{"id":13310,"date":"2015-01-31T13:30:52","date_gmt":"2015-01-31T16:30:52","guid":{"rendered":"http:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=13310"},"modified":"2024-06-20T16:29:30","modified_gmt":"2024-06-20T19:29:30","slug":"porto-porta-de-entrada-do-rio-parte-ii-a-apropriacao-e-despolitizacao-da-memoria-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=13310","title":{"rendered":"Porto, Porta de Entrada do Rio, Parte II: A Apropria\u00e7\u00e3o e Despolitiza\u00e7\u00e3o da Mem\u00f3ria Negra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong><a href=\"http:\/\/bit.ly\/1FXjKrQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Click Here for English<img decoding=\"async\" width=\"20\" height=\"20\" class=\"alignright wp-image-15790\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/EN-standard-e1439583104716.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Essa \u00e9 a segunda\u00a0parte de uma <a href=\"http:\/\/bit.ly\/16bu0AT\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">s\u00e9rie de quatro artigos<\/a> sobre a Zona Portu\u00e1ria do Rio de Janeiro.<\/em><\/p>\n<p>Como vimos no <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1p2voxl\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">primeiro<\/a> artigo desta s\u00e9rie, a <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1cVBDvL\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Zona Portu\u00e1ria<\/a> foi continuamente moldada por projetos urban\u00edsticos que constru\u00edam uma cidade fundamentada na explora\u00e7\u00e3o do trabalho negro, e que ao mesmo tempo reafirmavam o n\u00e3o-pertencimento dessa popula\u00e7\u00e3o \u00e0s suas \u00e1reas privilegiadas atrav\u00e9s das <a href=\"http:\/\/bit.ly\/X51Qvb\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pr\u00e1ticas governamentais de remo\u00e7\u00e3o<\/a> e exterm\u00ednio, presentes at\u00e9 <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1vjmT40\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">os dias de hoje<\/a>. A Zona Portu\u00e1ria e a sua popula\u00e7\u00e3o negra, alvo tanto de remo\u00e7\u00f5es (quando classificados como \u201cinvasores\u201d) quanto de exterm\u00ednio (quando classificados como \u201ccriminosos\u201d, \u201ctraficantes\u201d, etc.) podem nos ajudar a entender essa cidade em que a popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 marginalizada e exterminada, mas que tem certos elementos de sua <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1ruUDso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cultura<\/a> utilizados como fontes de atra\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria tur\u00edstica. Afinal de contas, como explicar uma regi\u00e3o onde o <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1xQN8xr\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">circuito da Heran\u00e7a Africana<\/a> se tornou um dos maiores atrativos tur\u00edsticos, mas onde, ao mesmo tempo, as ocupa\u00e7\u00f5es urbanas, com uma maioria de habitantes negros e negras, foram removidas ou despejadas?<\/p>\n<p>Na verdade, por d\u00e9cadas depois das tentativas de embranquecimento que ocorreram no fim do s\u00e9culo 19 e no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, o discurso adotado pela Prefeitura e seus arquitetos\u00a0ainda procurava majoritariamente enfatizar ou valorizar as \u00e1reas da regi\u00e3o mais associadas com as ra\u00edzes europeias e com o catolicismo. Mesmo depois do reconhecimento do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/VVrdp9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Quilombo da Pedra do Sal<\/a> como patrim\u00f4nio material do Estado do Rio de Janeiro em 1987, o Morro da Concei\u00e7\u00e3o (do qual a Pedra do Sal faz parte) foi continuamente retratado como um pequeno Portugal no Rio de Janeiro, cujos moradores \u201cleg\u00edtimos\u201d e \u201cdesej\u00e1veis\u201d eram descendentes de portugueses ou espanh\u00f3is. Essas defini\u00e7\u00f5es exclu\u00edam moradores de origem nordestina, e\/ou aqueles que haviam ocupado espa\u00e7os abandonados, que eram por sua vez vistos tanto por determinados moradores do local quanto por planejadores urbanos como \u201cindesej\u00e1veis\u201d e \u201cdescart\u00e1veis\u201d. De acordo com essa hist\u00f3ria euroc\u00eantrica da regi\u00e3o, as casas de c\u00f4modo e corti\u00e7os eram formas de habitar insalubres, e sua popula\u00e7\u00e3o \u201cpolu\u00eda\u201d um espa\u00e7o \u201cbranco\u201d e &#8220;de respeito\u201d. Mais tarde, isso foi associado ao tr\u00e1fico de drogas, e a\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/UBMUVJ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">favela