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Manchetes: Integração

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Leia a matéria original por Julie Ruvolo em inglês no RioChromatic aqui. O RioOnWatch traduz matérias do inglês para que brasileiros possam ter acesso e acompanhar temas ou análises cobertos fora do país que nem sempre são cobertos no Brasil. 

Basta um telefonema e tudo está ao seu alcance: Disque 1746 para achar mais de 300 serviços urbanos em um só lugar.

Algumas manchetes sobre o Brasil estão mais apropriadas a uma visão de mundo Vin Diesel do que para publicação, mas admiramos o entusiasmo deles:

O Brasil infestado por usuários e vendedores de crack.
Brasil reforça investigação sobre venda de empadas de carne humana.
O ‘Jetman’ sobrevoa Rio de Janeiro.

Para de fato entender a realidade carioca, leia algumas destas histórias relatadas pela crescente comunidade de jornalistas estrangeiros no Rio.

Taylor Barnes (@tkbarnes) fala da mídia social no país com maior porcentagem de cidadãos utilizando o Twitter:

Rene Silva (@Rene_Silva_RJ), um jovem brincalhão de 17 anos que começou um jornal na comunidade onde vive, e cujo perfil no Twitter tornou-se um recurso informativo acompanhado de perto por não-locais assistindo à evolução da invasão militar. Presentemente, o aluno do Ensino Médio está se tornando a sensação local, contando com mais de 30 mil seguidores no Twitter. O jovem envia mensagens frequentes sobre incidentes variando desde tiros que ouve atrás de sua casa ao próximo brinquedo no qual vai andar em um parque aquático.

Rene me disse, “Se soubermos como utilizar essas novas formas tecnológicas – como blogs, Youtube e Twitter – em nossa vantagem… nós seremos capazes de transformar o Brasil, especialmente as favelas. Porque as favelas utilizam a Internet.”

Silva conversa com Barnes na CSMonitor.com sobre a produção de novas notícias e manchetes:

Como o Brasil no ano passado tomou a ação sem precedentes de enviar suas forças armadas para dentro das nossas complexas e extensas favelas com o objetivo de eliminar seus traficantes, [Silva] usou os canais da mídia social do pequeno jornal que o próprio iniciou, aos 11 anos, para avisar aos moradores sobre os últimos acontecimentos.

“Ele [o jornal] fala o que os moradores querem falar e não conseguem através de canais de mídia maiores e mais influentes; eu não acredito que as grandes mídias tenham um canal que realmente esteja ligado à comunidade,” diz Silva, cuja equipe jornalística – de idades entre 14 e 17 – relaxam em uma lanchonete local, entre laptops e pendrives.

As crônicas de Silva sobre a ocupação tornaram-se tão populares que ele está hoje presente no circuito de palestras nacionais. Ele discursou em uma conferência da Google em São Paulo e em uma “TED Talk” em Curitiba.

À medida que o Rio se distancia da sua identidade de décadas como a “cidade partida”, integração entre possuidores e não-possuidores está emergindo como uma das principais histórias noticiarias.

O Programa de Pacificação (UPP) da cidade, que há alguns anos visa trazer as favelas cariocas sob controle do governo, é o mais evidente exemplo do processo de integração entre as comunidades e as calçadas–ou simplesmente “morro e asfalto”, como dizem os cariocas.

Primeiro passo: Retirar os traficantes de drogas.

Segundo passo: Providenciar os serviços públicos precários ou inexistentes, como coleta de lixo e eletricidade.

Acima, o cinema Dolby Digital em 3D inaugurado pela Prefeitura no Complexo do Alemão.

Simplificando, o consenso no Rio é que o primeiro passo está indo relativamente bem.

