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Cartas do Rio: Porque Carlos Não Pode Dormir

Carlos Tuscano preocupa-se com a possibilidade de que o Centro Cultural Indígena de 100 anos seja demolido para dar lugar ao estacionamento do estádio do Maracanã.

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Veja a matéria original em inglês aqui. Matéria de Dave Zirin, editor de Esportes do The Nation, autor do livro “A People’s History of Sports in the United States” e apresentador do programa de rádio “Edge of Sports”, Dave foi chamado de “o melhor escritor de esportes dos Estados Unidos” por Robert Lipsyte.

Carlos Tuscano tem cerca de 50 anos, acrescente ou tire alguns anos. Ele é um indígena brasileiro nascido no estado do Amazonas que trabalhou por 30 anos para construir uma organização coletiva para dezenas de grupos indígenas brasileiros. Agora ele mora no Rio e não consegue dormir.

Não dá para dormir quando um projeto-relâmpago de 1 bilhão de reais está para acontecer, com 24 horas ao dia de barulho ensurdecedor: de britadeiras, escavadeiras e apitos que marcam os turnos dos operários em sua maioria de azul.

É o preço de viver próximo, talvez ao mais famoso estádio de esportes do mundo, o Maracanã, agora sob uma grande renovação em preparação para a copa de 2014 e as olimpíadas de 2016.

Esta não é a única razão pela qual Carlos não consegue dormir. Ele vive com outras 11 famílias nas ruínas do Centro Cultural Indígena, e todos os moradores temem ser varridos junto aos entulhos da construção.

As famílias vivem em trailers ao lado do museu, em protesto contra a sua dilapidação, desrespeito e descaso. Fundado em 1910, o Centro Cultural Indígena é uma belíssima estrutura de três andares, com 20 metros de pé direito e um mundo de história. Enquanto o museu formal, foi fechado, agora existem várias exposições temporárias e mostras culturais postas em prática pelos ocupantes atuais, mas no interior o mau estado é terrível. Os pisos são cobertos de entulho. As escadas de ferro forjado ainda tem a sua forma esquelética, mas os degraus de mármore e os corrimãos foram arrancados. Subir nessas escadas é como subir 20 metros em uma escada diagonal, é um longo caminho.

Mas o lugar tem uma história que remonta décadas. Ele foi um dos primeiros museus de cultura indígena no hemisfério ocidental, construída há apenas duas décadas depois que o país aboliu formalmente a escravidão indígena. “Nós falamos para o governo e eles simplesmente nos colocou para fora”, diz Carlos. “Mas não vamos deixar, porque queremos um lugar para mostrar o poder, a história e o orgulho do povo indígena”.

Toda a estrutura poderia ser reconstruída por 20 milhões de reais, uma ninharia em comparação com a reconstrução do Maracanã. E ainda considerando que há cinco anos, o governo gastou 400 milhões de reais para reformar e fazer mudanças no estádio que agora estão sendo completamente demolidas na reforma atual.

Com apenas uma fração desses fundos, o Centro Cultural Indígena poderia tornar-se um símbolo da história rica e diversificada do Brasil. Poderia até ser uma atração para quem vem ao Rio para a Copa do Mundo e Olimpíadas, uma propaganda de bem-estar em benefício do Estado Brasileiro. Em vez disso, o Centro está programado para se tornar um estacionamento.

É por isso que um dos ocupantes, Arrasari, disse: “Eu não estou me movendo. Vou ficar até não ser mais do que uma estátua de sal. Eles acham que nós vamos, porque eles nos puseram abaixo como árvores. Mas a raiz permanece.”

A mesma lógica que impulsiona a demolição do Centro Cultural Indígena para a construção de um estacionamento espelha a reforma do Maracanã em si. O “Circus Maximus” das multidões de amantes do futebol no Brasil, com uma capacidade, que poderia aumentar para 200 mil, está sendo reduzida, higienizada e totalmente transformada. O novo Maracanã terá capacidade para apenas 70.000 pessoas, rodeada por camarotes de luxo, e destina-se ser vendido aos interesses de empresas privadas depois dos Jogos de 2016.

Como Chris Gaffney, professor de arquitetura e urbanismo no Rio, que escreve e é um ativista sobre os efeitos do mega-evento, disse: “É a morte de um espaço popular, a fim de vender a cultura do Brasil para uma audiência internacional.”

A reconstrução do Maracanã é um trabalho de 24 horas: três turnos de oito horas, um fluxo constante de trabalhadores que reconstroem um estádio onde não serão capazes de pagar para entrar.

Enquanto isso, Carlos não consegue dormir. Fora de seu quarto um outdoor mostra para os transeuntes um Maracanã novo coberto por uma bandeira do Brasil com o slogan “Brasil:. Um país de todos”. De uma distância, podemos chamar isso de ironia. Para Carlos, é uma obscenidade.

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