da Provid\u00eancia<\/a>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_13322\" aria-describedby=\"caption-attachment-13322\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13322\" title=\"Provid\u00eancia - p\u00f4ster do Porto Maravilha\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Screen-Shot-2014-12-22-at-4.35.28-PM.jpg\" alt=\"Provid\u00eancia - p\u00f4ster do Porto Maravilha\" width=\"620\" height=\"287\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Screen-Shot-2014-12-22-at-4.35.28-PM.jpg 1000w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Screen-Shot-2014-12-22-at-4.35.28-PM-570x264.jpg 570w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Screen-Shot-2014-12-22-at-4.35.28-PM-620x287.jpg 620w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-13322\" class=\"wp-caption-text\">Provid\u00eancia &#8211; p\u00f4ster do Porto Maravilha<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os valores ou qualidades associados \u00e0s diversas \u00e1reas da Zona Portu\u00e1ria fazem parte, portanto, de um imagin\u00e1rio que, de acordo com essas classifica\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas de ra\u00e7a, etnia, religi\u00e3o e classe definem o que pode ser modificado, exclu\u00eddo ou soterrado, e aquilo que deve ser enfatizado e celebrado. Essa ordem hier\u00e1rquica fica bastante clara mais especificamente em 2001, no <a href=\"http:\/\/bit.ly\/UR7rn7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano Porto do Rio<\/a>,\u00a0por exemplo, atrav\u00e9s de tr\u00eas linhas de interven\u00e7\u00e3o que foram estabelecidas de acordo com as \u201cnecessidades\u201d e possibilidades associadas a cada \u00e1rea da regi\u00e3o. A primeira linha de interven\u00e7\u00e3o previa a atra\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia e o incentivo ao turismo nos morros da Concei\u00e7\u00e3o, do Livramento e do Pinto, j\u00e1 que essas \u00e1reas eram associadas com um \u201calto valor hist\u00f3rico, paisag\u00edstico e cultural\u201d desde as patrimonializa\u00e7\u00f5es feitas no projeto SAGAS (acr\u00f4nimo para os bairros da Sa\u00fade, Gamboa e Santo Cristo), em 1988.<\/p>\n<p>As \u00e1reas n\u00e3o inclusas nesta defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinham, portanto, o mesmo valor hist\u00f3rico, paisag\u00edstico e cultural, e a elas eram reservadas outras pol\u00edticas p\u00fablicas, como as da segunda linha de interven\u00e7\u00e3o. Essas, reservavam para a favela da Provid\u00eancia e para o Caju as pol\u00edticas como as do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1DxjjnW\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">programa Favela-Bairro<\/a> que, iniciadas em 1994, promoviam uma s\u00e9rie de obras para \u201cintegrar\u201d a favela ao resto da cidade. De acordo com essas pol\u00edticas, portanto, as \u00e1reas n\u00e3o associadas ao passado e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o branca de classe m\u00e9dia devem ser adaptadas ao padr\u00e3o da cidade \u201cformal\u201d, atrav\u00e9s principalmente da entrada das empresas prestadoras de servi\u00e7os (como os de \u00e1gua e luz) que j\u00e1 existiam informalmente nas favelas.<\/p>\n<p>Finalmente, a terceira linha de interven\u00e7\u00e3o indicava a explora\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria das \u00e1reas dos armaz\u00e9ns, que, numa \u00e1rea com um dos menores IDHs da cidade, tinham como p\u00fablico-alvo funcion\u00e1rios p\u00fablicos que ganhassem em torno de 10 sal\u00e1rios m\u00ednimos, ou, em outro projeto, fam\u00edlias com renda superior a tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos.<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrarmos que essas tentativas de embranquecer o espa\u00e7o e a mem\u00f3ria nunca foram aceitas passivamente por aqueles \u201csoterrados\u201d a cada projeto urban\u00edstico idealizado para a regi\u00e3o. A onda de expuls\u00e3o de ocupantes de edif\u00edcios privados ou p\u00fablicos foi desafiada atrav\u00e9s da reivindica\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria negra e do pertencimento dos ocupantes \u00e0 regi\u00e3o atrav\u00e9s dessa hist\u00f3ria. Isso fica evidente, por exemplo, no uso de nomes referentes \u00e0 hist\u00f3ria negra de luta em ocupa\u00e7\u00f5es urbanas (como as ocupa\u00e7\u00f5es\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/18Cn2FK\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Zumbi dos Palmares<\/a>, Machado de Assis, Mariana Crioula, Chiquinha Gonzaga, e\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1hmeCo1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Quilombo das Guerreiras<\/a>).