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Curicica (Parte 3): Aguardando o Morar Carioca

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Este é o terceiro de quatro artigos sobre o agrupamento de favelas em Curicica, Jacarepaguá, que estão aguardando projetos de integração urbana através do programa Morar Carioca.

Quando será? 

Os moradores da Associação da Vila Calmete se sentam próximos as águas poluídas que correm ao longo das ruas da comunidade. Do outro lado de uma pequena ponte plantas vivas e bonitas saltam de diversos vasos no chão, margeando o rio através de sua extensão: uma severa justaposição que marca ambos: o potencial e os limites da capacidade da comunidade na falta de providências públicas. “Nada disso estava aqui quando eu visitei Vila Calmete pela primeira vez,” disse Bezerra, presidente da vizinha Asa Branca. “Tilzé fez esta comunidade ficar linda. Mas as pessoas ainda querem mais.”

José da Cruz, ou Tilzé, não é o tipo que alguém pode imaginar liderando um projeto de jardinagem na comunidade. Ele tem um ar austero e inicialmente intimidante, sua fala é pontual e franca, muitas vezes sarcástica. Um traço de fadiga aparece em seus olhos e sua voz – apesar disso não impedir nas suas contribuições para a comunidade onde ele mora. Como parte do Conselho Comunitário de Segurança Pública, em questões de ética, durante nove anos e presidente de Vila Calmete por oito, ele lidou com muitos dos problemas enfrentados pelas favelas de Curicica e tem agido cada vez mais contra as restrições que limitam a ação comunitária.

“As comunidades daqui foram abandonadas e a minha entre elas,” ele disse. “Não há saneamento básico e água canalizada. E quando tudo o que você tem é um líder comunitário e um corpo de diretores, não há força. Existem limites para o que você pode mudar.” Sentado em uma praça sombreada perto da Associação de Moradores onde lições de artes marciais são dadas para jovens da comunidade, ele descreve projetos passados que evaporaram devido a falta de espaço e das dificuldades em organizar moradores que já estão ocupados trabalhando para sustentar suas próprias famílias.

“Disseram-nos que o Morar Carioca virá para melhorar a comunidade,” disse Tilzé sobre o programa da Prefeitura para melhorar e integrar todas as favelas do Rio para 2020 através de um enorme investimento urbano. Ele continua eternamente cético: “Está escrito pelo menos. Mas ninguém realmente sabe.” Com ironia medida ele canta um pedaço de uma melodia do artista carioca Zé Rodrix: “Quando será, quando será o dia da minha sorte?”

“Outro nome para Favela-Bairro”

Marcado em turquesa o futuro Parque Olímpico. Em vermelho são as favelas de Curicica destacadas nesta série. Abra o mapa aqui: http://bit.ly/CuricicaMapa.

“A única coisa que a Prefeitura fez aqui,” disse Tilzé, “foi um dia de limpeza no rio que começou há três anos.” Mas acabou por causa de política, uma mudança no governo. Isso é o que realmente decide tudo. É tudo política.

O pequeno conjunto de investimentos governamentais ao longo da história das favelas em torno de Vila Calmete tem sido igualmente insignificante. Na Vila União de Curicica, uma fileira de casas que se encontra fora da comunidade costumava ser conectada com a Rua Ventura por duráveis passarelas de concreto sobre um córrego na extremidade da rua. Mas na tentativa de “abrir o canal”, a Prefeitura substituiu as pontes por outras frágeis, de madeira que frequentemente quebram sob os pés das pessoas.

“Eu cai no córrego não faz muito tempo,” disse um morador. “Bati minha cabeça e aterrissei na água suja.” Isso está longe de um incidente isolado, como afirma sua vizinha, que já viu isto acontecer frequentemente. Políticos aparecem em épocas de eleições, ela lembra, procurando por apoio para construir uma boa imagem através de pouco comprometimento e projetos de baixo impacto em comunidades pobres. O resultado é uma política mal formada que raramente beneficia a comunidade em um nível genuíno, com pouco foco a longo prazo. No caso da ponte em Vila União, a atenção pública evaporou logo que a fase de implementação se aproximou. “Nós temos que consertar a bagunça deles.”

“Nós podemos cair na merda,” ela brinca amargurada. “Literalmente.”

