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‘Ressaca Eleitoral’: Evento Reúne Negros e Negras para um Balanço das Eleições

No último sábado, dia 23, o Odarah Cultura e Missão organizou um debate com vozes que gritaram—e muito—durante o caótico período eleitoral de 2018. No Centro do Teatro do Oprimido (CTO), na Lapa, o debate reuniu Renata Souza, deputada estadual eleita no Rio de Janeiro pelo PSOL; Thais Ferreira, primeira suplente a deputada estadual pelo PSOL; Jota Marques, educador popular na Cidade de DeusZona Oeste, e contou com uma potente intervenção político-poética de Gleyser Ferreira, uma verdadeira “força da natureza”, nas palavras de Fabíola Oliveira, fundadora do Odarah que mediou a conversa.

O Debate

O debate deu nós nas gargantas e cumpriu com a proposta de fazer um balanço eleitoral. Mas foi além. Abdicando do “politiquês”, a conversa rumou para caminhos subjetivos com reflexões sobre vida e morte, mas, de forma não surpreendente para um debate entre negros brasileiros, o papo foi mais sobre morte do que vida.

“Nós estamos morrendo, seja por tiro de fuzil atravessando nossa cabeça ou seja com nossas agências sendo apagadas pela violência do racismo. Que bom que estamos aqui juntos a partir de um olhar horizontal. É benção, é presente termos uns aos outros aqui, em comum unidade”, começou Fabíola Oliveira.

Renata Souza, do Complexo da Maré , foi eleita deputada com mais de 63.000 votos, a mais votada do PSOL, e fez uma reflexão sobre o que viu e ouviu no período eleitoral a respeito das candidaturas de mulheres negras: “O pragmatismo político que é racista e machista diz que nós mulheres pretas vamos sempre disputar voto entre nós. Ele diz que nós somos iguais porque somos mulheres pretas e pobres. A gente teve a ousadia de desconstruir isso na prática. A gente acabou tirando votos de homem brancos”.

O partido de Renata Souza elegeu cinco deputados estaduais. Três foram mulheres negras periféricas—além de Renata, Mônica Francisco e Dani Monteiro—somando só elas mais de 130.000 votos. Talvez esse seja um dos balanços mais positivos das eleições de 2018: ao contrário do que muitos racistas pensavam, há espaço sim para várias mulheres negras ocuparem a política ao mesmo tempo.

“O pragmatismo político que é racista e machista diz que nós mulheres pretas vamos sempre disputar voto entre nós. Ele diz que nós somos iguais porque somos mulheres pretas e pobres. A gente teve a ousadia de desconstruir isso na prática.” – Renata Souza

Isso contraria uma impressão de que o racismo estrutural pode acabar, de que a sociedade concede espaço a conta-gotas a figuras negras. É sempre “a” escritora negra, “a” jornalista negra, “a” atriz negra—”a” primeira, “uma” das únicas. Antes de Marielle Franco, tinha sido a Jurema Batista. Antes dela, Benedita da Silva. Nunca todas de uma vez. Essa eleição foi especial para o Rio de Janeiro. Desta vez, só no campo da esquerda, três mulheres negras foram eleitas ao mesmo tempo.

Se há motivo para comemorar, já a eleição de Jair Bolsonaro para presidente, de Wilson Witzel para governador e a eleição de 13 deputados do PSL na Alerj são motivos de preocupação para a população mais vulnerável. As deputadas negras eleitas engoliram o medo e a dor que tomaram um mar de gente e se colocaram à disposição.

Se a narrativa de hoje é de que Marielle é semente, Fabíola alerta para um perigo: “A gente não pode cair na armadilha da branquitude de fazer a gente acreditar que foi a morte da Marielle que produziu essas mulheres. Na verdade foi a luta dos movimentos negros em espaços periféricos que produziram Marielle, Renata Souza, Thais Ferreira, Dani Monteiro. Esse movimento é resultado dos nossos mais velhos. Marielle não surgiu em 2016, estava na luta fazia tempo”.