<\/p>\n<figure id=\"attachment_13323\" aria-describedby=\"caption-attachment-13323\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-13323\" title=\"Pedra do Sal - p\u00f4ster do Porto Maravilha\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Screen-Shot-2014-12-22-at-4.36.37-PM.png\" alt=\"Pedra do Sal - p\u00f4ster do Porto Maravilha\" width=\"620\" height=\"318\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Screen-Shot-2014-12-22-at-4.36.37-PM.png 1000w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Screen-Shot-2014-12-22-at-4.36.37-PM-515x264.png 515w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Screen-Shot-2014-12-22-at-4.36.37-PM-620x318.png 620w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-13323\" class=\"wp-caption-text\">Pedra do Sal &#8211; p\u00f4ster do Porto Maravilha<\/figcaption><\/figure>\n<p>Projetos de homogeneiza\u00e7\u00e3o da cidade encontraram resist\u00eancia tamb\u00e9m quando, no final de 2005, fam\u00edlias que enfrentavam uma onda de despejos e realoca\u00e7\u00f5es ao longo de\u00a02005 por parte da Vener\u00e1vel Ordem Terceira de S\u00e3o Francisco da Penit\u00eancia (VoT) pleitearam o seu reconhecimento como grupo \u00e9tnico-racial da Comunidade de Remanescentes de Quilombo da Pedra do Sal. Desde ent\u00e3o, a sua luta por reconhecimento e por perman\u00eancia ativa na regi\u00e3o se tornou um s\u00edmbolo importante para recriar uma \u201ccidade negra\u201d, como <a href=\"http:\/\/bit.ly\/TuIRuN\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Maur\u00edcio Hora<\/a>, membro do Quilombo da Pedra do Sal, deixa claro: \u201cQuem \u00e9 que construiu isso tudo? Quem trabalhava no porto? Onde era o porto onde chegavam os escravos? Onde \u00e9 que esses escravos eram vendidos? Onde \u00e9 que eles eram enterrados? Vamos dizer ent\u00e3o que nenhum negro tenha morado no Morro da Concei\u00e7\u00e3o, que nenhum negro jamais viveu naqueles sobrados, que nenhum lojista tenha tido nenhum negro, que nenhum negro tenha trabalhado na Pedra do Sal?\u201d<\/p>\n<p>Foi apenas depois de reivindica\u00e7\u00f5es como essa, de reaver a cidade para aqueles que com as pr\u00f3prias m\u00e3os a constru\u00edram e constroem, que o Circuito Hist\u00f3rico e Arqueol\u00f3gico da Heran\u00e7a Africana foi instaurado em 2011, incluindo o <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1wUc8jk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cais do Valongo<\/a>, o <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1DhHrsS\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos<\/a>, o Centro Cultural Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, o Largo do Dep\u00f3sito, o Jardim Suspenso do Valongo, e a <a href=\"http:\/\/bit.ly\/VVrdp9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pedra do Sal<\/a>. O documento que foi em parte respons\u00e1vel pela defini\u00e7\u00e3o dos locais a ser inclu\u00eddos no circuito (a \u201cCarta de Recomenda\u00e7\u00f5es do Valongo\u201d) cita a tentativa hist\u00f3rica de \u201capagar tra\u00e7os do tr\u00e1fico negreiro\u201d na <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1cVBDvL\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Zona Portu\u00e1ria<\/a>, mas falha em fazer a conex\u00e3o essencial entre este passado e os dias de hoje, em que moradores negros ainda s\u00e3o sistematicamente removidos da regi\u00e3o em torno ao circuito. Sem essa conex\u00e3o, \u00e9 dif\u00edcil fazer com que essa mem\u00f3ria, justamente trazida de volta \u00e0 tona, seja utilizada para fazer as mudan\u00e7as necess\u00e1rias para o alcance da justi\u00e7a racial.<\/p>\n<figure id=\"attachment_13318\" aria-describedby=\"caption-attachment-13318\" style=\"width: 621px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13318\" title=\"Oswaldo Almeida\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/IMG_1002.jpg\" alt=\"Oswaldo Almeida\" width=\"621\" height=\"414\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/IMG_1002.jpg 1000w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/IMG_1002-396x264.jpg 396w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/IMG_1002-620x414.jpg 620w\" sizes=\"(max-width: 621px) 100vw, 621px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-13318\" class=\"wp-caption-text\">Sr. Oswaldo Almeida: &#8220;Ningu\u00e9m podia fazer barulho, porque sen\u00e3o a pol\u00edcia vinha prender.