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Última Visita de 2018 da Rede Favela Sustentável: O Ecomuseu de Sepetiba [VÍDEO]

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Rede Favela Sustentável (RFS) é um projeto da Comunidades Catalisadoras (ComCat)* desenhado para construir redes de solidariedade, dar visibilidade, e desenvolver ações conjuntas que apoiem a expansão de iniciativas comunitárias que fortalecem a sustentabilidade ambiental e a resiliência social em favelas de toda a região metropolitana do Rio de Janeiro. O projeto começou em 2012 com a produção do filme Favela como Modelo Sustentável, tendo continuidade em 2017, quando foram mapeadas 111 iniciativas sustentáveis e foi publicado um relatório final que analisa os resultados. 

Em 2018 o projeto realizou uma série de intercâmbios entre oito das mais duradouras e estabelecidas iniciativas que foram mapeadas na Rede Favela Sustentável (uma delas é o tema desta matéria), e em seguida foi realizado, no dia 10 de novembro, um dia inteiro de intercâmbio com toda a Rede Favela Sustentável. As oito iniciativas participantes dos intercâmbios, em campo, apresentadas nesta série incluem seis iniciativas comunitárias, sendo elas: a Cooperativa Vale Encantado no Alto da Boa Vista, o Ecco Vida em Honório Gurgel, o Verdejar no Engenho da Rainha e Complexo do Alemão, o Quilombo do Camorim em Jacarepaguá, o ReciclAção no Morro dos Prazeres, e a Eco Rede do Alfazendo na Cidade de Deus. Além disso, os integrantes dos intercâmbios visitaram duas iniciativas com foco além das favelas, com vasta experiência em sustentabilidade, sendo elas: a Onda Verde em Nova Iguaçu e o Ecomuseu de Sepetiba. Os intercâmbios têm apoio da Fundação Heinrich Böll Brasil

Assista ao vídeo que acompanha os intercâmbios apresentados nesta série clicando aqui.


 O Quinto e Último Intercâmbio: Ecomuseu de Sepetiba

No primeiro domingo de cada mês, um grupo de educadores e ativistas locais oferece uma olhada na história, cultura e riqueza ambiental do bairro de Sepetiba, localizado na extrema Zona Oeste do Rio de Janeiro. Durante os últimos dez anos, o Ecomuseu de Sepetiba tem desenvolvido uma forma única de museologia social que trabalha para representar de forma positiva um dos bairros mais socioespacialmente segredados do Rio. Nas palavras de Bianca Wild, fundadora do ecomuseu: “As pessoas apenas preservam o que elas amam, e apenas amam o que elas conhecem. Então se você não sabe o que há na sua comunidade, você não irá valorizá-la”. Era mais do que apropriado, então, que o último dos extensos intercâmbios de 2018 da Rede Favela Sustentável acontecesse em Sepetiba, embarcando em um dos “Passeios de Reconhecimento” do Ecomuseu.

“Sepetiba teve um papel formativo na história do Brasil. Sepetiba estava presente no Brasil Colônia, no Brasil Império e no Brasil República”, disse Bianca ao grupo da RFS antes de iniciar o passeio. Ela explicou que reconhecer a significância histórica do bairro pode melhorar a percepção dos moradores sobre o mesmo, ajudando a remover o estigma de viver longe do centro do Rio num bairro que carece de serviços públicos consistentes. Além da história de Sepetiba, o ecomuseu trabalha para aumentar a conscientização do rico meio ambiente natural. “Apesar de degradada, a Baía de Sepetiba é nossa herança natural. No passado, foi chamada a ‘Baía dos Milagres’”, explicou Bianca, contando como as pessoas vinham de todas as partes, procurando tratar diferentes doenças com a lama rica em minerais da baía. O relato de Bianca repercutiu entre os membros da RFS incluindo Otávio Barros, do Vale Encantado, que contou histórias de sua mãe e sua irmã, que visitavam Sepetiba por essa mesma razão.

