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A Casa do Menor de Nova Iguaçu e o Home Theater de Sérgio Cabral

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Tinguá é uma região bastante bucólica de Nova Iguaçu, cercada por morros com densa vegetação e áreas de proteção ambiental. O que quebra a visão de tanto verde são as comunidades em seu entorno e um trecho do Arco Metropolitano, cuja imponência da construção destoa completamente das outras habitações bem mais simples. A rodovia é uma lembrança material do que nos leva a Tinguá: o ex-Governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, foi acusado de embolsar, junto com uma organização criminosa composta por nove pessoas, quase R$47 milhões de propina da Carioca Engenharia, empreiteira beneficiada com várias encomendas do governo do Estado, em troca de fraudes em licitações e superfaturamento de obras públicas, incluindo as do já citado Arco Metropolitano.

Essa denúncia levou o ex-governador à Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, Zona Norte do Rio. À medida que o tempo de sua permanência apresentava uma indefinição de prazo, Cabral e sua quadrilha foram transformando-a numa espécie de república não oficial. Comidas e bebidas finas, livre circulação pelas instalações, funcionários da instituição que se faziam de seguranças, motel improvisado. Um verdadeiro poder paralelo regado a pompa dentro do sistema carcerário. Quando os luxos vieram a público, o castelo de cartas do ex-governador foi desabando aos poucos.

Uma das regalias perdidas então foi um equipamento, estilo home theater, composto de uma televisão de 65 polegadas, duas caixas de som em formato de torre de um metro e meio de altura com equalização dolby surround sound, avaliado em R$7.500, além de um aparelho de DVD com 160 filmes. Em 1 de novembro de 2017, a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAP) determinou a doação da parafernália e a contemplada foi a Casa do Menor São Miguel Arcanjo, instituição que atua em Nova Iguaçu com jovens retirados de contexto de vulnerabilidade e que faz parte da coordenação ampliada do Fórum Grita Baixada. O “cineminha do Cabral”, como ficou conhecido, e que serviu de entretenimento e capricho para boa parte dos condenados da Operação Lava Jato no Rio, iria agora ajudar no desenvolvimento social e cognitivo de quase 30 crianças e adolescentes, entre 13 e 17 anos.

Retornando a Tinguá, a Casa do Menor nos fornece suas primeiras impressões. Lembra um sítio em seu interior, não fossem pelos alojamentos. São muitas as possibilidades de ingresso na instituição para além de infrações, como explica Carlos André Santos, um dos coordenadores da instituição. “Aqui temos portadores de deficiência, autistas, jovens com problemas neurológicos ou psicológicos. Alguns usam fralda, outros fugiram por causa de violência doméstica ou por uso de drogas. Muitos pensam que aqui só abrigamos menores em conflito com a lei. O que não é verdade, apesar de 99% serem oriundos de comunidades pobres”, afirma Carlos.

O home theater possibilitou aos meninos, segundo Carlos, uma nova visão de mundo. Nunca haviam frequentado um cinema e a mudança de tal realidade permitiu enriquecer algumas dinâmicas pedagógicas. “Escolhemos sempre um filme que tenha proximidade com a história deles e depois fazemos uma roda de conversa sobre o que eles acharam. Pergunto qual foi o último filme em que tais dinâmicas foram aplicadas e ele responde “Creed”, sobre Apollo Creed, o rival do personagem Rocky Balboa da franquia “Rocky”. “O Apollo veio de uma família problemática e venceu a violência através do esporte. Se muitos dos que estão aqui tivessem áreas de lazer ou de esportes em suas comunidades, talvez não estivessem aqui”, avalia Carlos.

Um deles poderia ser Lucas (nome fictício). Lucas tem 16 anos e veio do Complexo de Manguinhos, no Rio. Vivia de pequenos furtos nas imediações da comunidade, “apenas para curtir e pegar uma grana”, segundo ele. Embora soe exagerado atribuir a mera aquisição de um aparelho de TV como aporte terapêutico e comportamental para uma possível ressocialização, o jovem garante que as rodas de conversas sobre os filmes, após a vinda do home theater, deixaram-no mais desembaraçado. “Eu era calado, todo quieto. Agora eu estou aprendendo a conviver melhor com as pessoas”, diz ainda um pouco encabulado.

