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Curicica (Parte 4): Amor, Acima de Tudo

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Este é o último de 4 artigos sobre o agrupamento de favelas em Curicica, Jacarépagua, que esperam projetos de integração urbana pelo programa de melhorias Morar Carioca.

“A vida Continua”

“Ela acaba de passar por um acidente”,  disse Regina Sônia Gomes Baptista, conhecida como “Sônia”, ex-presidente de Vila União de Curicica, enquanto passávamos pela casa de seus amigos em sua comunidade. “O carro capotou e ela foi jogada pra fora”. Olhando para a menina, teria sido difícil advinhar. Coberta até a cabeça embaixo de uma coberta de lã, o seu olhar transmitia um leve contentamento e uma curiosidade tímida e entretida acerca da dupla de estrangeiros que se encontravam em seu quarto.

“Ela é forte,” disse Sônia, um pouco depois. Você nunca sabe como coisas como estas acontecerão. Mas a vida continua.Tem que continuar.”

E assim é para os residentes dos assentamentos informais de Curicica. De alguma maneira, eles ainda estão sob o jugo de ações institucionais irresponsáveis que eclodiram em suas comunidades. Uma tradição de inequidades persiste pela cidade, e estas pessoas continuam vivendo sem serem convidadas a ter uma participação ativa na tomada de decisões em suas vidas. Mas eles continuam a viver, com alma, com música, com orgulho dos lugares e famílias que construíram. Seus pés estão ancorados ao chão sólido que eles descobriram apesar das tempestades. A sólida terra que eles esperam manter.

Asa Branca“Esqueça essas pequenas comunidades”

Jacarépagua detém um ponto privilegiado no coração de muitos brasileiros. O estúdio de televisão da Globo, PROJAC, que é o maior centro de produção da America Latina e sua influência é notável. A programação da PROJAC domina as telas pelo país; sua programação é despejada nas casas, bares e restaurantes do amanhecer até o anoitecer.

“Eles filmaram algumas das cenas da novela “Avenida Brasil” aqui, na comunidade,” disse Sônia, relembrando um episódion em que um dos personagens foi filmado semi-nu na rua, atraindo os a gozação e os assobios dos passantes.

Mas de acordo com Tilzé, os olhos da mídia nunca vai onde poderia causar o melhor impacto. “A Globo nunca entrou na comunidade,” ele disse, “a não ser para deturpá-la”. A pouca atenção voltada para as favelas do Rio vão diretamente para a Cidade de Deus e para a gigante Rocinha, além de outras tantas favelas na Zona Sul.

“Esqueça essas comunidade menores” é a mensagem passada, de acordo com Tilzé, e os reflexos evadem das telas das TVs para as políticas públicas delineadas pelo estado. “Não recebemos nehum recurso aqui,” ele disse. Eles alocam tudo para a Cidade de Deus, como se fosse a única comunidade com problemas em Jacarepaguá. Essas grandes e bem-conhecidas comunidades dão ao governo Brasileiro uma espécie de reconhecimento que nós não podemos dar. Para eles, somos apenas um desperdício de tempo e dinheiro.”

“A discriminação social existe, e existe muito,” disse Sônia. Além de negligenciados pelo governo e pela mídia dominante, os moradores das comunidades de Curicica encontram-se na extremidade de um jogo desigual. “Em nossas escolas,”disse Ivan, diretor da Associação de Moradores da Vila Calmete, “os professores são mal-pagos e uma boa parte deles são estagiários novatos. Os estudantes acabam não aprendendo bem. Com mais dinheiro, você pode complementar a sua educação com professores particulares e aulas preparatórias, mas nem sempre temos essa opção.”

Sônia nos falou de uma menina em sua comunidade que deseja ser dentista, mas tem que trabalhar dia e noite pra pagar por sua educação, quase não tendo tempo para dedicar aos estudos. “Ela é muito dedicada, mas é difícil,” ela disse. A universidade pública não supri a demanda e é difícil competir por bolsas de estudos, com estudantes que tem mais privilégios. “Tem poucas vagas e muita demanda. As crianças de origem mais humilde não têm oportunidade. Elas acabam esmagadas.”

Em turquesa está marcado o futuro Parque Olímpico. Em vermelho estão marcadas as favelas de Curicica citadas na série. Viste o mapa aqui: http://bit.ly/CuricicaMapa.

A melhor maneira de seguir em frente

Apesar da maioria dos moradores de Curicica apreciarem o relativo privilégio da localização de suas comunidades. “Nós somos uma comunidade pacífica, e espero que continue assim,” disse Lindalva, presidente da Vila Campo da paz. E Ivan, um morador de Curicica desde que veio do nordeste, 20 anos atrás, disse-me que “nunca escutou um tiro por perto”. Quando questionada sobre a convivência entre a vizinhança formal e as favelas de Curicica, Sônia exclamou: “É bonita! Quando os moradores de Curicica tem reunião, nós somos convidados.”

