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Eleições 2018: Como Moradores da Rocinha Irão Responder nas Urnas

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Nos últimos anos, o Brasil passou e continua passando por uma crise econômica e política profunda, em que gerou indignação e desesperança em toda a população, causando o afastamento e descrença em quem deveria os representar. Uma pesquisa divulgada em agosto, feita pelo Ibope para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), apontou que 59% dos eleitores  não sabiam em quem votar ou anulariam os votos, sendo o maior percentual constatado das últimas cinco eleições. Apenas 27% já tinha sabiam em quem iriam votar. Durante as campanhas dos candidatos à Presidência da República, os percentuais foram mudando e as pessoas mudando de opinião de acordo com as propostas dos candidatos e tendências políticas e sociais.

Na Rocinha, na Zona Sul do Rio de Janeiro–com mais 100.000 habitantes–a situação não é diferente. Às vésperas das eleições, alguns eleitores já escolheram seus candidatos e estão otimistas com a mudança. Como é o caso de Joilson Pinheiro, um baiano de 52 anos, que mora na Rocinha há quase 20 anos. Ele afirmou que voltou a acreditar e lutar pela política depois que viu as propostas do candidato João Amoêdo, do NOVO. “Duas propostas do NOVO me levaram de volta para a militância política: a redução de assessores parlamentares em até 50% por gabinete e o não uso de verbas públicas em campanhas eleitorais. Ainda tem os investimentos em empreendedores, o que vai gerar empregos e a diminuição de impostos. Além do que, João Amoêdo tem ideias a médio prazo para o Brasil, e o partido NOVO tem um critério em relação ao histórico dos candidatos, que só entram no partido após a comprovação de que são fichas limpas”, ele disse.

Joilson também fez ressalvas sobre a situação da Rocinha, e o que espera para o país. “Os moradores da Rocinha precisam se unir e precisam de ajuda para superar os traumas sofridos durante esse tempo de conflito. E o Brasil está se perdendo ao apostar em políticos reacionários, promovedores de discursos de ódio, opressão e com propostas com perdas de direitos civis e trabalhistas. A diversidade cultural do Brasil precisa ser mais valorizada. O povo brasileiro precisa de mais empregos, investimentos em saúde, educação, segurança e saneamento básico”, completou.

Apostando no crescimento da economia e na geração de empregos, a moradora Paloma Pinheiro, de 31 anos, está entre os 12,7 milhões de brasileiros desempregados, e disse que acredita em candidatos fichas limpas e que possam mudar o atual cenário. Ela diz que por isso declarou o voto para Henrique Meirelles, do MDB. “Por ter sido um bom gestor econômico, acredito que Meirelles tenha essa capacidade de levantar o país. Ele é ficha limpa e já ajudou o Brasil a sair da crise. Acho que está na hora de termos representantes que realmente se preocupem com o povo e não que olhem para o próprio umbigo”, afirmou.

A mesma opinião e otimismo tem a professora e moradora Michelle Rocha, 40 anos, que tem como candidato Ciro Gomes, do PDT. Michelle afirmou que Ciro é experiente e audacioso. “Ele tem projeto de criação imediata de emprego através da construção civil. Em relação à PEC de gastos, vai revogar, pois educação, saúde e segurança são investimento. Tem proposta para a pauta de meio ambiente, entre elas, política social garantindo direitos para pessoas das áreas ditas preservadas. Em relação à educação almeja o desenvolvimento nos parâmetros da ONU, no qual toda criança não deve estar fora do âmbito educacional, ou seja ampliação de escolas e filtro nas escolas com pior índice, dando foco à aprendizagem e o que falta para o profissional e aluno. Enfim, Ciro é empático e experiente na vida pública, além de audacioso e autêntico”, ela disse.

A professora completou: “A Rocinha está estagnada quanto a investimentos sociais e estruturais desde 2014, as obras do PAC estão paradas, projetos sociais também, o Centro Social Delamare com mau funcionamento tendo serviços essenciais não só para a população da Rocinha, mas seu entorno. Devido à crise política os investimentos nesses segmentos simplesmente pararam do dia para noite! Sabemos que esse corte foi geral, mas é necessário criar meios de fiscalização e auditoria para que qualquer desvio seja punido conforme tal. Acredito que todo esse cenário que esperamos não viver tão cedo pode mudar com Ciro”, ressaltou.

Embora haja muitas convicções e declarações de voto, algumas pessoas pretendem não votar. Segundo uma pesquisa do Datafolha divulgada em setembro, 13% dos eleitores disseram que não votariam, sendo o índice mais alto em 16 anos. Para Isabela Cunhã, 22 anos, nascida e criada na Rocinha, ela está muito desacreditada na política. Para ela, não existe um candidato “perfeito” e muita coisa precisa melhorar: “Até agora não encontrei nenhum candidato e não vou votar. Porque eu penso muito no desemprego, saúde e educação. Os hospitais estão terríveis, as escolas cada vez piores com greves, falta de lanches, tem criança que só vai para escola para pelo menos fazer uma refeição, porque passa fome em casa. Além do que, os professores merecem ter os melhores salários. São eles quem nos direcionam na vida através da educação e dos estudos. Muitos políticos falam que vão melhorar o país, ajudar a população, gerar empregos, mas quando são eleitos esquecem do que prometeram”.

