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Ativismo Olímpico: Fatores e Vias

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Leia a matéria original por Jules Boykoff em inglês no Play the Game aqui. O RioOnWatch traduz matérias do inglês para que brasileiros possam ter acesso e acompanhar temas ou análises cobertos fora do país que nem sempre são cobertos no Brasil.

Essa matéria faz parte de uma série de ensaios que discutem a sociedade civil, protestos e os megaeventos esportivos. Veja a matéria que introduz a série aqui, e para ver a série completa, em inglês, clique aqui.

Embora ativistas anti-Olímpicos enfrentem uma árdua luta contra a intransigência Olímpica, Jules Boykoff aponta áreas que podem ajudar a converter os muitos momentos de ativismo anti-Jogos em um movimento potente. Esta é a sexta matéria da série, em inglês, sobre protestos e os Jogos.

Conforme planejavam a cerimônia de abertura para os Jogos Olímpicos de 1984, organizadores Olímpicos em Los Angeles visavam alcançar algo memorável. O comitê organizador providenciou que o Presidente Ronald Reagan fizesse a abertura formal dos Jogos à frente de uma casa lotada com mais de 93.000 pessoas, proclamando a seguinte frase de seu camarote de luxo: “Celebrando a vigésima terceira Olimpíada da era moderna, eu declaro aberto os Jogos de Los Angeles”. Para adicionar uma pitada de ousadia os organizadores contrataram os serviços de uma águia careca—a ave mais simbólico dos EUA e uma espécie em extinção, na época—chamada “Bomber”. O plano era treinar Bomber para voar majestosamente sobre o Los Angeles Memorial Coliseum durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 1984.

A princípio, o US Fish and Wildlife Service (Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA) não estava muito interessado em emprestar Bomber e os funcionários do Patuxent Wildlife Research Center (Centro Patuxent de Pesquisa de Vida Selvagem), em Laurel, Maryland, negaram o pedido. De acordo com Dr. James Carpenter, chefe de difusão do Centro, foi neste momento que organizadores dos Jogos aumentaram a pressão com a afirmação, de uma das autoridades do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, de que a requisição da águia “tinha o apoio da Casa Branca”. O Departamento de Interior cedeu à pressão e enviou Bomber, que cruzou o país até LA onde, cinco semanas depois, ela morreria de sépsis. Uma autópsia revelou que Bomber tinha sucumbido a uma infecção bacteriana grave e a um colapso circulatório. O The New York Times noticiou que a águia tinha sofrido “uma doença pulmonar provocada pela poluição conhecida como pneumoconiose”. Los Angeles é conhecida por sua poluição.

O tabloide de celebridades norte-americano, People Magazine, declarou que Bomber foi, talvez, “o perdedor mais trágico dos Jogos Olímpicos de 1984”, graças à morte repentina e precoce da ave. Décadas depois, ativistas da NOlympics LA estão trabalhando para deixar claro que não foi apenas a águia careca, Bomber, que sofreu graças às Olimpíadas. Pessoas comuns de Los Angeles—especialmente aquelas das comunidades marginalizadas—pagaram um alto preço, também, já que Los Angeles usou a ocasião dos Jogos Olímpicos para militarizar sua força policial e executar o que o Chefe de Polícia Daryl Gates chamou de “Olympic Gang Sweeps” (varredura Olímpica de gangues). O incidente todo envolvendo Bomber e as Olimpíadas de 1984 em Los Angeles indicam uma lição. Primeiro, a busca por pompa e grandiosidade vem acompanhada de externalidades pequenas e grandes. Segundo, como essa série de matérias no Play the Game tem mostrado de forma ampla, ativistas alavancaram as falhas e falácias das Olimpíadas para chamar a atenção para sérias questões sobre os verdadeiros custos sociais e econômicos de se sediar um megaevento.

Questões Arraigadas: Greenwashing, gastos, militarização e remoção

Estranhamente, Bomber não foi a única vítima aviária dos Jogos Olímpicos. Quatro anos mais tarde, quando Seoul hospedou os Jogos Olímpicos de 1988 na Coreia do Sul, os organizadores soltaram uma revoada de pombas durante a cerimônia de abertura e dúzias delas voaram sobre a tocha Olímpica e foram carbonizadas vivas—e ao vivo na TV internacional. Apesar de, nos anos de 1990, o Comitê Olímpico Internacional (COI) ter feito da sustentabilidade ambiental um de seus pilares chave, ativistas têm pontuado repetidamente que um abismo emergiu, separando as palavras proferidas por detrás do pódio do COI e as políticas de sustentabilidade concretamente aplicadas na realidade. O chamado greenwashing (banho de marketing verde) se tornou uma das críticas centrais que tais ativistas arremessam contra as Olimpíadas.