O segundo passo é a “UPP Social”, infelizmente erroneamente nominado, pois a inclusão social não é o objetivo central do programa, como Corinne Cath explica no RioonWatch.org:

Apesar da UPP Social mencionar uma intenção de aumentar o diálogo e a participação de moradores de comunidades, esse é só um dos seus três objetivos, e uma efetiva participação implicaria uma contemplação deliberativa sobre as outras prioridades. Os outros dois objetivos da UPP Social são (1) Melhorar a segurança (para aqueles dentro assim como fora de comunidades) ao “retomar o controle das comunidades de quadrilhas,” e (2) Formalizar e integrar as comunidades na ‘cidade formal’ através da providência de serviços públicos faltantes. Ao invés de reconhecer que a efetiva e deliberativa participação de moradores é um ingrediente essencial na implementação bem-sucedida desses outros dois objetivos, oficiais do governo a veem como uma distração e um item a ser riscado do processo de implementação de outras prioridades.

Enfim a cidade está construindo teleféricos futurísticos e cinemas 3D nas comunidades – ambos projetos bem legais – enquanto moradores pedem coisas como educação e serviços básicos de saúde.

Ótimo para turismo, mas o que acontece depois do grande espetáculo? Do Associated Press:

“Apesar de seus problemas, o programa de pacificação espalhado pela cidade está sendo um sucesso se julgado de acordo com seus objetivos oficiais: acabar com o controle territorial de grupos armados em comunidades específicas, e reduzir a violência,” disse Ignacio Cano, pesquisador da Universidade Estadual-RJ.

“Porém, a maior pergunta não é se a cidade estará segura o suficiente para a Copa do Mundo ou para as Olímpiadas, mas sim se esse programa conseguirá providenciar segurança de longo prazo,” afirma Cano. “As [unidades pacificadoras] foram criadas nas áreas da Zona Sul, áreas turísticas onde moram moradores de classe média à alta, áreas que servirão aos jogos olímpicos e da Copa. Elas não chegam às áreas mais violentas, a Zona Norte, Oeste e subúrbios.”

Um posto da Polícia Pacificadora no Vidigal ‘renovado’

Theresa Williamson, Diretora Executiva da Comunidades Catalisadoras, uma ONG que trabalha para desestigmatizar as favelas cariocas e “integrá-las à sociedade maior”, tem relações diretas com lideranças de favelas-chave vivenciando o processo de pacificação e integração.

Em um Op-ed para o The New York Times chamado “Uma Oportunidade Perdida no Rio”, Williamson explica como o processo de gentrificação (“remoção branca”) segue o de integração:

Primeiro: comunidades menores, menos conhecidas e muitas vezes pacíficas ocupando terra recém-valorizada estão sendo forçadas a se desapropriarem sob o pretexto de ‘desenvolvimento de megaeventos’, frequentemente sem clara justificações. Moradores são realocados para unidades públicas de alojamento pequenas, verticais e isoladas – a duas horas de distância do centro da cidade. Há inclusive casos notáveis de removidos que restam desabrigados, ou que novamente se instalam em propriedades ilegais e perigosas. É estimado que 170 mil pessoas serão expulsas de suas casas “para” os megaeventos chegando ao Brasil.

Segundo: comunidades maiores e já conhecidas estão recebendo programas “de integração”, principalmente UPPs. Essa crescente presença da polícia assegura uma maior segurança nas favelas, fazendo, então, com que os preços de propriedades e alugueis aumentem. Em seguida há a formalização do comércio local e pagamentos para utilidades. E, enfim, o título de propriedade. O resultado: um caminho rápido para a gentrificação (“remoção branca”) pago com dinheiro público em nome do “combate a pobreza” e “integração da cidade”.

Parece que o Rio vai “ficar seguro para as Olimpíadas” empurrando seus moradores de mais baixa renda para a periferia, para onde o crime está se direcionando. Aqui no Brasil, e especialmente no Rio, temos a tradição da desigualdade – assim como sua consequência natural, o crime – e aparentemente os megaeventos que se aproximam vão agravar a situação.

Simon Romero escreve para o The New York Times dizendo que “uma das mais disputadas guerras de propriedade é a Vila Autódromo, região a ser destruída para criar espaço ao Parque Olímpico.”

Paisagem privilegiada da Vila Autódromo.

Vila Autódromo é um exemplo de comunidade que se encaixa na primeira categoria descrita por Williamson: pacífica, 4 mil habitantes, com vistas para o lago que rapidamente valorizaram. Conheça a comunidade através do tour fotográfico da RioChromatic.

— Nesta publicação, fotografia original por Julie Ruvolo.