Ao longo das eleições, a população vem acompanhando uma onda de opiniões fortes e decisivas vindo tanto da direita quanto da esquerda, sendo defendidas pelos candidatos mais citados nas intenções de voto, ocasionando a polarização das eleições.

A professora Carolina Lopes, de 25 anos, declarou seu voto no candidato Jair Bolsonaro, do PSL. Para Carol, chegou a hora de arriscar em quem pode acabar com a corrupção e mudar o quadro do país. “O meu candidato a princípio é o #EleNão. Eu não concordo com 100% do que ele diz, mas refleti, e entendi que o governo anterior não merece ter o poder novamente, porque abusaram de um povo tão bom e humilde e fizeram do nosso país uma máquina de dinheiro sujo. Eu não gostaria de ver esse tipo de pessoas decidindo o que vai ser do meu futuro. Estamos enfrentando a maior crise econômica, desemprego absurdo e pouca expectativa das coisas melhorarem. Minha mãe está atualmente se tratando no INCA, que está caindo aos pedaços, e poderia ser algo muito melhor. O INCA poderia dar maior qualidade de vida aos pacientes, só que infelizmente, isso não acontece. Eu não quero perder a oportunidade de votar em alguém que pela primeira vez, faça a oposição. E me vem uma vontade de confirmar se isso é possível, se ele é mesmo essa pessoa pronta para ajudar o país”, disse.

Questionada sobre as diversas acusações de machismo, racismo e recentemente corrupção, que envolvem Bolsonaro, a jovem alegou que pesquisou sobre os assuntos. “Fui olhar as acusações feitas sobre ele, muitas sem sentido, pois chequei as fontes. Não acho que o Bolsonaro é uma ‘flor de laranjeira’, que é alguém amável ou alguma coisa parecida com isso. Eu acho que ele é um ser humano, e que tem defeitos e mazelas como qualquer um. Não o vejo dessa forma, odiosa como descrevem. E o que mais chama atenção, é ser alguém sem hipocrisia, ele não fica alisando nenhum partido, nenhuma emissora, não faz nenhuma questão de protocolos, porque ele quebra todos”, ressaltou.

Porém grande parte defende que o extremismo não é a solução para os problemas. “O que acontece no Brasil hoje, é culpa nossa também, porque deixamos de reivindicar nossos direitos. E aí acontecem esses problemas de representatividade, o que ocasiona no crescimento dos extremistas”, foi o que afirmou Antônio Firmino, 52 anos, cria da Rocinha, professor de geografia e agente de cultura, que tem como candidato Fernando Haddad, do PT.

Firmino também comentou sobre o momento atual da Rocinha e do Brasil. “A realidade da Rocinha, é o reflexo do que vivemos no Brasil, o que é complexo porque uma parcela, pelo que tem sido visto, vai votar num candidato de extrema direita. Isso significa a falta de perspectivas, e que essa galera não acredita no processo democrático, justamente por seguir as ideias de um candidato que afirma que irá resolver todos os problemas de forma radical, o que é um grande problema. Os outros problemas são aqueles, infelizmente de costume, como a segurança, que pensam como solução mais polícia e mais armamento. Mas o caminho não é esse. A solução está em mais educação, saúde de qualidade, acesso à cultura, transporte público, saneamento básico, essas coisas que há mais de 100 anos vem se buscando ter e não acontece. Nem para o conjunto da sociedade, em especial, para os moradores de favela”, disse.

Para o professor é necessária a discussão sobre política, a troca de ideias e reivindicação dos direitos, porque isso também e exercer a democracia. “Hoje ou é extrema direita ou é esquerda e de uma forma muito preocupante, porque os nossos direitos básicos estão se esvaindo. E aí não tem diálogo, não tem respeito. E quando começam essas coisas numa realidade como a nossa, infelizmente a tendência é caminhar para barbárie. Precisamos melhorar em muita coisa, votar e cobrar, trocar ideias, propor ações. Isso é exercer a nossa cidadania. Isso é política e não necessariamente precisa ser partidária. Espero que pós eleições, nós possamos continuar cobrando nossos direitos, e que o governo sendo ele de esquerda ou direita, nos atenda. Apesar de ter minhas críticas à esquerda, meus candidatos são dela. E o Haddad é o que mais se aproxima de direitos básicos, direitos sociais, conquistas e lutas pelo trabalho e nós não podemos perder isso”, completou.

Diante dessas falas de esperança dos eleitores, mesmo com algumas ainda desconfiadas sobre a possibilidade da real mudança ou não, o que se pode esperar é que a população vote com consciência. E que os representantes olhem para o país no todo, e em especial, para as periferias, que sofrem há tanto tempo com a ausência dos investimentos necessários para garantir a oportunidade e dignidade de seus moradores.

Amanda Pinheiro é mulher negra, cria da Rocinha, estudante de Jornalismo, colaboradora do FavelaDaRocinha.com e apaixonada por música, arte, esporte e cultura.