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Clube de Luta do Complexo do Alemão #RedeFavelaSustentável [PERFIL]

Perfil da Rede Favela Sustentável*

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Iniciativa: Clube de Luta do Complexo
Contato: Facebook | Instagram | Email
Ano de Fundação: 2014
Comunidade: Complexo do Alemão
Missão: Clube de Luta do Complexo é um grupo de professores de artes marciais e voluntários com o objetivo de ajudar a formar melhores atletas e cidadãos através do esporte e da cultura, e de conscientizar os jovens da sua capacidade de tornar sua comunidade um lugar melhor.
Eventos PúblicosClube de Luta do Complexo oferece aulas gratuitas de artes marciais e basquete para moradores de todas as idades ao longo da semana.

É segunda-feira bem cedo, mas já existe um grupo de pessoas esperando do lado de fora do Centro de Referência da Juventude no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio. Eles estão esperando por André Luiz Fernandes, um professor de artes marciais e cofundador do Clube de Luta do Complexo, que ajuda a ensinar e organizar aulas de vários esportes, seis dias por semana, junto com um grupo de doze instrutores e voluntários do Alemão. O que começou simplesmente como uma ideia para envolver mais jovens da comunidade com as artes marciais se transformou em um projeto com uma programação extensa. O Clube de Luta, atualmente, oferece aulas de taekwondo, kickboxing, jiu-jitsu, treinamento funcional, karatê, kempo, capoeirabasquete. Para André o fato de que centenas de jovens e adultos participam do projeto após apenas quatro anos é um tanto surreal. “A gente não tinha noção da proporção que o projeto ia tomar. Eu até fico arrepiado quando penso como a gente vai se organizar no futuro”, diz brincando.

André, 36 anos, mora no Complexo do Alemão há mais de 30 anos e tem uma longa história de aprendizado e ensino de artes marciais na comunidade. Seu primeiro contato com a luta aconteceu quando trabalhava meio período como faxineiro em uma academia local. O instrutor de taekwondo da academia percebeu que André assistia às aulas enquanto limpava, e após algumas semanas o convidou para treinar com o grupo. Apesar de estar matriculado na escola na época, André aceitou o convite do instrutor e começou a treinar dois dias por semana. O instrutor nunca o obrigou a pagar, prática que André leva para o Clube de Luta, onde todas as aulas são oferecidas gratuitamente. “A gente não cobra nada”, André explica e adiciona: “Bem, a gente não cobra dinheiro, mas você vai suar e vai chorar”.

Clube de Luta do Complexo começou há quatro anos, quando um pequeno grupo de professores de artes marciais no Alemão percebeu que poderia utilizar recursos de maneira mais eficiente, e alcançar mais alunos com uma equipe unida. Desde então, se tornaram destaque na comunidade e são conhecidos por gerar atletas talentosos. Alunos do Clube de Luta tem um histórico de vitórias em campeonatos locais e estaduais, e alguns chegaram a disputar posições em equipes militares e Olímpicas. Mas André ressalta que focar no trabalho necessário para fazer campeões é o que mais importa. “Competir não é a parte mais difícil. Pra fazer isso você só tem que chegar lá e lutar e levar uma porrada. O que é mais difícil é chegar nesse ponto”.

Essa filosofia é o que permeia o trabalho do Clube de Luta. Como uma organização que tem pouco apoio institucional, o grupo teve que se contentar com recursos limitados, às vezes realizando aulas em praças públicas ou na rua. Ao descrever a atual instalação de treinamento localizada em Inhaúma, André ri:  “Nossa sede é que nem uma caverna. Mas é ótima, a gente só precisa de chão e de um teto”. Apesar destes desafios, o Clube de Luta conseguiu prosperar e agora tem mais de 308 alunos. A maioria dos alunos são do Complexo do Alemão, mas há alguns que são de outros bairros. André pensa que o ambiente familiar e a cultura de respeito criada pelo grupo no Clube de Luta é o que faz os alunos voltarem semana após semana. “Quando a maioria dos alunos chegam aqui eles vêm de uma realidade que não tem disciplina, não tem respeito, e quando eles chegam aqui, eles estão entrando em um espaço onde todo mundo já estão acostumado a respeitar [um ao outro]”.

O Clube de Luta ajudou a catalisar transformações físicas e psicológicas em inúmeros estudantes, construindo em cada indivíduo um senso de confiança, auto respeito e disciplina através de treinamentos rigorosos. Em uma comunidade onde as reais necessidades dos moradores são negligenciadas pelo governo e onde a vida cotidiana é muitas vezes violentamente interrompida por operações policiais contra traficantes de drogas, criar novas oportunidades culturais para os jovens da comunidade é especialmente importante. O potencial transformador das artes marciais é algo no qual André acredita vigorosamente. “Eu sabia do poder das artes marciais para mudar uma pessoa, eu cresci vendo essas mudanças… A gente teve um aluno que levou um tiro, uma bala perdida, ele sofria de ansiedade e ataques de pânico, ele nem saia de casa. Mas finalmente, eu trouxe ele pra treinar, e ele começou a ter mais confiança e se sentir mais seguro, e agora ele está dando aula de kickboxing aqui.” Para André este é o objetivo do Clube de Luta–ajudar no desenvolvimento e crescimento dos alunos para que eles se tornem exemplos para os outros em sua comunidade.

Tendo conquistado seu próprio espaço na comunidade e crescendo para servir cada vez mais pessoas, os líderes do projeto continuam olhando à frente e esperam recrutar novos voluntários e treinar novos professores. André está confiante de que eles alcançarão seus objetivos. Ao descrever o que aprendeu no seu trabalho com o Clube de Luta ele reflete: Todo mundo consegue. Não existe ninguém que não possa conseguir alguma coisa. A gente teve um aluno que não tinha uma perna e queria fazer jiu-jitsu. Quando ele chegou a gente tentou convencê-lo a fazer outra coisa porque 90% das posições são feitas com as pernas. Mas ele persistiu, e conseguiu. Ele competiu na categoria, junto com todo mundo, e as vezes ganhou. Então eu aprendi isso: seja quem for, de onde vier, se a pessoa quiser, ela consegue”.

*Clube de Luta do Complexo é um dos mais de 100 projetos comunitários mapeados pela Comunidades Catalisadoras (ComCat)–a organização que publica o RioOnWatch–como parte do nosso programa paralelo ‘Rede Favela Sustentável‘ lançado em 2017 para reconhecer, apoiar, fortalecer e expandir as qualidades sustentáveis e movimentos comunitários inerentes às favelas do Rio de Janeiro. Siga a Rede Favela Sustentável no Facebook. Leia outros perfis dos projetos da Rede Favela Sustentável aqui.