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Favela de Cordovil em Busca da Recuperação

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Um legado de negligências do governo é visível mesmo em meio aos movimentos alegres e das cores da tradicional Festa Junina na comunidade Pica-Pau em Cordovil no mês passado. A falta de investimentos públicos é notório nas casas decadentes, em uma vala que exalava um forte cheiro de esgoto e nas ligações informais de água e luz, cujas ligações estão de cima abaixo por toda a localidade. Mas a questão mais alarmante era representada pela venda de drogas nas esquinas sem nenhum policiamento. Naquela tarde, no final de junho, os líderes da Associação de Moradores e o Ministério Semear de Brás de Pina nos apresentou as consequências dos abusos causados pelas drogas na sua comunidade e suas recentes tentativas em combatê- lós.

Metade da população do Pica-Pau são crianças, e o peso desse tipo de dano atinge os moradores jovens, que são muito mais vulneráveis. Irenaldo Honório da Silva, Presidente da Associação de Moradores do Pica-Pau, nos contou a história de uma criança de 8 anos de idade que vendia seu corpo nas ruas como pagamento pelo crack, a taxa de infecção do HIV em pessoas com menos de 18 anos são os maiores da cidade.

A Associação dos Moradores da Favela de Cordovil junto com o Ministério Semear de Brás de Pina iniciou um programa de recuperação para os dependentes de drogas. Com a ajuda dos membros da comunidade, o programa identificou e colocou 40 viciados de risco em um centro de reabilitação em Campo Grande que assim, separados de seus vícios, podem seguir no caminho da recuperação.

Mas, como o Diácono Sebastião nos informou, o projeto de recuperação do Pica-Pau se comprometeu mais do que apenas enviar pessoas para serem reabilitadas. Desde o início, o processo enfatiza o diálogo. Familiares e amigos, se reúnem interagindo e criando um espaço onde os sentimentos pairam no ar e um forte senso de entendimento é construído no lugar das preocupações. E durante o período de reabilitação os membros da família e da igreja, fazem visitas regulares. Em uma comunidade tão coesa como a Pica-Pau, esse tipo de diálogo é a chave de uma mudança positiva: “As relações que as pessoas daqui formam tem uma inacreditável influência sobre as decisões tomadas”, disse um morador. “Isso é tudo que sabemos e nada mais”.

Quando perguntado quem ele pensava ser responsável pelos problemas que sua comunidade enfrenta, Irenaldo respondeu: “Metade os moradores e metade o governo- e mais o governo fundamentalmente”. Embora os dois lados da venda de drogas sejam feitas por moradores da favela, sua decisões são alimentadas pelas forças sociais que escapam do seu controle por causa da falta de condições necessárias para que cada individuo cresça.

“As pessoas estão mal preparadas para enfrentar os desafios e aproveitar as oportunidades oferecidas,” ele disse. Os jovens se formam na escola sem ao menos saberem escrever. Eles soletram estágio com j em suas provas. E ainda há estigmas. Eles dizem que no Brasil não há preconceito, mas existe. “E em meio a tudo isso é fácil se sentir impotente.” É esse senso de ineficácia que dá força ao vício de drogas.

Mas os líderes da Associação e do Ministério lutam para serem agentes de mudança em suas comunidades. Durante os últimos cinco anos, eles ofereceram cursos de tecnologia da informação para os membros da comunidade e distribuíram pão e sopa para os mais necessitados do local, entre outros projetos. Com uma parceria jovem, seus olhos estão focados no futuro. Junto ao projeto de recuperação, Irenaldo nos contou sobre os planos de abrir um programa musical dando instrumentos e aulas para a juventude do Pica-Pau, bem como um mutirão para limpar algumas áreas mais sujas da comunidade, marcada para o dia 25 de agosto. O maior obstáculo para o programa musical é a falta de recursos, disse Irenaldo. “Nós temos muitos professores voluntários, mas pouco dinheiro para comprar os instrumentos para o número de crianças que temos que atender.”

O mesmo problema também está presente no programa de recuperação. “Nós tentamos chegar a outras onze igrejas da área,” o Pastor Sidney nos disse, “mas eles hesitam em investir seu tempo em um projeto com pouca compensação e apoio”. Mas nem mesmo a força de onze igrejas pode expandir o projeto para apoiar todos os jovens em situações de risco na região, muito menos começar a entender as raízes estruturais de suas situações.

Nesta visita, encontramos trabalhadores públicos que reformavam as calçadas do Bairro Maravilha. “Esse projeto é somente para as ruas e calçadas da entrada do bairro” explica Irenaldo, “mais para quem mora fora do Pica-Pau, do que quem vive dentro da comunidade”. “Ao longo do próximo ano, nós estaremos conversando com os agentes do governo, para formalizar um pedido de intervenções mais completas dentro da comunidade.”

Esses trabalhos que estão por vir fazem parte do Morar Carioca, um projeto da cidade que pretende urbanizar todas as favelas do Rio até 2020, o que pode assegurar a solução de alguns dos problemas estruturais, o que o Pica-Pau tem tanto esperado- mas enquanto se espera o diálogo entre moradores e governo, a vida continua com seu ideal participativo.

Avançando ao encontro de uma encruzilhada de promessas incertas, a energia em torno da comunidade Pica-Pau, durante minhas três visitas eram positivas. Crianças nos surpreenderam com música e dança nos becos. Moradores foram afetuosos e nos convidaram para ficar para as festividades da noite e nos perguntavam sobre nossas impressões a respeito da comunidade, sob bandeirinhas penduradas no telhado. “Existem coisas boas e ruins aqui,”disse um morador, “gente boa e gente ruim”. “Mas as pessoas boas fazem desse lugar um lugar incrível para se morar”.

 

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