O ‘Passeio de Reconhecimento’ do Ecomuseu de Sepetiba

Enquanto o Ecomuseu de Sepetiba desenvolveu seus passeios mensais para incentivar os moradores a redescobrirem sua vizinhança, os passeios atraíram a atenção de visitantes de toda a cidade. Em média, 70 a 80 pessoas participam das excursões mensais, atingindo até 160 participantes em alguns eventos. Bianca disse ao grupo da RFS que, na última década, ela tem visto o impacto positivo do trabalho do Ecomuseu de Sepetiba, mas que ainda há muito trabalho a ser feito. O grupo espera criar mais trilhas nos próximos anos, atrair mais moradores para participar de seus passeios e tornar as caminhadas acessíveis para pessoas com deficiências. Nas palavras de Bianca, garantir que as trilhas do Ecomuseu sejam universalmente acessíveis é “fundamental para elevar a autoestima dos moradores locais”.

O acesso desigual de Sepetiba aos serviços públicos devido à sua localização provocou uma resposta do ponto de vista do intercâmbio anterior, ao grupo comunitário Alfazendo na Cidade de Deus, também localizado na Zona Oeste. Carlos Alberto Oliveira, representante do Alfazendo, lamentou o modelo de desenvolvimento do Rio que, há mais de cinquenta anos, tem contado com a remoção de cidadãos de baixa renda do centro da cidade e a transferência deles à comunidades periféricas sem infraestrutura física, educação e outros serviços públicos—uma história que ele vê se repetir em Sepetiba, na Cidade de Deus e por toda a cidade. “O que aprendemos com a nossa história é que também temos que estar alertas, porque isso vai continuar acontecendo… Não é surpreendente porque, afinal, somos negros e pobres. [Mas] vamos ocupar [esses] espaços”, disse Carlos Alberto.

Seguindo o caminho através de alguns dos mais importantes patrimônios naturais de Sepetiba, o grupo fez uma pausa para discutir o crescimento dos mangues na Baía de Sepetiba. Bianca, juntamente com outra representante do Ecomuseu de Sepetiba, Aline Barcellos, observou o papel ecológico que os manguezais desempenham no ecossistema local, ajudando a recuperar a população de caranguejos da área e funcionando como uma barreira ecológica aos resíduos descartados na baía.

Nas palavras de Aline: “Os manguezais são na verdade um ‘feedback’ que a natureza dá em resposta… tentando remediar a poluição”. Os membros da RFS contribuíram com seus conhecimentos sobre os manguezais, com o representante da Onda Verde Diogo Luiz explicando que “a lama nos mangues não é poluição”. Apesar da oposição local entre alguns moradores que consideram a lama esteticamente pouco atrativa, ela é importante para ajudar o mangue a crescer. O engenheiro ambiental Leonardo Adler, que ajudou a construir o biodigestor de esgoto da comunidade do Vale Encantado, acrescentou, explicando como os manguezais servem como filtros de água naturais semelhantes ao sistema do Vale Encantado: “Em português, chamamos a tecnologia de pós-tratamento para efluentes do biodigestor como ‘zona de raízes’, mas em inglês é chamada de constructed wetlands, ou ‘pântano construído’. E essas zonas são áreas inundadas, como manguezais… Elas têm plantas que filtram nitrogênio, fósforo e potássio para que a água liberada já seja tratada”. Bianca e outros membros do Ecomuseu de Sepetiba ficaram entusiasmados em saber mais sobre a importância ecológica dos manguezais.

A Distribuição Desigual dos Riscos Ambientais

Após almoço de peixe fresco local na Baía de Sepetiba, o grupo da Rede Favela Sustentável reuniu-se para ouvir Rafael Chaves, doutorando do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apresentar sua pesquisa sobre a distribuição desigual de risco ambiental no Brasil. Chaves começou agradecendo aos participantes da Rede pelo conhecimento que haviam compartilhado ao longo dos intercâmbios e oferecendo sua perspectiva técnica como um outro conjunto de ferramentas para os participantes usarem para pensar sobre seu trabalho individual. Ele então resumiu seu trabalho em torno do risco e da desigualdade, explicando que o risco ambiental é distribuído de forma desigual, dependendo das classes sociais que habitam certos espaços. Diferenciando a sociedade brasileira entre uma “elite” e uma “classe trabalhadora”, Chaves examinou as maneiras pelas quais o acesso desigual a serviços públicos, capital e terrenos resulta nas classes mais baixas sendo forçadas a viver em áreas de grande risco ambiental. Ao mesmo tempo, ele disse que o governo e a elite também costumam usar o discurso em torno dos riscos ambientais para justificar a remoção das comunidades que supostamente apresentam uma ameaça de degradação ambiental.