“Até onde eu posso falar,” disse Tilzé, “Morar Carioca é apenas outro nome para o Favela-Bairro.” De fato é formalmente reconhecido com a continuação do programa da Prefeitura dos anos 1990 e 2000 chamado Favela-Bairro. Exceto o dado que o Morar Carioca é em teoria supostamente construído a partir das lições aprendidas, garantindo participação da comunidade, mantendo arquitetos no processo até as etapas finais da execução, gerando maiores soluções criativas e incorporando critério de sustentabilidade ao meio-ambiente. A ideia é de melhorar as favelas, tendo as realizações dos moradores na área de construção e no desenvolvimento da comunidade trazendo a infraestrutura necessária para completar sua urbanização e, por fim, conquistar “integração social:” uma costura conjunta dos dois lados das tradicionais disparidades da “Cidade Partida”, como o Rio é conhecido.

Um artigo recente detalhou algumas falhas fundamentais no Favela-Bairro que foi um frutífero programa que ficou aquém de seus principais objetivos. Em resumo: um foco em melhoras físicas ao invés de uma maior promoção holística de oportunidades igualitárias, a falta de uma genuína participação comunitária em decisões sobre os investimentos, e a eventual deterioração de intervenções públicas através da falta de manutenção.

Embora seja muito cedo para julgar como está o Morar Carioca de acordo com esse critério, a tradição de políticas vazias e intervenções improdutivas que as comunidades de Curicica tem experimentado até hoje, deixam mais precauções do que impaciência. Ivan, diretor da Associação dos Moradores de Vila Calmete, expressou reservas: “os investimentos devem acabar assim que as próximas eleições estiverem decididas.”

“Nós estamos esperando”

O sentimento dominante em Curicica, porém, tem sido de excitação. Em Asa Branca, onde alguns trabalhos do Morar Carioca já começaram através da Secretária de Obras Públicas, o presidente Bezerra da Associação de Moradores tem estado bem próximo aos funcionários do Prefeitura. “Até onde eu posso ver não há nada político por trás disso,” ele disse. “Eles estão realmente aqui para melhorar nossa comunidade.”

Edson Ribeiro, o presidente da Vila Pitimbu, está igualmente otimista. “Eles estão fazendo um grande trabalho com o projeto Morar Carioca,” ele disse. “Já houve uma visita da Secretaria de Habitação e agora nós estamos apenas esperando a vinda dos engenheiros, o registro de moradores e a organização de tudo para o início dessas melhorias.”

Tendo liderado sua comunidade por décadas, Ribeiro está orgulhoso do progresso em relação as necessidades das moradia que ele e seus vizinhos realizaram com seus próprios esforços. “Mas nós fizemos tudo como moradores, com o pouco conhecimento técnico que tínhamos. Nós conseguimos morar bem aqui, mas ainda não está tecnicamente prefeito. E agora tudo será tecnicamente perfeito,” ele disse com ânimo.

Todas as comunidades que eu entrevistei parecem concordar em suas principais prioridades com os investimentos vindouros. “Saneamento básico é essencial,” disse Tilzé, “o primeiro item.” Embora algumas comunidades já receberam serviços de saneamento, aquelas sem saneamento são confrontadas com cenas, cheiros e eventuais riscos de saúde que lixo na rua e a água suja representam. “Eu não sinto o cheiro mais, pessoalmente,” Tilzé disse, apontando para o rio abaixo de nós, “mas, as pessoas não estão felizes com isso.”

E na Vila União, Sônia conta histórias de ratos vivendo dentro dos muros, baratas correndo para visitas e mosquitos acampados em poças de água paradas debaixo de lixo ao longo do rio na Rua Ventura – explodindo em enxames para saudar aqueles que recolhem o lixo acima deles. Todo o esgoto da comunidade vai para dentro do córrego. Forçados a trabalhar a partir do limite de seus recursos, terra e conhecimento, não há muitas alternativas. Um projeto recente para conectar o sistema de escoamento próprio de Asa Branca com a rede oficial de esgotos da cidade, solucionando problemas de poluição e de inundações em um rio próximo, oferece esperança para comunidades vizinhas lidando com tanto desperdício e tão poucas opções.