Coincidência ou não, em minutos a timidez dá lugar a uma conversa mais espontânea. Diz que frequentou a Igreja Batista durante um mês “pra ver se tomava jeito”, a pedido de uma tia que o tirou de Manguinhos e o levou para viver na localidade Jardim do Ipê, em Belford Roxo. Porém continuou a praticar furtos. Foi quando a dura realidade lhe freou a direção para um caminho que poderia não ter mais volta. “Foi quando descobri que a milícia tava atrás de mim. Vieram uns homens perguntando por mim pra minha tia, mas ela sempre mentia, dizendo que eu não estava. Ela já sabia o que estava acontecendo. Na terceira vez que eu roubei, veio um corsa preto, parou na casa da minha tia e um deles falou assim mesmo ‘se eu ver, passo o cerol’. Aí ela me botou aqui”, explica Lucas.

Gabriel (também nome fictício) tem a mesma idade de Lucas, mas histórico um pouco diferente, incluindo uso de drogas e também pequenos furtos. Morava em uma cracolândia em Bonsucesso, perto da entrada da comunidade Nova Holanda, no Complexo da Maré, às margens da Avenida Brasil. Antes de vir para a Casa do Menor, passou pelo Conselho Tutelar da região, que achou por bem levá-lo para um abrigo nas imediações. Acabou sendo enviado para uma custódia provisória no Hospital Geral de Bonsucesso e dali para Del Castilho. “Só que eu não estava me recuperando em nenhum desses lugares porque ali rolava muito crack também. Se eu ficasse mais tempo lá eu ia morrer”, conta Gabriel.

Embora seja uma instituição de acolhimento e reinserção para crianças e adolescentes e muitos ali não apresentem sinais de periculosidade em seus cotidianos, a Casa do Menor não é uma unanimidade. Cercada por desconfianças dentre os moradores de suas cercanias, episódios isolados foram mais do que suficientes para que certos vizinhos formassem uma comissão de vigilância armada no local. Qualquer sinal de suposta desordem, a coordenadora geral da Casa, Renata Barros é chamada para fornecer esclarecimentos sobre o que, para eles, possa ser sinal de suspeita.

“Pelo menos uma ou duas vezes no mês eles me convidam para as “reuniões de condomínio”. É tudo uma questão de averiguação, pois quando algum adolescente começa a cometer roubos e furtos por aqui, eles já me perguntam se é ‘um dos meus meninos’”, explica Renata. Pergunto se ela tem medo de falar com os membros da comissão. Ela abre um sorriso de canto de boca e responde calmamente: “Eu consegui estabelecer um pacto de confiança. No momento em que isso for quebrado, eu não sei o que faço”, diz.

Ela lembra de uma situação ocorrida há alguns anos, que seria cômica se não fosse tensa. “Teve uma queda de energia aqui na parte da noite e estava muito calor. Seria uma maldade deixá-los trancados nos alojamentos e pedi para que eles ficassem lá fora. O problema é que com o tédio e a energia desses meninos, eles começaram a fazer uma algazarra. Não deu nem meia hora, havia vários carros da polícia ali fora, Batalhão de Choque  e chegaram até a tacar uma bomba de efeito moral por cima do muro da instituição. Com o barulho, os moradores pensaram que era um motim”, explica. Um roteiro quase tão fantástico quanto os motivos que levaram um home theater de R$7.500 a fazer parte do patrimônio da Casa do Menor.

Matéria escrita por Fabio Leon e produzida por parceria entre RioOnWatch e o Fórum Grita Baixada. Fabio Leon é jornalista e ativista dos direitos humanos e assessor de comunicação no Fórum Grita Baixada. O Fórum Grita Baixada é um fórum de pessoas e instituições articuladas em torno da Baixada Fluminense, tendo como foco o desenvolvimento de estratégias, o fomento de articulações e a incidência política no campo da segurança pública, entendida como elemento para a cidadania e efetivação do direito à cidade. Siga o Fórum Grita Baixada pelo Facebook aqui.

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