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Pesquisadores Investigam Vilas Olímpicas e Legados Esportivos do Rio 2016

Pesquisa financiada pelo COI pretende acompanhar promessas do Comitê Rio 2016 

Dotar a cidade do Rio de Janeiro de infraestrutura e programas de apoio e fomento ao esporte e à prática de atividade física é um dos principais legados sociais contidos no Dossiê de Candidatura do Rio de Janeiro para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016. A promessa do Comitê Organizador Rio 2016 chamou a atenção das pesquisadoras cariocas Prof. Dra. Arianne Carvalhedo Reis, da Universidade Southern Cross na Austrália, e Prof. MSc. Fabiana Rodrigues de Sousa-Mast, da Universidade de Basel na Suíça, que juntas desenvolvem o projeto “Rio 2016 e os Legados para o Esporte”.  A pesquisa pretende identificar, antes, durante e depois dos Jogos de 2016, o grau de envolvimento de diferentes comunidades cariocas em esportes e atividades fisicas, além de acompanhar o efetivo processo de construção e estabelecimento dos legados prometidos pelo Comitê Rio 2016, assim como pelas diferentes esferas do governo, que vêm usando os Jogos como mote para diversos projetos e reformas.

Na fase inicial da pesquisa, realizada em 2011 em parceria com a Prof. Dra. Luilma Albuquerque Gurgel, do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Estadual do Ceará, foi investigada a percepção de profissionais da educação física, que atuam no Rio de Janeiro, sobre o impacto a médio e longo prazo dos Jogos Olímpicos no número de participantes em esportes e atividades físicas. Foram entrevistados profissionais de diferentes áreas de atuação, desde professores de educação física escolar a treinadores de alto rendimento, passando por profissionais atuando em academias e recreação. A maior parte dos entrevistados não conseguiu perceber como consequência dos Jogos Pan-Americanos de 2007 maior engajamento da população em esportes e atividades físicas, e por isso esses profissionais se mostram discrentes nos Jogos Olímpicos de 2016 como mecanismo isolado de incentivo à tais práticas. A pesquisa identificou ainda que os profissionais se mostraram indignados com o sucateamento e abandono dos equipamentos esportivos construídos para o Pan, como o Parque Aquático Maria Lenk por exemplo, que nunca chegou a atender a população de acordo com seu potencial.

Em seguida, e dessa vez com financiamento do Centro de Estudos Olímpicos do Comitê Olímpico Internacional (COI), as pesquisadoras voltaram as atenções para as Vilas Olímpicas do Rio de Janeiro. Foram realizados uma série de encontros e entrevistas nas Vilas Olímpicas situadas na Gamboa, Complexo da Maré, Mato Alto (Jacarepaguá) e Fazenda Acari. Alunos, pais de alunos, professores e funcionários participaram das entrevistas. O objetivo era investigar o papel das Vilas Olímpicas na construção de um cultura esportiva alinhada aos valores Olímpicos de vida ativa e saudável, assim como levantar dados que pudessem contribuir para o planejamento de legados esportivos que sirvam à população carioca. Além disso, as pesquisadoras lançaram um olhar sobre o grau de conhecimento e aprovação dos entrevistados quanto ao projeto oficial para os Jogos Olímpicos no Rio. Nessa fase, o projeto contou com a colaboração do Prof. MSc. Marcelo Carvalho Vieira, do Instituto Estadual de Cardiologia do Rio de Janeiro.

Falta de investimentos e discontinuidade dos programas oferecidos foram pontos recorrentes apontados pelos entrevistados, que foram unânimes em afirmar a importância das Vilas Olímpicas como alternativa de lazer e saúde nas comunidades pesquisadas. Entretanto, “apesar dessas constatações e das promessas contidas no Dossiê de Candidatura, a Prefeitura do Rio de Janeiro anunciou essa semana a destruição de parte da Vila Olímpica da Gamboa, onde em 2011 o Prefeito Eduardo Paes lançou o Programa Rio Em Forma Olímpico, suposto legado dos Jogos, para a construção de infraestrutura pública de transportes”, lamentou a pesquisadora Prof. Dra. Arianne Carvalhedo Reis. Ela lembrou também a preocupação de moradores de diferentes regiões da cidade quanto a desapropriação de comunidades inteiras para dar espaço às obras de infraestrutura para os Jogos de 2016, mas que nem sequer imaginavam que o próprio programa das Vilas Olímpicas poderia estar em risco. “O deslocamento de comunidades é um dos maiores temores de moradores de algumas regiões e foi apontado por entrevistados como um dos aspectos negativos dos Jogos Olímpicos”, disse. “Esse processo, sempre travestido num discurso de ‘renovação’ e ‘reurbanização’, na realidade invariavelmente afeta negativamente e beneficia os mesmos grupos: os mais pobres e vulneráveis no primeiro caso e os mais ricos e poderosos no segundo. E o pior de tudo: é recorrente em ‘cidades Olímpicas’ e bem documentado em pesquisas no mundo inteiro. Ainda assim, nada muda e a história se repete, dessa vez com um novo e triste fator agravante, a destruição de um patrimônio da população da Gamboa”, lamenta a professora de educação física carioca, agora pesquisadora na área de eventos esportivos e lazer baseada na Austrália.

Além das entrevistas conduzidas no Rio de Janeiro, as pesquisadoras tiveram acesso a documentos restritos e dossiês de candidatura de diferentes sedes olímpicas e cidades candidatas, obtidos junto à biblioteca do Centro de Estudos Olímpicos do COI em Laussane, Suiça. O relatório final com os resultados da pesquisa foi apresentado ao COI, em dezembro de 2012, e uma versão em português está sendo preparada para ser enviada às Vilas Olimpícas e às autoridades envolvidas com os Jogos no Rio de Janeiro. As pesquisadoras voltam ao Rio de Janeiro ainda esse ano para dar continuidade ao projeto, agora investigando os legados do evento na área de esporte e atividade física para mulheres de baixa renda.