Entre as candidaturas negras, o resultado de Thais Ferreira talvez tenha sido o mais surpreendente. Sem qualquer apoio financeiro ou estrutural do partido, ela conquistou 24.759 votos—mais que figuras conhecidas do partido, como o deputado federal reeleito Jean Wyllys que obteve 24.294 votos. Sempre acompanhada de seus filhos João, de 2 anos, e Athos, de 5, Thais expressou sua preocupação em colocar seu nome em evidência na política fluminense.

“Eu estava muito preocupada neste período, por causa dos meus meninos mesmo. É ate difícil falar, a gente fica muito mexido, né? A gente se coloca em risco e o que a gente mais espera é poder ver nossos filhos crescerem, que a gente possa deixar algum legado significativo pra que eles possam ser a nossa continuidade. Se eu sou candidata, se eu sou a primeira suplente, meu filho vai ser presidente. Mas que não seja presidente amargo. Política pra gente tem que ser cura. Não é pra ser festiva, a gente não vai fazer ciranda, a gente vai fazer quilombo, tem que ser cura”, disse Thais. Enquanto em seu discurso falava de morte e perigos, seus pequenos esbanjavam vida correndo de um lado pro outro. Chegaram, por várias vezes, a abafar palavras pesadas.

“Política pra gente tem que ser cura.” – Thais Ferreira

Jota Marques, educador social na Cidade de Deus, não fugiu da responsabilidade de ser o único homem debatendo entre mulheres. Jota, que acredita na educação como movimento de transformação, alerta para a necessidade de se trabalhar na micropolítica, nos espaços escolares e na favela. Ele ainda rejeita o projeto Escola sem Partido: “Quando eu entro dentro de uma escola, o bagulho pra mim é muito louco. A molecada tá lá, cada um no seu bonde, numa violência aos mais frágeis, portanto também às mulheres. Aí vem uma escola sem partido, fragmentada, não é pra ser em comum unidade, para que elas não possam se reconhecer no outro. Traz um processo de formação ainda menos estruturado. Esse garoto que está em formação volta a entender que a violência que sofre e pratica está ok. O cenário é de caos analisando o processo eleitoral para a comunidade preta”.

O Odarah Cultura e Missão

Fabíola Oliveira conta que, inicialmente, o Odarah nasceu para que os empreendedores negros pudessem vender suas peças e trocar experiências entre si, mas um certo episódio mudou o formato. Hoje, para além de uma reunião entre empreendedores—que estavam presentes com seus brincos, capulanas, bolos e livros—o debate sobre emergências é algo central.

O Odarah Cultura e Missão também tem uma casa na Taquara, na Zona Oeste. É a casa onde Fabíola mora com seu companheiro. A iniciativa é caracterizada como um programa de ação direta na vida de juventudes em situação de vulnerabilidades, em favelas, nas instituições socioeducativas para jovens em privação de liberdade e abrigos no Rio de Janeiro. A casa Odarah é um quilombo. “Se constitui como um quilombo, porque quilombos eram espaços em que nossos irmãos escravizados que fugiam das casas dos senhores de engenho tinham suas feridas saradas, eram alimentados, muitos saiam dali pra fundar outros espaços de resistência. Essa é a ideia de micropolítica, da multiplicação e de produção de conhecimento”, explica Fabíola.

Perguntada sobre as expectativas do futuro para a comunidade negra, Fabíola ainda responde: “Eu espero o pior. Não respondo isso porque sou uma mulher pessimista, não estou torcendo para que eu esteja certa. A minha expectativa é a pior de fato. O recrudescimento das políticas e o acirramento das tensões dos grupos minoritários é uma tendência mundial e a gente sabe que o Brasil não está isolado nesta caminhada. O Brasil tem um dos tipos de racismo que é um dos piores do mundo, que é o velado. Eu espero que, se ficar pior, a gente não tenha pra onde correr e precise ter que estar em comunidade”.

Rithyele Dantas, cria do Morro da Cruz no Andaraí, é estudante de jornalismo. Rithyele é fotojornalista, e já atuou como educadora popular, assessora parlamentar no Rio e é fundadora do blog Jornalistas Pretas, um trabalho que acredita ser importante para a garantia dos direitos humanos.