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Exibição do Documentário ‘Estado de Exceção’ Provoca Debate, Crítica

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No dia 8 de outubro, foi exibido no Festival do Rio o recém-lançado documentário Estado de Exceção, do cineasta canadense Jason O’Hara, no Cinema do Museu de Arte Moderna do Rio. O filme narra as lutas concomitantes do movimento indígena na Aldeia Maracanã e nas favelas Vila Autódromo, Vila Taboinha, Metrô-Mangueira (também conhecida como Favela do Metrô), e Pavão-Pavãozinho contra as remoções durante o período que antecedeu a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Estavam presentes vários líderes indígenas e moradores das favelas apresentados no filme, os quais experimentaram em primeira mão este período de liberdades civis suspensas, enquanto o governo do Rio se preparava para receber visitantes de todo o mundo para os dois megaeventos. Em um painel de debate após o filme, eles elaboraram as lutas contínuas de suas comunidades e agradeceram pela cobertura do filme, reunindo no palco membros da comunidade que elogiaram e criticaram a representação do documentário sobre seus movimentos.

Jason apresentou o documentário como um filme pertencente a todos os presentes, referindo-se ao processo de sete anos de trabalho, com as comunidades em destaque, durante os períodos de produção e edição do filme. É o seu terceiro documentário com foco em direitos civis, protesto, e resistência, e é o resultado de seis anos de filmagens em comunidades do Rio. O documentário começa com imagens do líder indígena e professor de linguística José Urutau Guajajara dentro do metrô, enquanto o áudio com a voz dele descreve a discriminação enfrentada pelos povos indígenas, que segundo ele são imaginados pela maior parte da população como primitivos. Uma grande parte do filme se passa seguindo Guajajara e outros líderes indígenas–originários de comunidades de todo o Brasil–na ocupação do prédio abandonado que outrora abrigara o Museu do Índio, localizado à sombra do Maracanã. Desde 2006, o movimento, agora denominado Aldeia Maracanã, recuperou este “micro-território” da cidade para criar um espaço de resistência indígena no Rio.

Carlos Doethyro Tukano, outro líder importante da Aldeia, também é destacado. Em Estado de Exceção, Jason tem um olhar afiado sobre os eventos das remoções. O filme mostra a remoção em março de 2013 dos membros da Aldeia pela Tropa de Choque armada com escudos anti-motins, gás lacrimogêneo e cassetetes antes da Copa do Mundo de 2014, para a qual o vizinho Estádio do Maracanã estava sendo reformado. Durante o ataque ao prédio, podemos ver Tukano aceitando a oferta da prefeitura do Rio para reassentamento, e conduzindo parte do grupo da Aldeia para longe da violência. Naquele momento, Guajajara recusou-se a sair e reocupou o prédio com um grupo menor de seguidores, mas foi finalmente expulso no mesmo dia. A partir deste ponto, o documentário segue cada líder separadamente. Tukano e o seu grupo de 17 famílias indígenas aparecem reassentados em contêineres sufocantes colônia de Curupaiti em Jacarepaguá na Zona Oeste, onde moraram em condições precárias durante um ano. Em seguida, o filme o mostra aceitando as chaves da Presidente Dilma Rousseff em um evento público para inaugurar apartamentos construídos pelo programa Minha Casa Minha Vida no complexo Zé Keti no Estácio, na Zona Norte. A lente de Jason concentra-se na vida de Tukano nestes novos apartamentos. Ele comenta para a câmera as fortes diferenças entre a vida que tinha antes, rodeado de plantas e animais, e a sua existência nos espartanos apartamentos de concreto.

O filme mostra como, no final de 2013, Guajajara e algumas famílias reocuparam o local da Aldeia Maracanã, reconstruindo as estruturas destruídas pela polícia e reassentando-se no prédio. Ao falar durante o debate após a exibição, Guajajara explicou, “Uma coisa é você pensar em terra, outra coisa é você pensar em território. Terra você vende, troca. Território, não. Porque o espaço [da Aldeia Maracanã] é histórico”. Em um testemunho das suas crenças, Guajajara subiu numa árvore durante uma remoção em dezembro de 2013 antes da Copa do Mundo, ficou lá em protesto por mais de 24 horas enquanto a polícia tentava retirá-lo. O documentário mostra este ato de resistência e a sua subsequente prisão.

