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Devas – Artesãs da Maré #RedeFavelaSustentável [PERFIL]

Perfil da Rede Favela Sustentável*

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Iniciativa: Devas – Artesãs da Maré
Página no Facebook / Instagram
Ano de Fundação: 1996
Comunidade: Nova Holanda, Complexo da Maré
MissãoConstruir cidadania para mulheres vivendo em situações sociais precárias e com baixo nível educacional, através da geração de trabalho e renda, e a partir do comércio justo.
Eventos PúblicosFeira do Lavradio, Largo do Machado, Largo da Carioca, Cinelândia e Cidade Nova (em frente à Prefeitura).
Como ContribuirDevas está procurando por pessoas que possam desenvolver seu website, montar uma loja online e ensinar os membros do grupo como usar as redes sociais para aumentar a visibilidade do projeto. São bem-vindos contatos e informações para apoiar os esforços do grupo e também para acessar o circuito do comércio justo na Europa.

Passando pelo Largo do Machado ou na Cinelândia, no Rio de Janeiro, você pode encontrar o mercado de economia solidáriaRio EcoSol. Lá, uma expositora vende roupas feitas inteiramente por mulheres de uma favela no Complexo da Maré, como parte de um programa social chamado Devas – Artesãs da Maré. “Quando você compra um produto nosso, você está colaborando para a condição de cidadania das mulheres que vêm da Nova Holanda“, diz a fundadora do projeto, Clarice Cavalcante.

O projeto Devas se iniciou há 21 anos na Nova Holanda, e foi fundado para apoiar mulheres que sofriam de estresse psicológico devido à violência, fornecendo um meio de gerar renda em um espaço de trabalho animado e saudável. Clarice, psicóloga por formação, explica que quando um tiroteio acontece, muitas pessoas sofrem consequências físicas, como hipertensão, dores de cabeça e ataques de pânico devido ao estresse psicológico. Estes efeitos físicos se tornam um empecilho para a autoconfiança e perspectivas de futuros trabalhos, que muitas vezes ainda são prejudicadas por condições de trabalho injustas, especialmente para costura, mas também para empregos de baixa renda em geral. É essa dinâmica de exclusão–a exclusão de oportunidades de trabalho saudáveis e empoderadores–que o projeto Devas pretende quebrar, sobretudo com o objetivo de criar alternativas para a exploração generalizada dos trabalhadores da indústria têxtil.

No início, o projeto Devas oferecia aulas de costura nas escolas e nos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), já que o grupo não tinha qualquer material, dinheiro ou espaço próprio para trabalhar. Pouco a pouco o grupo se envolveu nas discussões, por toda a cidade, sobre comércio justo e economia solidária, e participou do desenvolvimento do Fórum Municipal de Economia Solidária (FES-RJ). Clarice ressalta a importância da transmissão de conhecimentos nestes estágios iniciais: “Falando você transmite [o que sabe] para uma outra pessoa que já está pensando ‘como posso fazer isso?'” O grupo também recebeu financiamento e apoio de organizações internacionais para o comércio justo, e em 2003 conseguiram um espaço alugado pela Associação de Moradores da Nova Holanda.

Hoje, o Devas é composto por nove participantes. Oito são mulheres, enquanto um homem trabalha no setor financeiro. O trabalho do grupo é organizado de forma cuidadosa e transparente, de tal forma que cada trabalhadora saiba de antemão o que vai ganhar por seu trabalho e as tarefas são distribuídas uniformemente de modo que todos os membros possam ganhar um salário decente. Cada vestido, por exemplo, é produzido de acordo com um plano que define quanto vai custar, quem será o responsável e quanto cada uma irá receber por seu trabalho. Para cada peça de roupa vendida nas feiras, o grupo produz apenas uma peça nova para evitar o risco de falta de recursos para o pagamento das trabalhadoras. O valor da mão de obra compõe até 60% do preço final do item, enquanto os 40% restantes são reinvestidos em materiais e no projeto em si. Todo este processo prioriza tanto a alta qualidade dos produtos como uma cultura de trabalho positiva e vívida para os participantes.

Clarice explica: “Estamos indo na contramão [da fast fashion], a gente faz coisas que duram muitos [anos], que o tecido é bom… e assim fica uma coisa muito boa, é bom para a gente e é bom para quem compra”.

Graças à cuidadosa organização do grupo, o projeto Devas está agora totalmente autofinanciado, embora esteja passando por um momento difícil devido à crise econômica. Apesar da redução das vendas, Clarice está determinada a procurar novas maneiras de atingir novos mercados por meio das mídias sociais e de uma loja online. Também está tentando atingir clientes na Europa, onde o mercado de comércio justo já está bem estabelecido. Alguns itens do Devas já foram vendidos na Europa e são populares entre estrangeiros que compram no Rio, mas o grupo ainda não possui conhecimentos e recursos digitais suficientes para acessar esse largo mercado de forma contínua.

O Devas não produz apenas comércio justo e roupas de alta qualidade, pois também tem um impacto social profundo na vida das trabalhadoras. Sonia, que trabalhou no Devas por seis anos, relembra: “Eu comecei a trabalhar em fábrica… e o trabalho de costureira não tem tanto valor, e é um serviço que tem que ficar sentada o dia todo, com uma postura que a gente pode ficar com dor de coluna”. Outra participante, Ivanete, que também costumava trabalhar como costureira para uma empresa, explica: “Às vezes você pode se pegar trabalhando até o amanhecer, e isto não vale a pena”.

Ao contrário, elas explicam que com o Devas elas aprendem mais, ganham mais, trabalham em melhores condições, colaborando juntas e se divertindo. Falando do seu lugar de trabalho, na Maré, várias mulheres ressaltam os benefícios de trabalhar perto de casa. Às vezes trabalham até mesmo de casa, para que possam tomar conta de suas famílias. Algumas participantes, como Maria Luisa, trabalham com o Devas há quinze anos. Clarice explica que a maioria das trabalhadoras mudou muito por passarem pelo projeto colaborativo, com notável redução nos sintomas psicossomáticos devido ao estresse. Conforme as mulheres ganhavam autoestima e acreditavam em suas habilidades, várias delas retornaram à escola para prosseguir com seus estudos.

Como todos os participantes dividem responsabilidades por meio de uma estrutura horizontal, não existe um líder único que dá as ordens. Todos aprendem sobre a gerência e o funcionamento do negócio. Clarice explica que algumas mulheres inclusive utilizaram essas habilidades para começar seus próprios negócios e atividades, o que a deixa feliz, já que acredita na importância deste trabalho para inspirar e ser reproduzido por outros. Refletindo sobre a alegria que ela mesmo sente por ver o impacto do projeto, ela diz: “Você sente que a pessoa mudou de vida. Mesmo sem mudar de lugar, de moradia, ela consegue ter uma melhor noção da vida”.

Veja o slideshow da oficina do Devas abaixo ou no Flickr.

*Devas – Artesãs da Maré é um dos mais de 100 projetos comunitários mapeados pela Comunidades Catalisadoras (ComCat)–a organização que publica o RioOnWatch–como parte do nosso programa paralelo ‘Rede Favela Sustentável‘ lançado em 2017 para reconhecer, apoiar, fortalecer e expandir as qualidades sustentáveis e movimentos comunitários inerentes às favelas do Rio de Janeiro. Siga a Rede Favela Sustentável no Facebook.

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