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Iniciativas de Desenvolvimento Social da Zona Oeste São Tema de Expo na Colônia Juliano Moreira

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Entre os dias 2 e 9 de dezembro aconteceu o Ilumina Zona Oeste, uma exposição sensorial, interativa e emocional que procurou dar visibilidade a organizações sociais e coletivos de base comunitária, apoiados pelo Instituto Rio, que promovem o desenvolvimento social e de vocações e potencialidades da Zona Oeste do Rio de Janeiro. A exposição ocorreu no Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea, localizado na antiga Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá. A aposta nas experiências interativas inovadoras fez com o que o público não somente visse os projetos, mas os sentisse, gerando maior empatia para com suas causas e os impactos de seus trabalhos. Os projetos participantes trabalham para fortalecer o território e seus habitantes em diversas áreas de atuação, sobretudo em cultura, direitos humanos e justiça social.

Começamos com o projeto da Associação Sementes da Vida (ASVI), que atua na Cidade de Deus com a capacitação de adolescentes em comunicação comunitária e digital, incluindo habilidades audiovisuais, para promover o protagonismo e o desenvolvimento humano local, em uma região sistematicamente assolada por violências que o limitam. “Nosso trabalho é importante pra CDD porque é um local onde a violência e a violação de direitos impede ou minimiza os sonhos das pessoas, principalmente das crianças e adolescentes, que são as maiores vítimas na atual conjuntura da nossa e outras periferias do Brasil. Muitos acreditam que a vida deles vai se resumir numa realidade cinza e sem importância, quando na verdade o mundo está aberto pra eles, em qualquer lugar e posição que queiram. A educomunicação, ou a educação através da comunicação, é a nossa principal ferramenta de trabalho e é aberta para toda a comunidade. Acreditamos que essa forma de apresentar as crianças e adolescentes, essa forma de se expressar, de formar pensamento crítico e se reconhecer como sujeito de direitos, é essencial para a promoção do desenvolvimento comunitário”, disse Mirian de Andrade, moradora da comunidade e coordenadora e educadora do projeto.

Para ela, a exposição permitiu que as possibilidades que o projeto apresenta aos adolescentes fossem concretizadas: “nós podemos realizar e realizamos muitas coisas, e como a gente, outras comunidades também realizam. Pessoas pretas como nós, marginalizadas como nós, e muitas vezes abandonadas pelo poder público”.

De forma similar ao projeto da ASVI, o projeto Elas da Corrente aposta na força da juventude como potência e agentes da transformação ao reunir jovens de Rio das Pedras para produzir e exibir material audiovisual, apostando na expressão e apropriação técnica e criativa dos jovens para que se reconheçam como tais agentes. Dentre os curtas exibidos na exposição, estava um que retratava cenas do cotidiano da comunidade de assédio e preconceito com base em orientação sexual. A partir dos curtas, o projeto espera articular grupos e instituições locais e atividades culturais para fomentar a igualdade de gênero e superação da violência contra a mulher.

Enquanto isso, o projeto da Associação Cultural do Quilombo do Camorim (ACUCA) mantém e protege o patrimônio histórico, cultural e ambiental do Quilombo do Camorim, a partir das dimensões da arte, religião, cultura, gastronomia e sustentabilidade, reforçando sua importância para o território da cidade.

Associação Solidários Amigos de Betânia (ASAB), atua em Santíssimo com o acolhimento e reinclusão de adultos em situação de rua e, por meio de seu projeto Plantando Sustentabilidade. A ASAB constrói coletivamente e de forma terapêutica um espaço agroecológico, capacitando-os em sustentabilidade e educação ambiental, gerando produtos orgânicos para consumo próprio e revenda e contribuindo para sua saída da situação de rua e do consumo de drogas.

Já o Grupo de Assistência Professor Eurípedes Barsanulpho (GAPEB) atende deficientes físicos e mentais na comunidade Canal do Anil e outras áreas da Taquara, desenvolvendo habilidades e promovendo sua autonomia, autoestima e integração na sociedade, por meio de atividades físicas, como a hidroginástica.

A abertura da exposição no dia 2 de dezembro contou ainda com uma apresentação das meninas da oficina BailArte, do Núcleo Sócio-Cultural Semente do Amanhã, e com uma batalha de passinho protagonizada por jovens participantes das oficinas do HipFunk. O projeto do Semente do Amanhã desenvolve atividades esportivas e culturais com crianças e adolescentes da Vila Aliança e Vila Kennedy, entre outros, buscando o seu desenvolvimento humano e a promoção de sua autoestima, enquanto o Coletivo HipFunk coloca as periferias da Zona Oeste, em especial a favela do Fumacê onde atua, e seus artistas no mapa cultural da cidade, fazendo com que superem as barreiras físicas e invisíveis e circulem na cidade, fomentando a economia criativa e promovendo novas oportunidades culturais para a periferia.

Além disso, também foram exibidos na exposição a Casa do Menor São Miguel Arcanjo (CMSMA), que atua em Guaratiba com o atendimento de jovens em situação de risco, promovendo o acolhimento e fomentando sua reintegração às suas famílias a partir de oficinas culturais, esportivas, ecológicas e acompanhamento pedagógico; o Grupo Arco-íris de conscientização homossexual, que por meio do projeto TRANSformações visa promover saúde e direitos para a população LGBT via conscientização, realização de oficinas nas comunidades de Campo Grande e incidência em políticas públicas; a Obra Social Dona Meca, que atua na Taquara com atendimento a crianças com deficiência e em situação de vulnerabilidade; e o Coletivo Mulheres de Pedra, que visa estimular a criatividade de mulheres negras, estudantes de escola pública e moradoras da Zona Oeste, que são excluídas dos circuitos culturais tradicionais, que recebem mais recursos e atenção da mídia, promovendo o desenvolvimento local, a economia solidária e a valorização das potencialidades locais.

“A sociedade civil pode e deve articular o seu território para promover oportunidades que os governos e as empresas não priorizam. Isso é especialmente importante para a Zona Oeste, onde as pessoas frequentemente vêem seus bairros como dormitório, pela dificuldade de alcançar postos com bons salários e próximos a suas casas. A Zona Oeste representa a cauda inferior da desigualdade dentro da cidade do Rio, com indicadores semelhantes aos da Baixada Fluminense; para além da divisão favela e asfalto, há uma divisão geográfica na cidade. Isso pode ser superado a partir de atividades como essas expostas, que promovem localmente capacitação, cultura, empreendedorismo social, oportunidades para jovens e turismo consciente e sustentável, como o do Camorim. Isso passa por uma valorização desse território, olhando seus quilombos, suas práticas herdadas da escravatura, da ditadura, da violência, para recolocar a Zona Oeste como um espaço de esperança e de desejo”, disse Vitor Mihessen, economista que cresceu em Realengo e é coordenador da Casa Fluminense, organização comprometida com políticas públicas que reduzam as desigualdades territoriais do Rio de Janeiro e sua região metropolitana.

Vitor completou: “É preciso fazer política para além da época eleitoral, quando a Zona Oeste é lembrada devido a seu alto contingente de pessoas. Fazer política através da arte, como mostram essas iniciativas, de forma a gerar emprego e renda para se contrapor à escassez de um contexto de crise econômica. E é essencial que a política seja pensada pelo fortalecimento de redes como essa, de projetos que pensam no território e nas políticas públicas que podem ser implementadas nele”. Esse fortalecimento das redes e dos projetos concretiza-se, por exemplo, nas oportunidades de fomento que surgem no edital para 2018 do próprio Instituto Rio para novo apoio a projetos na Zona Oeste e no edital Fortalecendo Comunidades para a construção de cidades inclusivas, resilientes e sustentáveis, do programa CASA Cidades do Fundo Socioambiental Casa, para apoio a projetos de base da região metropolitana do Rio de Janeiro.

Por fim, a experiência de estar na antiga colônia, local no passado marcado pela brutalidade no tratamento daqueles considerados doentes mentais e desviantes da sociedade, que incluía experiências como lobotomia e choques elétricos, foi ressignificada durante a exposição pela presença dos participantes do Centro de Convivência Pedra Branca. Este Centro de Convivência hoje ocupa o espaço e trabalha com a ressocialização e o encontro entre os usuários da rede de saúde mental e a comunidade. Durante o evento o Centro prestou atendimento no restaurante local, reaberto para a ocasião, e apresentou o Império Colonial–bloco de carnaval formado a partir de sua oficina de percussão. O bloco participou da abertura da exposição tocando o seu samba desse ano, “É carnaval–Descolonizando esse carnaval; desengaiolando geral”, que aborda a reconstrução do indivíduo pela arte e contribui para a reafirmação da importância da cultura na transformação da saúde mental e na luta antimanicomial. Os integrantes do bloco prometeram participação no próximo carnaval nos blocos Amigos do Pinel, tocado pelos integrantes do instituto de mesmo nome na Urca, e o Loucura Suburbana, que desfila pelo Méier a partir do Instituto Nise da Silveira, como forma de resistir às ameaças por parte da prefeitura de cortes ao carnaval de rua.

“Dá orgulho de ser da Zona Oeste quando vejo os trabalhos que foram apresentados ali. Foi um momento em que estávamos no mapa. E acredito que em pouco tempo as próximas edições do evento vão ocupar os principais jornais da cidade e fazer parte do calendário oficial”, resumiu Mirian. Esperamos que essa profecia se realize.

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