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A Absurda Perda do Museu Nacional Escancara um Projeto de País

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O RioOnWatch estará publicando, no decorrer desta semana, uma série de notas sobre o trágico incêndio que destruiu o Museu Nacional neste domingo. A presente nota foi postada no Facebook por Tarcyla Fidalgo.

Essa noite foi difícil. Perdi o sono, perdi a voz, e por alguns minutos perdi a vontade. Não quero insistir no quanto é absurda e triste a perda definitiva do Museu Nacional para as chamas, especialmente quando esse é apenas o auge de um processo de perda que já se arrasta há anos, denunciado e vivenciado seguidamente por pesquisadores, alunos e funcionários.

O museu está perdido, talvez já estivesse antes, mas a simbologia do fogo e as imagens geradas por ele são um ponto final muito forte e especialmente dolorido para os 200 anos de sua história. Mas não nos enganemos. Ontem não se queimou apenas um dos maiores acervos da América Latina. Ontem se escancarou um projeto de país que está decidido a abrir mão da ciência e do conhecimento, decidido a esquecer sua história, decidido a condenar seu futuro.


O museu não ardeu porque o país não tem dinheiro (lembremos que se trata de uma instalação federal). O museu ardeu porque o país decidiu que sua prioridade é ser paraíso de valorização de capital especulativo e congelou investimentos em saúde, educação, cultura e história. O museu ardeu porque o país decidiu que a lógica empresarial deve ser adotada amplamente: no próprio governo e rifando suas instituições para a iniciativa privada. Mas a universidade é teimosa, então que queime. Foram vários incêndios na UFRJ nos últimos três anos. Mas seguimos.

Fazer ciência no Brasil é ato político, é resistência, é teimosia. É acreditar em um país melhor para tod@s, em um futuro que teima em se manter vivo em nossos corações, apesar das chamas (por vezes literais) da realidade.

Pelo museu, vou para a universidade hoje. Produzir conhecimento, teimar, insistir. Por amor, por rebeldia, para mostrar que eles têm muito mais para queimar antes que se acabe tudo.

Tarcyla Fidalgo é candidata a doutora em planejamento urbano e regional pelo IPPUR-UFRJ, mestra em direito da cidade pela UERJ, e estudante do sistema público de educação desde o início da vida escolar (Colégio Pedro II).