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Após Estupro de Alta Visibilidade, Rio Corta Vans Usadas Pelos Pobres

Fotografias gigantes de mulheres cobrem paredes das casas na instalação do fotógrafo JR, Morro da Providencia, no Rio de Janeiro em 25 de agosto 2008. (Bruno Domingos / Reuters)

Para versão original em inglês da matéria por David Lavin na revista The Atlantic clique aqui.

Ao invés de melhorar a eficácia da policia, a cidade inexplicavelmente corta uma importante forma de transporte.

RIO DE JANEIRO–Depois que uma brasileira foi estuprada por operadores de van aqui, a polícia não fez nada. Quando um casal de turistas foram sequestrados e violentados pelos mesmos homens uma semana depois, a polícia pegou os suspeitos rapidamente. Em seguida a Prefeitura usou o incidente para implementar uma mudança na política de transportes que dá a ilusão de segurança, sem abordar as verdadeiras questões por detrás do crime.

A Prefeitura do Rio usou o evento para banir o transporte público das vans nas áreas mais visitadas da cidade, prejudicando os pobres da cidade enquanto não faz nada para mudar atitudes sobre estupro.

Os detalhes do sequestro brutal e estupro do casal de estrangeiros no Rio de Janeiro tem sido amplamente cobertos pelas mídias nacionais e internacionais, mas a resposta da Prefeitura sugere que estupros aqui não são tratados com seriedade e ressalta a realidade que justiça para os mais abastados e para os estrangeiros aqui é dramaticamente diferente daquela para o pobre. O episódio é ainda outro exemplo da maneira em que o foco nas Olimpíadas está direcionando as políticas públicas no Rio. A cidade coloca problemas reais debaixo do tapete a fim de manter a imagem do Rio e servir às necessidades de seus hóspedes estrangeiros.

A resposta da Prefeitura sugere que o estupro não é tratado como um problema sério. E é mais um exemplo da forma como o foco na próxima Olimpíada está dirigindo a política pública no Rio de Janeiro.

Em 30 de março, dois estrangeiros foram sequestrados, após embarcar no transporte público, no caso uma das milhares de vans ubíquas que perpassam o Rio de Janeiro. É provável que escolheram pegar uma van ao invés de táxi ou ônibus porque as vans são muito mais baratas que os táxis e são vistas como mais rápidas em comparação ao sistema público de ônibus. Originalmente, estas companhias de vans se desenvolveram para servir as favelas, local de moradia de milhões de cariocas. Há muito ignorados ou negligenciados pelo sistema formal de transporte, os moradores das favelas desenvolveram seu próprio sistema de transporte informal, que hoje tem centenas de rotas e tem sido absorvido pelo sistema formal.

Os dois turistas estavam indo para uma área badalada para curtir a noite quando foram capturados pelo motorista da van e dois cúmplices, iniciando uma jornada horrível, durante a qual a mulher foi estuprada pelos três homens e bateram em seu companheiro com uma barra de metal antes que os dois fossem lançados num ponto de ônibus na periferia da cidade.

Quando os detalhes chocantes começaram a ser divulgados na mídia local, dois dos 3 acusados já haviam sido capturados. Parece que o trio estava em uma onda de criminalidade crescente começando com pequenos furtos, seguido por sequestros, e, finalmente, pelo menos outros dois sequestros-estupro antes do incidente envolvendo os estrangeiros.

Várias semanas antes uma brasileira havia sido estuprada pelos mesmos homens, na mesma van. Ela denunciou o crime para as autoridades na delegacia da mulher e a polícia não fez nada. Porém, milagrosamente, quando os mesmos homens sequestraram e estupraram uma mulher estrangeira e bateram em seu namorado, a polícia apreendeu os suspeitos em uma questão de horas.

Os oficiais que primeiramente ignoraram o caso foram demitidos, mas apenas quando a negligência deles impactou a imagem internacional do Rio. Este segundo estupro (e a atenção negativa vindo do mundo inteiro) poderia ter sido prevenido caso eles tivessem feito o trabalho para o qual eles foram contratados. Uma terceira vítima se pronunciou agora, dizendo que ela, também, fora estuprada semanas antes pelos mesmos homens mas não foi à polícia. Não era isso de se esperar dado o atendimento que a outra vítima brasileira recebeu?

Em comentários públicos recentes o Governador Cabral ressaltou que o estupro era “uma atrocidade”, mas afirmou que “não era uma prática comum.” A maioria de seus comentários foram dirigidos a imagem do Rio no exterior: “A imprensa internacional tem muita responsabilidade em destacar que esta não é uma prática comum em nossa cidade. Líderes internacionais conscientes sabem o que está acontecendo no Rio de Janeiro em relação à violência”, disse ele.

O governador apresentou várias estatísticas ressaltando a melhora na segurança da cidade, e ele está certo que a violência no Rio diminuiu dramaticamente. Porém ele não citou a estatística dos estupros, provavelmente porque a estatística de estupros aumentou 24% no último ano. Enquanto isto é sem dúvida em parte resultado de um aumento no número de registros oficiais, bem como graças a uma melhora na situação de segurança, crimes sexuais são tudo menos “incomuns”.

Só tem que olhar para os concorrentes dos motoristas de vans para ver os verdadeiros motivos para a nova proibição.

Enquanto este crime contra os turistas foi uma aberração horrível e um caso relativamente isolado, os comentários do governador demonstram que a sua preocupação encontra-se mais ligada aos “formadores de opinião internacionais” do que com as vítimas de abuso sexual no Rio.

Além de demitir os oficiais de polícia negligentes, as outras reações da Prefeitura contra o crime parecem surdas. Eles inicialmente determinaram que as vans não poderiam ter vidros escuros, o que parece uma resposta razoável. Daí veio o decreto municipal de 15 de abril, que as vans não poderiam mais circular na Zona Sul da cidade, incluindo as praias importantes de Copacabana e Ipanema. Centenas de proprietários e motoristas perderão sua fonte de renda. Milhares de moradores serão afetados negativamente. Mas como eles são na maioria pobres que trabalham–mas não administram–os estabelecimentos que servem os turistas do Rio, o acesso deles aos corredores de poder é limitado. Esta resposta realmente tem pouco a ver com a questão de segurança pública. Imagine se esse crime tivesse sido cometido por um taxista, a Prefeitura teria banido todos os táxis?

Alguém apenas precisa procurar saber quem são os concorrentes das vans para ver o verdadeiro motivo para a nova medida. As poderosas empresas de ônibus que por anos se recusaram a servir as favelas estão agora enfrentando a popularidade dessas vans. As vans custam menos, são mais rápidas e tem rotas mais variadas, deixam os passageiros onde eles querem, e tarde da noite quando os ônibus estão vazios, as vans parecem mais seguras por estarem cheias de passageiros voltando para suas casas nos subúrbios após um longo dia de trabalho. Mas com o grande problema de transporte e mobilidade no Rio, que continuará a ser o foco da capacidade da cidade a lidar com a vinda dos mega-eventos, as empresas de ônibus empunham muito poder. Elas têm tentado eliminar as vans das ruas há muito tempo, sob a desculpa de melhorar o trânsito. As empresas de ônibus e a Prefeitura aproveitaram essa tragédia para implementar a medida, tudo sobre a fachada de segurança pública.

Esta nova política diminui as opções de transporte na cidade, dividindo ainda mais os ricos e pobres e concentrando ainda mais poder nas empresas de ônibus. A medida não altera em nada o problema da segurança pública das mulheres, ou a eficiência da polícia que há muito tem condenado a cidade.

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