Quando meus amigos passaram para a Universidade os pais deles lhes presentearam com um carro e um netbook, para colocar os textos da faculdade sem prejudicar a coluna. O meu pai me deu um RioCard, uma mochila bem forte e me disse: vai ser feliz”, brinca a aluna do segundo período de Comunicação Social, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Jéssica Oliveira. Segundo a Constituição, a educação, em todas as suas fases, é um direito e um dever de todos. Logo, há de se concluir, que educação é um direito público. Como proceder, então, quando a educação de qualidade e o ensino superior são direito apenas de um restrito público?

A ideia de que “só os bons entram na universidade” nos leva a refletir sobre a escola e ideia de educação igualitária, cujo fracasso e sucesso dependem só e somente dos talentos e méritos de cada um. No último ano de 2010, uma pesquisa realizada internamente na Universidade Federal do Rio de Janeiro revelou que 65% do corpo de alunos da “Universidade do Brasil” possuem renda per capita de / ou acima de cinco salários mínimos e reside na cidade do Rio de Janeiro.

Eu passei quatro anos estudando em um pré-vestibular com bolsa para conseguir entrar aqui”, explica Thayara Cristine, 22 anos, estudante de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro, “Eu não parei de trabalhar e quando fui aprovada escolhi o curso noturno justamente pensando nessa necessidade. Fica complicado para um estudante de origem popular, como eu, que tem uma filha se manter na universidade. Nossa renda é parte integrante da renda familiar”, completa a estudante do segundo período que comemora o fato de ter conseguido uma das poucas e tão disputadas, Bolsa Auxílio.

A construção de quem entra e permanece na academia se inicia na alfabetização. A escola é em sua essência pertencente à classe média. Os objetos escolhidos para estudo, o jeito de falar, escrever, portar-se. Os currículos eurocêntricos prezam, por exemplo, a norma culta da língua escorraçando o saber popular, podando o aluno desde que se coloca o primeiro pé dentro da escola. É evidente que a escola instrui segundo os moldes e ao eliminar a maioria revele-se antidemocrática, tanto quanto a Universidade.

O caminho rumo a Universidade apresenta-se como um trajeto semi-impossível. Existe a imediata necessidade de um primeiro emprego. Existe a afirmativa não dita mais internalizada do “aquilo não é para você”. Para a classe média nacional a passagem da escola para a universidade ocorre com tanta naturalidade quanto tomar um copo de água. Enquanto para o universitário oriundo das periferias nacionais a porta de entrada está mais para uma escada de madeira sem degraus e ele um penetra na festa”, comenta a Profª Drª Carmem Teresa Gabriel, da UFRJ.

Dados do último CENSO comprovam que apenas 30% da população oriunda de classes sociais mais baixas conseguem chegar ao Ensino Superior, sendo menos da metade em universidades públicas. Apenas 0,58% dos aprovados anualmente em Universidades Federais são de famílias com até um salário mínimo, e 4,05% de famílias entre um e três salários mínimos. O “olimpo” universitário orgulha-se de seu caráter republicano, laico, igualitário e liberal. Auto afirma-se como instituição social, e como tal exprime e determina a estrutura e o modo de funcionamento da sociedade como um todo. Tanto é assim que vemos, dentro de uma universidade federal, números que expressam fielmente a divisão sociocultural do que é domínio nesse país.

Por que não é simplesmente chegar à Universidade, passar no vestibular, ENEM, o que for, é o momento mais fácil. Estar na UFRJ é a parte complicada”, explica João Raphael Ramos, calouro de Licenciatura em Ciências Sociais, “Por exemplo, eu moro em Anchieta e por mais que minha casa fique mais perto da estação do metro da Pavuna eu prefiro pegar um ônibus e sofrer no engarrafamento por que é mais barato”, completa o jovem de 21 anos que, além da aprovação, comemora a vaga no novo emprego.

O mito da igualdade de oportunidades faz com que os que fracassam – da alfabetização ao vestibular – culpem a si mesmo, sintam-se ignorantes e inferiores. “Provavelmente eu vou trabalhar ano que vem”, comenta com tristeza a estudante Shayne Abranches decepcionada com sua atuação na prova do ENEM. Enquanto os poucos que tem sucesso são mostrados como exemplo de que todos poderiam ter se esforçado e superado esta corrida de obstáculos rumo a Universidade. Uma exceção que confirma a regra mantendo cada peça dessa engrenagem “em seu lugar”, os donos do poder como os donos do conhecimento. Não podemos esquecer que “quem ocupa o trono tem culpa”.

Assista o vídeo com o depoimento de Thayara Cristine.