A Destruição do Museu Nacional: Berço da Nossa Maltratada e Aguerrida Comunidade Científica

O RioOnWatch estará publicando, no decorrer desta semana, uma série de notas sobre o trágico incêndio que destruiu o Museu Nacional neste domingo. A presente nota foi postada no Facebook por Alexandre Fortes.

Na guerra, não há tempo para chorar. Estamos assistindo à destruição do maior e mais importante acervo científico do país e os golpistas já estão querendo responsabilizar a UFRJ pela tragédia.

O Museu Nacional, além de tudo que significava como patrimônio e como instituição de pesquisa, era o ponto natural de concentração das Marchas pela Ciência, o berço ao qual sempre regressava nossa maltratada e aguerrida comunidade científica. O porto seguro de todos que teimam em acreditar que esse país pode ser soberano e usar nossa imensa capacidade de produção de conhecimento para oferecer uma vida digna ao seu povo.

A perda é imensurável e irreparável. É verdade que ela expõe nossa incapacidade de fazer investimentos estruturais mesmo nos momentos favoráveis. Mas, acima de tudo, escancara o caráter criminoso das políticas de “austeridade” transformadas em emenda constitucional. Para que nunca mais se repita a “aventura” de gastar com educação, saúde, cultura, ciência e tecnologia. Especialmente depois que se comprovou que esses gastos podem fazer a economia girar em favor do desenvolvimento e da redução da desigualdade.

Um país que deixa de vacinar suas crianças, que assiste ao crescimento da mortalidade infantil, que assassina 60.000 pessoas por ano, que vai colocar um homem que ensina crianças de colo a atirar no segundo turno, vai por acaso investir em cultura e ciência?

A gente séria e responsável do país certamente ficará aliviada de continuar a visitar o Louvre, o Metropolitan e British Museum sabendo que a gentalha não terá mais nem o gostinho de ver uma múmia ou um dinossauro por oito reais num lindo espaço público da Zona Norte.

E o aparato político, midiático, policial e judiciário golpista já dá todos os sinais de que vai se apropriar dessa calamidade para lançar uma nova ofensiva contra as instituições públicas de ciência e tecnologia, seus servidores e dirigentes.

Alexandre Fortes é professor adjunto da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) na área de História Contemporânea, vinculado ao Departamento de História e Economia do Instituto Multidiciplinar e membro permanente do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em História.