Em Vancouver, com os povos indígenas do Canadá liderando a resistência, grupos contrários aos Jogos criticaram os organizadores por construírem uma rodovia do mar para o céu, conectando Vancouver com instalações de esqui em Whistler, pois o projeto ameaçava pantanais ecologicamente sensíveis em Eagleridge Bluffs, que abriga espécies raras como o sapo de pernas vermelhas. Ativistas em Londres acusaram os organizadores Olímpicos de desenvolverem uma nova categoria de patrocinadores—“parceiros de sustentabilidade”—que incluía pesadelos da ecologia, como British Petroleum e EDF Energy. No Rio, os Jogos deveriam inspirar a limpeza da notoriamente poluída Baía de Guanabara—e nada disso aconteceu, um ponto levantado frequentemente pelo grupo de ativistas do Comitê Popular da Copa do Mundo e das Olimpíadas. A cada dia, cerca de 640 milhões de litros de esgoto não tratado são jogados na Baía de Guanabara. Para fazer uma pista de esqui nas Olimpíadas de Pyeongchang, os organizadores derrubaram uma floresta de 500 anos, um ponto levantado cedo e frequentemente por Julian Cheyne e Rebecca Kim no grupo Games Monitor, com base em Londres.

Gastos astronômicos são outra reclamação central levantada por grupos anti-Olímpicos em diversas cidades-sede. Os Jogos Olímpicos se tornaram conhecidos por “Economia de traço-mágico”, através da qual, durante o processo de licitação, os promotores das Olimpíadas derrubam os custos para depois aumentá-los quando os Jogos estiverem sendo preparados.

Os Jogos de Inverno de Sochi, em 2014, na Rússia, fornecem o exemplo mais notório. Originalmente orçados em US$12 bilhões, os custos saltaram para US$51 bilhões, mais do que todas as Olimpíadas de Inverno anteriores combinadas. Os Jogos de Londres em 2012 foram estimados em um total de US$3,8 bilhões, mas terminaram custando pelo menos US$18 bilhões. Não é de admirar que grupos de ativistas em Los Angeles e Calgary sejam céticos quanto aos preços apresentados publicamente em suas respectivas cidades. E é importante lembrar que os custos não acabam com o fim dos Jogos. Cidades-sede frequentemente ficam com estádios que representam elefantes brancos e que demandam caras manutenções. Pyeongchang está atualmente considerando destruir quatro locais construídos para os Jogos de Inverno de 2018 em vez de pagar os altos custos de manutenção. Isso depois de construir um estádio que custou mais de US$100 milhões, usá-lo por quatro vezes, e então desmontá-lo.

Como nós vimos acima, com os Jogos de 1984, a militarização da esfera pública foi outra preocupação séria. Nos Jogos de Londres de 2012, mísseis superfície-ar foram colocados no topo de edifícios da cidade, incluindo um complexo de apartamentos. Quando a empresa de segurança privada G4S falhou em treinar os guardas de segurança necessários, o Ministério da Defesa interveio com tropas que tinham acabado de voltar do Afeganistão, dando aos Jogos um toque militar. No Rio, uma força de segurança de 85.000 homens policiou a cidade durante os Jogos de 2016. Ativistas sabem que o terrorismo é uma possibilidade em espetáculos globais maciços como esses, mas as mesmas armas usadas para intimidar atos terroristas podem se virar contra manifestantes cumpridores da lei expressando suas dissidências.

Finalmente, ativistas contra os Jogos têm chamado atenção para a remoção de pessoas para dar lugar a infraestruturas dos Jogos. Algumas vezes isso significa forçar a desocupação, como ocorreu em Pequim quando 1,5 milhões foram desalojados para dar espaço para os Jogos Olímpicos de 2008. Em outros casos, especialmente no norte global, a gentrificação é mais comum, com moradores de longa data pagando mais caro à medida que as obras Olímpicas fazem os preços do aluguel subirem, como ocorreu no período anterior às Olimpíadas de Londres de 2012. Essa é uma das preocupações centrais dos ativistas do NOlympics LA, que lutam contra os Jogos Olímpicos de 2028.

Via do Ativismo

Uma via ainda não alcançada pelas organizações anti-Olímpicas é a construção de um centro transnacional que centralize recursos úteis para ativistas, o que ajudaria a converter os muitos e variados momentos do ativismo anti-Olímpico em um movimento único a todo o vapor. Ativistas desafiando externalidades negativas das Olimpíadas se parecem mais com o que o acadêmico Sidney Tarrow chama de “coalizão de evento” do que com um movimento social que desliza de forma consistente e fluída pelo espaço e tempo. Há esforços admiráveis para fazer ligações transnacionais que não devem ser subestimadas: ativistas do Rio de Janeiro, como Cerianne Robertson, Theresa Williamson, e Meg Healy, viajaram por toda parte transferindo conhecimento enquanto se conectavam com grupos de ativistas relacionados às Olimpíadas. Da mesma forma, estão fazendo os ativistas da campanha No Boston Olympics, que destruíram com sucesso a proposta da cidade para sediar as Olimpíadas de Verão 2024. A rede Counter Olympics Network (Rede Contra-Olímpica) com base em Londres, tem também unido ativistas de todo o mundo.

Uma segunda via envolve chegar estrategicamente até os atletas Olímpicos e outras celebridades para conseguir apoio para a causa. Alguns atletas Olímpicos têm dado voz a preocupações que são coerentes com as dos ativistas. Por exemplo, Laurence Halsted, que foi duas vezes para as Olimpíadas como esgrimista do time do Reino Unido (2012 e 2016) tem falado das desvantagens ambientais das Olimpíadas e encorajado os atletas a fazerem algo pelo o que eles acreditam, mesmo se isso significar criticar os Jogos Olímpicos. Grupos ativistas podem se engajar para alcançar taticamente atletas e celebridades específicos em um esforço para se unir para desafiar os elementos desagradáveis das Olimpíadas. O renascimento mais amplo do ativismo dos atletas que estamos observando atualmente representa oportunidades. Para além da esfera do esporte, celebridades constituem um grupo com poder cultural de um alcance tremendo. Em Los Angeles, onde as celebridades povoam o terreno social, essa linha de ação parece ser particularmente possível.

Conclusão

Nada disse será fácil. Um obstáculo importante para a reforma das Olimpíadas é o próprio Comitê Olímpico Internacional. Quando, em 2013, Thomas Bach foi eleito o nono presidente do COI, muitas pessoas se encheram de esperanças, considerando seus comentários públicos sobre as necessidades de se reestruturar as Olimpíadas. Mas uma vez que ele se estabeleceu nos escritórios do COI, em Lausanne, ficou claro que Bach estava disposto a fazer o mínimo para os Jogos abordarem as preocupações acima, enquanto produzia um tsunami de materiais de relações públicas que exagerava o reformismo do COI. As recomendações da “Agenda 2020”, que passaram com unanimidade em dezembro de 2014, são um exemplo claro dessa dinâmica.

A marca do COI de camuflar a intransigência foi mostrada quando o grupo se reuniu em Buenos Aires para os Jogos Olímpicos da Juventude em outubro de 2018. O COI convidou um punhado de críticos para participar do seu “Fórum Olimpismo em Ação”, incluindo Chris Dempsey, que ajudou a liderar a campanha bem-sucedida contra os Jogos em Boston. Chris foi massacrado no palco por quatro palestrantes favoráveis aos jogos—Mariana Behr do Rio 2016, Paul Deighton de 2012, John Furlong de Vancouver 2010 e Yang Shu’an de Pequim 2022—e um moderador, a comentarista britânica Sonali Shah, da BBC, que consistentemente direcionou a discussão para a zona de conforto dos promotores dos Jogos enquanto argumentava de forma humorada que lugares como Tóquio tinham reduzido os custos dos Jogos Olímpicos de 2020. (Na realidade, o custo de Tóquio 2020 foi para as alturas subindo de US$7,3 bilhões no tempo da proposta para US$25 bilhões hoje, podendo ainda aumentar). Chris tentou trazer a questão de que nem a “Agenda Olímpica 2020” nem a tão proferida “Nova Norma” fizeram algo para mudar a estrutura de incentivos da economia Olímpica e também o fato de que os contratos das cidades-sedes ainda ditam que os custos excedentes serão cobertos pelos anfitriões. Esse ponto de vista de mudanças ganhou pouca força nas bases do COI.

Para enfatizar o desafio, em meio às reuniões de Buenos Aires, o Diretor de Comunicações do COI, Mark Adams, abertamente canalizou sua própria versão de Brett Kavanagh. Quando um jornalista teve a temeridade de sugerir no Twitter que o Presidente da Comissão de Atletas do COI estava repetindo a fala parcial acerca do caso russo de doping, Mark Adams atacou, descrevendo os críticos como “um grupinho de jornalistas obscuros e rabugentos” empenhados em criticar o COI. Ele eventualmente voltou atrás em seu ataque, mas não antes de, inadvertidamente, divulgar a afirmação que fez estourar a ira dos grupos anti-Olímpicos. O episódio acentuou a difícil luta que ativistas anti-Olímpicos enfrentam, mas enquanto as Olimpíadas proliferarem os problemas delineados acima, nós devemos continuar vendo uma dissidência continua e vociferante.

Essa matéria faz parte de uma série de ensaios que discutem a sociedade civil, protestos e os megaeventos esportivos. Veja a matéria que introduz a série aqui, e para ver a série completa, em inglês, clique aqui.

Jules Boykoff, professor de Ciência Política na Pacific University em Oregon, é o autor de “Jogos de Poder: Uma História Política das Olimpíadas”. Veja as referências ao seu trabalho no RioOnWatch.

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