A proximidade de Curicica do Parque Olímpico que está para chegar, coloca a área na corrida do programa de melhorias Morar Carioca, como discutido no artigo anterior. Poder político, discriminação social, e o legado colonial da desigualdade são questões que têm sido negligenciadas explicitamente, mas agora os donos-do-poder optaram por utilizar a “inclusão” e “participação comunitária”.

Motivações patriarcais vivem e permanecem entre o que é dito e o que é feito, entre a mitologia da “Olimpíadas para todos” e as ações realizadas pelas forças que alegam implementar a “integração social.” Examinar as ações da Prefeitura, ajuda reconhecer que o governo é composto por um grupo heterogêneo onde implusos contraditórios competem por poder. No meio disso, existem existem pessoas genuínas lutando por progresso genuíno. Contudo, o que já culminou desse burburinho, ficou reduzido a muito pouco.

Até que uma sinceridade coesa venha à tona, os moradores de Curicica continuarão a ser ameaçados pela ambição de um governo sem limites éticos. Famílias serão expulsas para dar lugar para o tráfego olímpico, o desejo das pessoas serão ignorados em nome de espetáculos caríssimos e a gentrificação acompanhará as ondas de urbanização trazidas por arquitetos e tratores.

A não ser que, como diz Tilzé, “mós mantenhamos nossos olhos abertos.”

“Obrigado para a riqueza”

Conversas distantes e movimento sem pressa nos recebiam, quando nós saímos ao ar fresco noturno da Vila União. Na comunidade da Rua Esperança, os pais estavam retornando dos seus dias de trabalho, relaxando ao som de rodinhas passando sobre o cimento. Duas adolescentes brincavam enquanto empacotavam seu carrinho de pipoca – limpando, desmontando, e apagando a luz. Outro dia de bom trabalho.

Um menino surgiu da casa ao lado, e com ele apareceu a roupa dourada e vermelha brilhante que estava guardada no fundo do quarto. “Elas são para o Carnaval”, um dos adolescentes disse. “Eu fico animado toda vez que eu vejo elas.”

Quando falo com pessoas de fora das favelas sobre essas favelas, as mesmas imagens parecem ocupar a dianteira de suas percepções: drogas, violência, pobreza. E embora essas imagens sejam uma verdade, as histórias que eu encontrei em Curicica estavam em uma categoria diferente. Quando eu perguntei-lhes como era a vida na comunidade onde eles vivem, os momentos que compartilharam eram os de dançar forró no meio de um churrasco do bairro, de empinar pipas no terraço, de crianças brincando na praça compartilhada que é a rua residencial. Estes momentos envolviam a família, a cultura, e a amizade. Confiança.

“Um protege o outro”, disse Sônia. Naquela noite, ela nos levou para conhecer Carlos, outro morador da Vila União, e ainda que não soubéssemos nada sobre suas histórias pessoais, eles pareciam ser pessoas que entendiam um ao outro. No mínimo, eles eram pessoas em que um completava a frase do outro.

“Quando eu peço uma mão, eles me ajudam”, disse Carlos. “Mesmo se você não vê um ao outro, mesmo se você não fala muito, você depende de seu vizinho.” Depois de ter acompanhado Bezerra, presidente da comunidade vizinha Asa Branca, durante muitos de seus passeios, podia-se ver este tipo de dinâmica entre as diferentes comunidades de Curicica. Ele estava sempre parando para conversar, parando para ouvir, para ajudar. “Quando temos um problema, Bezerra traz seu pessoal e nós descobrimos como resolver juntos”, disse Ivan de Vila Calmete. “E nós fazemos o mesmo.

Sobre a questão da “falta” percebida em comunidades como Vila União, Carlos respondeu: “Nesta comunidade em que estamos, não há muita, muita falta, realmente.” Embora certas condições precisavam melhorar, ele tinha o que precisava. “No final”, disse ele, “quando morrermos, a primeira coisa que vamos fazer é dizer obrigado pela riqueza …”

“Há uma boa parte desta comunidade que é evangélica”, disse Carlos, “e muito do que aprendemos na igreja é sobre o amor.” Sônia assentiu conscientemente, tremendo um pouco na noite fria. Mas sua voz estava ainda calorosa. “O amor”, disse ela, “acima de tudo.”

Este é o último dos quatro artigos sobre o conjunto de favelas em Curicica, Jacarepaguá, Rio de Janeiro antes das melhorias do programa da Prefeitura, Morar Carioca. Rexy Josh Dorado, estagiário de RioOnWatch agradece à Curicica, a ComCat e as favelas do Rio pela riqueza de experiências enquanto ele retorna para a Universidade de Brown no outono. Ele estará em contato.

Clique aqui para ver mais fotos das comunidades destacadas nesta série, ou assista o slideshow abaixo: 

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