Após o filme, um membro fundador da Aldeia que não aparece no filme, Araçari Pataxó, perguntou qual foi a razão do filme não incluir a história dos anos anteriores da Aldeia, e defendeu a decisão dele e de Tukano de aceitar a oferta de habitação do governo. “Se eu não aceitasse o Zé Keti [complexo de apartamentos], eu estava na rua hoje… Não foi por ser vendido ou questão de qualidade de vida, foi para não ir para rua. O vídeo não mostra isso. O vídeo mostra a luta de Tukano como vendido… Eu espero que passe por uma correção”, ele disse.

Em resposta, Jason expressou sua crença de que todo movimento social precisa de estratégias diferentes para ter sucesso, enfatizando seu apoio à decisão de Tukano e as medidas que tomou para transmitir a complexidade da situação no filme, incluindo engajar o líder da Aldeia no processo de edição do filme. O próprio Tukano, que falou em seguida, se concentrou na história da sua chegada ao Rio e no processo de encontrar e unificar muitos grupos indígenas diferentes. “Construir é difícil”, ele disse. “Destruir é fácil”. Tukano ficou firme na sua decisão de deixar a Aldeia, dizendo: “Eu fui acusado por várias coisas, mas isso não me abala não. Eu estou preparado… Eu estou aqui para dialogar agora… O índio não tem mais condições de lutar só com arco e flecha, precisa aprender usar caneta agora”. 

Estado de Exceção tem um âmbito amplo, também abordando as histórias de outras comunidades que enfrentaram remoções. Em uma sequência particularmente impressionante, Jason intercala a filmagem do jogo da vitória do Brasil sobre a Espanha na Copa das Confederações em 2013 com cenas de repressão da polícia durantes os protestos da “Primavera Brasileira” contra os aumentos das passagens de ônibus, violência policial, e os gastos na Copa do Mundo no contexto da severa desigualdade nacional. O filme tem um olhar especial para as práticas violentas da Tropa de Choque e da polícia com moradores desarmados–as tropas s!ao vistas usando granadas de gás lacrimogêneo sobre um grande grupo de crianças durante uma remoção no Metrô-Mangueira, um canhão sônico sobre membros da Aldeia Maracanã, e cassetetes sobre os moradores da Vila Autódromo, inclusive a ativista Maria da Penha.

Jason também conduziu uma crítica sobre a política por detrás das remoções em nome dos megaeventos. Ele captura as falsas promessas do prefeito do Rio Eduardo Paes sobre o impacto e o legado supostamente positivo da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. Vídeos promocionais da construção do Parque Olímpico e cenas da abastada Zona Sul do Rio são colocados ao lado da visita do morador da Vila Taboinha, Célio Gari, ao Pavão-Pavãozinho. Lá, ele visita um morador que explica que a sua casa foi marcada para remoção com um “aviso de morte” da Secretaria Municipal de Habitação, um número ameaçador pintado na porta com tinta spray ao lado de “SMH”. Célio combateu a remoção na sua comunidade e nas outras. Depois do filme, ele falou de “todo o descaso e desprezo que os políticos profissionais têm pelo povo. Eles amam dinheiro, mas não amam aqueles que produzem, aqueles que de fato, movem a economia do Brasil”.

Também foram destacados no filme Altair Guimarães e Jane Nascimento, líderes da forte resistência na Vila Autódromo contra os planos do Prefeito Paes de terraplenar a comunidade localizada ao lado do Parque Olímpico na Zona Oeste do Rio. Altair, que passou por duas remoções anteriores antes de mudar-se para a Vila Autódromo, aparece mobilizando os moradores e pressionando os políticos antes de finalmente ver a sua casa ser destruída. Célio, Altair, e Jane continuam ativos ajudando outras comunidades nas suas lutas contínuas para permanecer nas suas casas. Jane concluiu o debate dizendo, “Eu continuo minha luta hoje incentivando as pessoas–não só favelados, mas da classe média e de todas as comunidades resistentes que não são só de baixa renda–que se reúnam… Nós não podemos esperar o governo criar nada para nós. Somos nós que temos que nos juntar e criar, e sair batendo de porta em porta”.

Estado de Exceção será exibido mais duas vezes como parte do Festival de Filmes do Rio:

Sexta-feira (HOJE), 13 de outubro, às 20:00 horas no Instituto Moreira Salles
Sábado, 14 de outubro, às 15:30 horas na Estação NET Rio 3

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