Caminhando em direção ao escritório de Vânia na Vila União, os recortes de papel que adornam a parede perto de sua porta incluem um artigo de jornal sobre a espera da Vila União pela legalização de sua água. Tilzé se refere a esta falta de água canalizada como uma “marca básica” que caracterizam os assentamentos mais informais, e o presidente Renildo de Abadiana, é similarmente ávido para ver água como um serviço público ao invés de um luxo. “Nós teremos que pagar,” ele disse, “mas, é melhor assim, eu acho, ter o produto na sua porta, garantido.”

As duas comunidades, Vila Campo da Paz e Vila Calmete, lamentaram a falta de espaços de lazer para as crianças. “Mas há opções não tão distantes daqui,” disse Lindinalva da Silva, presidente da Vila Campo da Paz. “É uma falta, mas, existem coisas mais importantes: saúde, educação e moradia.”

A crescente população em sua comunidade faz com que alguns moradores construam casas de forma precária. “A Associação permite apenas dois andares de construção,” ela disse, “mas, nós não temos como forçar isso e então as pessoas constroem um terceiro e depois um quarto andar. A estrutura nem sempre suporta.” Existe um espaço aqui para uma entidade com poderes legais para forçar construções regulares e prover alternativas para os residentes procurando por moradia. Apesar de haver creches na região, Lindinalva também comentou que ainda existe uma necessidade por lugares “para as crianças ficarem, dormirem e comerem de forma segura” na ausência de seus pais que estão trabalhando. Outra vez, a esperança pode ser encontrada um quarteirão a frente em Asa Branca, onde a Prefeitura comunicou planos para construir uma escola, uma creche e um posto médico em um espaço vazio perto da comunidade.

“Nós estamos requisitando essas melhorias à Prefeitura já faz algum tempo,” disse Renildo. “Nós estamos esperando.” De pé na praça principal onde a maioria de sua comunidade, Abadiana, relaxa, ele me conta sobre seus planos em organizar a comunidade para “fazer uma bela praça” em antecipação aos tão aguardados projetos.

O dia da minha sorte…

Algumas horas antes eu e meu colega chegamos a Vila União para encontrar Sônia, trabalhadores do Morar Carioca estavam circulado pela comunidade, entrevistando moradores em preparação para novembro, quando o projeto em Curicica está agendado para começar. “Eles estavam tentando entender o que nós esperamos ver do projeto,” disse um morador. “Eles parecem gente boa.”

Em sua sala de estar, Bezerra mostrou-me uma carta que enviou em 2009, requisitando a presença de serviços públicos em sua comunidade. Ele está agradecido pela sorte que teve. Muitas comunidades não recebem uma resposta produtiva quando buscam a prefeitura.

Para Asa Branca, as obras públicas chegaram. Na parte externa as ruas foram destruídas para dar lugar à nova infraestrutura. “Eles estão abrindo a estrada para que possam reformá-la,” disse Wesley, neto de Bezerra. Alguns espectadores reclamam sobre o estado atual da rua, mas outros olham positivamente, excitados pelas melhorias que o caos de brocas e escavadeiras promete. “Olhe,” disse outro morador orgulhosamente apontando para alguns membros da comunidade que foram empregados para trabalhar na estrada. “Meus vizinhos estão trabalhando para melhorar a comunidade.”

Tilzé, porém, estava um pouco mais cético. “Uma vez que o Morar Carioca entrar,” ele disse, “eles terão que quebrar tudo outra vez. Eles apenas gostam de gastar dinheiro, de jogar dinheiro fora.” Embora não esteja confiando muito nos planos do governo antes de virarem ações, ele não está contra o princípio do qual o Morar Carioca promete. “Estas coisas precisam ser feitas de fora,” ele disse, retornando a questão na qual nós começamos: “Mas, quando?”

Este é o terceiro de quatro artigos sobre o agrupamento de favelas em Curicica, Jacarepaguá, Rio de Janeiro antes das melhorias através do programa da Prefeitura Morar Carioca. O último artigo irá examinar, desigualdade, percepções sociais, e as diferentes forças que definem as oportunidades daqueles que vivem nessas comunidades. E no fim, as forças que os sustentam: cultura, vigor. Amor.

Clique aqui para ver mais fotos das comunidades retratadas nesta série ou veja o slideshow abaixo: