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O Que Esperar da Política Brasileira em 2018? Parte 6: Candidaturas das Favelas

Esta é a sexta matéria de uma série sobre o cenário político brasileiro para 2018.

A reação imediata à morte da Marielle Franco, para além da dor profunda, foi o fortalecimento do seu legado, frequentemente associado à frase “quiseram te enterrar, mas não sabiam que eras semente”. E como semente, Marielle brotou na multiplicação de candidaturas de mulheres negras de favela. Antes de Marielle, as únicas mulheres negras e faveladas a ocupar posição legislativa no estado do Rio haviam sido Benedita da Silva do Chapéu Mangueira, e Jurema Batista do morro do Andaraí.

Nessas eleições, 46% dos candidatos registrados em todo o território nacional se auto declararam negros ou pardos, um percentual alto, mas ainda abaixo da representação desse grupo na população brasileira, que é de cerca de 55%. No estado do Rio, o percentual de candidatos pretos e pardos é de 48%. Esse percentual é maior para os cargos de deputado estadual (49%) e federal (46%), e menor para senadores (30%) e governadores (33%). Mulheres, por sua vez, são 31% dos candidatos apesar de serem 51% da população–o que também é um avanço, se comparado aos 14,5% nas eleições para vereador em 2016, e reflexo direto da nova regra eleitoral que determina que 30% dos candidatos lançados por um partido sejam mulheres. Mulheres pretas e pardas, no entanto, são 27% da população porém apenas 16% dos candidatos.

Se ainda falta representatividade dentre os candidatos, a representatividade dentre os eleitos é pior ainda: somente 0,6% dos vereadores eleitos em 2016 foram mulheres negras e entre deputados federais, 0,39%.

Já no que diz respeito ao território de origem dos candidatos, o Tribunal Superior Eleitoral não coleta informações para além do município de nascimento, de forma que não é possível mensurar o percentual dos candidatos que são nascidos ou moram em favelas. Para além do mundialmente conhecido Romário, candidato a governador nascido na favela do Jacarezinho, buscamos aqui destacar algumas candidaturas de moradores de favelas e quilombos do Rio de Janeiro aos cargos de deputado estadual e federal.

Confira abaixo candidatos a deputado estadual:

Claudete Costa, Cidade de Deus (PT)

“Você não me enxerga mas vai me ouvir”

Claudete Costa esteve em situação de rua durante a infância e a adolescência na região da Candelária, Centro do Rio. No dia da chacina, sobreviveu pois estava trabalhando com a mãe na Praça XV. É catadora de materiais recicláveis desde os 10 anos de idade, hoje vive na Cidade de Deus e é a primeira mulher coordenadora do Movimento Nacional dos Catadores no Rio de Janeiro. Militou pela coleta seletiva dos resíduos da Copa e das Olimpíadas. Conheça a campanha no Facebook.

Edna Gomes, Maré (PPS)

“A vida é feita de sobreviventes, de pessoas que lutam todos os dias”

Edna Gomes é natural do Maranhão, onde começou sua atuação política na luta pela emancipação do seu município. Mora desde 1998 na Vila do João, no Complexo da Maré, onde fundou a ONG Nova Direção, que oferece capacitação profissional a jovens. Já trabalhou como vendedora, diarista e auxiliar de escritório e está cursando Tecnologia em Marketing para melhor gerir a sua ONG. Conheça seu perfil no Facebook.

Fernando Ermiro, Rocinha (PMB)

#UmDeNós

Fernando Ermiro é historiador nascido e criado na Rocinha. Além de guia turístico comunitário com o projeto Rocinha Histórica e coordenador do Museu Sankofa e História da Rocinha, foi professor durante anos do pré-vestibular comunitário e colunista do FavelaDaRocinha.com. Milita pelo direito à memória e pelo direito das favelas narrarem sua própria históriaConheça a campanha no Facebook.

Gilberto Palmares, Morro da Formiga (PT)

“Os efeitos do racismo permanecem e sem decisões concretas… a cara da universidade vai ser a dos mais favorecidos, a cara dos brancos”

Gilberto Palmares cresceu no Morro da Formiga, Zona Norte da cidade. Enquanto deputado estadual, tem atuado como vice-presidente da CPI dos transportes e presidente da Frente Parlamentar de Combate à Tuberculose/Aids e Diabetes, Frente Parlamentar em Defesa da Previdência Pública, e da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e Democratização da Mídia. Foi também presidente da CPI das Barcas e relator da CPI das Milícias. Suas principais lutas são pela saúde pública, por moradia digna e transporte seguro, pelo fortalecimento das universidades estaduais, contra racismo e homofobia, em defesa dos trabalhadores e contra as privatizações da CEDAE e EletrobrásConheça a campanha no Facebook e através do seu site.

Kátia Lopes, Vila Kennedy (PPS)

“Com coragem para mudar as estruturas”

Kátia Lopes é nascida e criada na Vila Kennedy, hoje moradora de Campo Grande na Zona Oeste da cidade. É geógrafa e ativista social, representante da Federação das Associações de Favelas do Rio de Janeiro (FAFERJ), com histórico de atuação pela ressocialização de pessoas advindas do sistema prisional. Integra o Conselho Estadual de Saúde, o de Assistência Social e o de Defesa dos Direitos Humanos. Conheça o grupo de apoio a campanha no Facebook.

Lourenço Cézar, Maré (PSB)

“Favelado: A dor e a delícia de ser o que é”

Lourenço Cézar é morador do Complexo da Maré há 40 anos. Está fazendo o mestrado em Educação na UFRJ, é coordenador do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da Faculdade de Caxias, e é diretor do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM). O CEASM foi pensado, segundo Lourenço, como uma forma de dar acesso à educação para os moradores, para, dentre outros, fazer com que refletissem mais sobre seus votos. O CEASM deu origem ao pré-vestibular onde estudou e trabalhou Marielle, ao Jornal O Cidadão e ao Museu da Maré. Conheça a campanha no Facebook e através do seu site.

MC Carol, Morro do Preventório (PCdoB)

“100% Feminista”

Carolina de Oliveira Lourenço, ou MC Carol, é uma cantora e compositora de funks com temáticas feministas e de denúncia ao racismo, criada no Morro do Preventório, em Niterói. Declarou que sua ideia de ser candidata foi influenciada pelo assassinato de Marielle. Conheça a campanha no Facebook e através do seu site.

Monica Francisco, Borel (PSOL)

“Nos tiraram tanto que perdemos o medo”

Mônica Francisco é feminista negra, cientista social, pastora evangélica e liderança no morro do Borel, na Zona Norte da cidade. Além de militante de movimentos de favelas e pela economia solidária, por muitos anos participou do Movimento de Rádios Comunitárias, fundou a Rede de Instituições do Borel, a Rádio Comunitária do Borel, o jornal Formando Opinião, e o Grupo Arteiras, e trabalhou como agente comunitária, entre outros. Integrou a equipe de Marielle na Câmara e milita por equipamentos culturais em favelas, diversidade religiosa e pelas vidas negras e das mulheres. Conheça a campanha no Facebook e através do seu site.

Renata Souza, Maré (PSOL)

“Eu sou porque nós somos”

Renata Souza nasceu e cresceu na Maré e, a partir de um pré-vestibular comunitário, graduou-se em Comunicação na PUC-Rio e fez mestrado e doutorado em Comunicação e Cultura na UFRJ, com pesquisas sobre o jornal comunitário O Cidadão e sobre a resistência da juventude frente à militarização da vida na Maré. Hoje é pós-doutoranda no programa de Mídia e Cotidiano na UFF. Foi chefe de gabinete de Marielle e é comprometida com a continuação de seu legado. Suas principais frentes incluem comunicação e cultura, além de resistência à militarização e segurança pública. Se comprometeu com sete compromissos cidadãos do movimento Rio Por InteiroConheça a campanha no Facebook e através do seu site.

Tainá de Paula, Favela do Loteamento (PCdoB)

“Seja a cidade”

Tainá de Paula é arquiteta e urbanista e ativista feminista criada na Favela do Loteamento, na Praça Seca, Zona Oeste da cidade. Tem atuação como conselheira na Fundação Centro de Defesa de Direitos Humanos Bento Rubião, que trabalha com urbanização, direito à terra e à habitação, e como consultora técnica do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto do Rio de Janeiro. Suas principais frentes incluem acesso à cidade e mobilidade urbana, com viés de gênero e raça. Se comprometeu com cinco compromissos cidadãos do movimento Rio Por InteiroConheça a campanha no Facebook e o site de Tainá.

Xaolin, Rocinha (PSOL)

“A favela da Rocinha se consolida como parte integrante da cidade”

Antônio de Mello, conhecido como Xaolin da Rocinha, é morador e líder comunitário da Rocinha, além de líder sindical dos metroviários. Já foi presidente da Associação de Moradores da Rocinha e hoje é integrante do Movimento Popular de Favelas, e suas frentes de atuação na Rocinha incluem lutas por saneamento, água, luz, escolas e equipamentos de saúde. Foi um dos fundadores do núcleo do PCdoB na Rocinha no final da década de 90. Conheça seu perfil no Facebook.

Confira abaixo candidatos a deputado federal:

Anderson Quack, Cidade de Deus (PSOL)

“Nós somos a soma das diferenças”

Anderson Quack é cineasta e ativista social da Cidade de Deus, tendo produzido o filme Falcão – Meninos do Tráfico e dirigido o documentário “Remoção”, sobre as remoções de favelas da Zona Sul para conjuntos habitacionais da Zona Oeste nas décadas de 60 e 70, além de ser cofundador da CUFA (Central Única das Favelas), que visa formar jovens de favelas. É integrante do Frente Favela Brasil (FFB), mas sua candidatura foi absorvida pelo PSOL diante da não regulamentação do FFB em tempo para essas eleições. Conheça a campanha no Facebook e no Instagram.

Benedita da Silva, Chapéu Mangueira (PT)

“Em constantes lutas pelos direitos do povo”

Benedita da Silva nasceu e viveu no morro Chapéu Mangueira, na Zona Sul da cidade, durante 57 anos. Iniciou sua trajetória política na Federação das Associações de Favelas do Estado do Rio de Janeiro (FAFERJ). Gradou-se em Assistência Social aos 40 anos. Em 1982, foi eleita a primeira vereadora mulher do PT e a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Câmara de Vereadores, e até hoje foi a única mulher negra eleita para o Senado. Foi também a primeira negra a assumir um governo de estado no Brasil, quando Garotinho renunciou para concorrer à presidência, e durante sua gestão implantou a lei de cotas na UERJ. Foi ainda Ministra de Desenvolvimento Social durante o governo Lula. Milita pelos direitos da mulher, das trabalhadoras domésticas, dos moradores de favelas e por igualdade racial. Conheça a campanha no Facebook e através do seu site.

Bezerra, Asa Branca (PHS)

“Comunidade no Planalto”

Carlos Alberto Costa, o Bezerra, foi um dos primeiros ocupantes da Asa Branca, favela reconhecida por seu alto grau de habitabilidade na Zona Oeste da cidade. Durante a sua gestão como presidente da Associação de Moradores, de 1997 até 2017, reeleito quatro vezes, moradores construíram o seu próprio sistema de esgoto no local, pressionaram a prefeitura a realizar a pavimentação das ruas e entradas, atuaram para promover a segurança da comunidade de forma inovadora e responsiva, além de receber de forma humana imigrantes e oferecer aulas de idiomas, matemática, teatro, fotografia, esporte e inúmeros outros projetos sociais. Desde o término de seu mandato Bezerra se dedica ao desenvolvimento das favelas na região de Jacarepaguá como um todo. Conheça seu perfil no Facebook.

Damião Braga, Quilombo da Pedra do Sal (PDT)

“Por um mundo mais igual e mais plural”

Damião Braga é líder quilombola lutando pelo reconhecimento do Quilombo da Pedra do Sal, e trabalhador da zona portuária do Rio, além de membro titular do Comitê Gestor do Sitio Arqueológico Cais do Valongo. Militou contra o Museu Guggenheim no Porto e pela preservação da história e cultura da região portuária, maior porto de escravos da humanidade. Em evento da ONU explicou que “a principal dificuldade das comunidades em área urbana é justamente a especulação imobiliária,” e que “para melhorar esse cenário…tem que acabar com racismo institucional…falar de uma política estruturante e não de uma ação afirmativa”. Conheça seu perfil no Facebook.

David Miranda, Jacarezinho (PSOL)

“Em defesa da nossa história”

David Miranda é jornalista nascido e criado no Jacarezinho. Aos 13 anos saiu de casa e trabalhou como engraxate, limpador de carros, caixa e atendente de telemarketing. Foi o primeiro vereador LGBTQ+ eleito para a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, sendo os direitos desse segmento da população sua principal frente de atuação. Conheça a campanha no Facebook e através do seu site.

Mãe Flávia Pinto, Vila Vintém (PDT)

“Esperança na mulher para mudar o Rio”

Mãe Flávia, nascida e criada na Vila Vintém, Zona Oeste do Rio, perdeu o pai e a mãe assassinados ainda criança, a mãe vítima de feminicídio pelas mãos do padrasto. É mãe de santo desde os 23 anos e se formou em sociologia aos 37 na PUC-Rio graças a uma bolsa de estudos. Também decidiu candidatar-se após o ocorrido com Marielle. Suas principais lutas são contra intolerância religiosa, pela igualdade de gênero e pela prevenção da violência contra a mulher. Conheça a campanha no Facebook e através do seu site.

Tia Norminha, Manguinhos (PRB)

“Pelo direto da pessoa com deficiência e seus familiares”

Norma é psicopedagoga e moradora de Manguinhos. Tem um filho jovem com paralisia cerebral devido a um erro médico no parto e desde então milita pelos direitos da pessoa com deficiência e seus familiares, em especial o direito à saúde especializada e à educação especial e inclusiva. Também luta pelo empoderamento das mulheres negras de favela. Se comprometeu com sete compromissos cidadãos do movimento Rio Por InteiroConheça seu perfil no Facebook.

Conhece outros candidatos de favela que não estão aqui? Mande um email para nós: contato@rioonwatch.org.br.

Esta é a sexta matéria de uma série sobre o cenário político brasileiro para 2018.