remoção nos Apartamentos Kasumigaoka.

Gisele observou como as questões de justiça ambiental haviam marcado a preparação para os Jogos Olímpicos em Tóquio, da mesma forma que aconteceu no Rio. O governo planejou realocar o famoso Mercado de Peixe Tsujiki, mas o local proposto apresenta solo contaminado. De maneira semelhante, Misako Ichimura também mencionou que a recuperação do desastre nuclear de Fukushima estava em andamento, ao passo que as preparações para os Jogos Olímpicos fizeram com que o governo mudasse sua posição para níveis “seguros” de radiação.

As apresentações de Gisele e Misako destacaram que os benefícios prometidos após as Olimpíadas apenas atingirão algumas pessoas e que podem, de fato, danificar os bens públicos. Por exemplo, enquanto acredita-se que ser sede dos Jogos aumente os investimentos e o turismo, esta atividade apenas acontece em algumas cidades ou regiões específicas onde acontecem as Olimpíadas. Além disso, com a manutenção de instalações de alta tecnologia após as Olimpíadas, o dinheiro do governo é afastado de importantes programas públicos e direcionado à infraestrutura Olímpica, mesmo após o fim dos Jogos. De maneira similar, embora a população sem-teto seja a mais afetada pelas remoções em futuros locais Olímpicos em Tóquio, Misako observou que esta mudança do “espaço público para um espaço completamente privado” é uma perda para “todos, não apenas para os sem-teto”.

A apresentação de Misako Ichimura detalhou a resistência em Tóquio. Enquanto vivia como artista em uma comunidade sem-teto na época em que teve início vários projetos, Misako começou a se organizar com a comunidade Blue Tent Village no Parque Yoyogi. No entanto, depois de tudo a Blue Tent Village foi removida e a comunidade sem-teto quase desapareceu do bairro, pois a maioria dos espaços que anteriormente eram públicos são agora locais de construção. “É difícil encontrar um local para dormir”, diz Misako. Para aprofundar o tema da remoção, Misako contou a história de uma senhora idosa que vivia nos Apartamentos Kasumigaoka e estava sendo cuidada por sua filha. A mulher estava doente e não conseguia se mudar naquela condição. Ela continuou no apartamento, mesmo com a “pressão” e insistência do governo de que os Jogos eram parte de um “plano nacional”. No entanto, quando uma demolição barulhenta começou no complexo vizinho, a mulher morreu. Acredita-se que a luta para ficar no apartamento dela foi um gatilho importante.

No final, Gisele Tanaka e Misako Ichimura conversaram entre si e responderam perguntas da plateia. Quando questionada sobre as semelhanças e diferenças nos dois casos, Gisele explicou que o governo japonês tem normas rigorosas que regem protestos, mas a polícia nos protestos não está armada. Por outro lado, ela explica, “aqui [no Rio] nós temos mais liberdade para manifestações”, mas a ameaça de violência ou retaliação pela polícia é mais intensa.

Misako Ichimura faz planos para o futuro–“nosso movimento é muito pequeno, mas nós podemos nos juntar com outro movimento”, ela afirma. Os ativistas esperam que diálogos como esses continuem, de forma que grupos globais possam compartilhar estratégias sobre como combater e reduzir os danos causados pelos Jogos Olímpicos. Enquanto o mundo aguarda para saber qual cidade irá sediar os Jogos em 2024, com Los Angeles e Paris sendo as únicas cidades permanecendo na corrida (todas, menos Paris e Los Angeles, retiraram suas candidaturas após pressão pública), e Paris sendo a única sem nenhum movimento visível de protesto, mais e mais expectadores não acreditam na possibilidade de um legado físico positivo deixado pelo breve evento.