Chaves concluiu sua apresentação ligando especificamente essas áreas de risco à criação de favelas, dizendo: “Essas terras, que apresentam maiores riscos para a ocupação humana devido às suas características naturais, acabam sendo ocupadas exatamente por aquelas pessoas sem acesso–por causa de uma série de fatores históricos—a terras mais seguras”. Essas pessoas, explicou, são responsáveis por mitigar os riscos de habitar essas áreas: “Eles são os que sujam as mãos para reduzir a vulnerabilidade [tanto ocupacional quanto ambiental] desses espaços”. Por essa razão, Chaves identificou as favelas como uma solução habitacional—em grande parte negligenciada pelo governo e pela elite porém criada por conta própria pelos seus moradores.

Compartilhando Sonhos, Fortalecendo a Rede

Para concluir a visita a Sepetiba, cada um dos participantes do dia discutiu os sonhos que eles esperam realizar nos seus projetos no próximo ano. Bianca começou a conversa com a esperança do Ecomuseu de Sepetiba para alcançar mais moradores. Cris dos Prazeres, do ReciclAção, disse que tem um objetivo semelhante em mente e espera fortalecer a consciência coletiva em sua comunidade, o Morro dos Prazeres, para garantir que as futuras gerações valorizem a iniciativa e continuem com o seu trabalho. Iara Oliveira da Eco Rede do Alfazendo contribuiu com uma perspectiva diferente, dizendo que seu “maior sonho é que nosso [trabalho] não seja mais necessário”. Idealmente, o governo abordaria as desigualdades e injustiças enfrentadas por comunidades como a Cidade de Deus por meio de políticas públicas eficazes, que livrariam as organizações da sociedade civil, como Alfazendo, das responsabilidades que deveriam ser desempenhadas por autoridades públicas competentes. Reconhecendo que seu sonho pode não se tornar realidade em um futuro próximo, Oliveira disse que está focada em estimular o engajamento de jovens na Cidade de Deus e em fortalecer redes com instituições afins em toda a cidade. Refletindo sobre as semelhanças na metodologia entre o Ecomuseu de Sepetiba e a Eco Rede do Alfazendo, os representantes dos grupos pensaram na possibilidade de sediar intercâmbios entre suas comunidades.

Otávio Barros, do Vale Encantado, compartilhou um conjunto específico de metas para o próximo ano, incluindo a esperança de conectar o sistema de saneamento ecológico da comunidade às residências ainda não conectadas, concluir a construção de uma cozinha cooperativa capaz de produzir alimentos para moradores e visitantes e aumentar a conscientização ambiental dos moradores do Vale Encantado. Enquanto isso, Helio Vanderlei, da Onda Verde, refletiu sobre a dificuldade de sonhar, uma vez que as iniciativas devem se concentrar no planejamento de tudo, desde compromissos de voluntariado e parcerias institucionais até finanças e operações. Com essas considerações em mente, Helio sugeriu que os membros da Rede criassem uma planilha coletiva onde cada projeto pudesse listar seus objetivos e descrever como os outros membros da rede poderiam ajudá-los a atingir seus objetivos—uma ideia que contou com ampla concordância. O grupo logo começou a debater o que cada iniciativa esperava que a Rede Favela Sustentável ​​pudesse contribuir para o seu trabalho em 2019 e como eles poderiam contribuir para a Rede em troca. Depois de cinco dias completos de intercâmbio, a conclusão do último encontro mostrou o crescente potencial da Rede e a força e resiliência que seus membros já haviam construído.

Leia sobre todos os intercâmbios da Rede Favela Sustentável aqui.

Veja o vídeo de todos os intercâmbios:

*RioOnWatch é um projeto da Comunidades Catalisadoras

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