\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<p>Como afirmado na \u201cCarta de Recomenda\u00e7\u00f5es do Valongo\u201d, as entidades administradoras do circuito realmente levaram as a\u00e7\u00f5es relacionadas ao circuito al\u00e9m da sinaliza\u00e7\u00e3o com placas, principalmente gra\u00e7as \u00e0s atividades promovidas por diversos grupos e coletivos ligados ao Movimento Negro no Rio de Janeiro. Por\u00e9m, ainda podemos ver a promo\u00e7\u00e3o da desconex\u00e3o entre a explora\u00e7\u00e3o do trabalho negro e o embranquecimento da cidade ontem e hoje no pr\u00f3prio conte\u00fado dos murais explicativos dentro do container do Porto Maravilha, estacionado bem ao lado do Cais do Valongo. Neles, o passado de trabalho negro for\u00e7ado que permeia o passado da Pedra do Sal foi supostamente substitu\u00eddo pelo samba e tornou-se o lugar onde \u201cestivadores reuniam-se para cantar e dan\u00e7ar\u201d. A persegui\u00e7\u00e3o policial \u00e0s rodas de samba, \u00e0s pr\u00e1ticas de candombl\u00e9 associadas \u00e0 Pedra do Sal, e as pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de trabalho e discrimina\u00e7\u00e3o associadas \u00e0 vida dos estivadores n\u00e3o s\u00e3o mencionadas&#8211;isto \u00e9, no discurso da concession\u00e1ria, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para continuidades entre passado e presente.<\/p>\n<p>Estas mem\u00f3rias s\u00e3o mantidas vivas por moradores como Oswaldo Almeida, de 79 anos, morador da Rua Camerino, que relata como as atividades das casas de candombl\u00e9 e umbanda da regi\u00e3o, das quais sua m\u00e3e participava, tinham de ser mantidas em segredo. Segundo ele, os terreiros tinham de ser \u201ctodos fechados, tinha que ser escondido. Ningu\u00e9m podia fazer barulho, porque sen\u00e3o a pol\u00edcia vinha prender\u201d. Considerando ent\u00e3o esta hist\u00f3ria alternativa, podemos imaginar que o canto e a dan\u00e7a dos estivadores em locais como a Pedra do Sal (seja no s\u00e9culo 19 ou no s\u00e9culo 20, como lembra Oswaldo), enfrentava uma repress\u00e3o di\u00e1ria da pol\u00edcia e estabelecia um papel importante na resist\u00eancia cultural negra. Sem espa\u00e7o para estas mem\u00f3rias de luta e repress\u00e3o no discurso oficial do Circuito da Heran\u00e7a Africana, as conex\u00f5es que poderiam ser feitas entre este passado e a atual persegui\u00e7\u00e3o policial-militar aos <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1kKdVRX\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">bailes funks<\/a> nas favelas \u201cpacificadas\u201d da cidade s\u00e3o ignoradas, e a injusti\u00e7a se repete.<\/p>\n<p>Estas \u201caus\u00eancias\u201d podem ser explicadas, em primeiro lugar, pelo fato de que, como os murais no container da Porto Maravilha mais uma vez demonstram, a pesquisa arqueol\u00f3gica e seus resultados s\u00e3o vistos como uma forma de \u201cagregar valor\u201d ao processo de revitaliza\u00e7\u00e3o, que revela \u201ctesouros\u201d da hist\u00f3ria da regi\u00e3o. Fica bem claro, na escolha de linguagem nos murais, que projetos como o Circuito da Heran\u00e7a Africana s\u00e3o vistos como produtos (os \u201ctesouros&#8221;) que, na l\u00f3gica do mercado, podem e devem ser vendidos. Como tais, eles podem ser manipulados para dar legitimidade (para \u201cagregar valor&#8221;) ao processo de reformas da Zona Portu\u00e1ria que, afinal, n\u00e3o foi majoritariamente planejado para beneficiar as popula\u00e7\u00f5es mais pobres. Para elas, como j\u00e1 vimos, s\u00e3o reservados planos de integra\u00e7\u00e3o desigual \u00e0 cidade atrav\u00e9s da militariza\u00e7\u00e3o do quotidiano que \u00e9 promovida nas Unidades de Pol\u00edcia\u00a0\u201cPacificadora\u201d. Na pr\u00e1tica, o estabelecimento do Circuito da Heran\u00e7a Africana n\u00e3o parece ter a inten\u00e7\u00e3o de criar uma sociedade mais justa para negros e negras, exceto pelos momentos em que a popula\u00e7\u00e3o negra se apropria desse espa\u00e7o para reivindic\u00e1-lo, como ocorreu por exemplo na comemora\u00e7\u00e3o do Centen\u00e1rio de Abdias do Nascimento, no Cais do Valongo, em mar\u00e7o de 2014.<\/p>\n<figure id=\"attachment_13321\" aria-describedby=\"caption-attachment-13321\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13321\" title=\"Arqueologia - p\u00f4ster do Porto Maravilha\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Screen-Shot-2014-12-22-at-4.34.11-PM.jpg\" alt=\"Arqueologia - p\u00f4ster do Porto Maravilha\" width=\"620\" height=\"328\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Screen-Shot-2014-12-22-at-4.34.11-PM.jpg 1000w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Screen-Shot-2014-12-22-at-4.34.11-PM-499x264.jpg 499w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Screen-Shot-2014-12-22-at-4.34.11-PM-620x328.jpg 620w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-13321\" class=\"wp-caption-text\">Arqueologia &#8211; p\u00f4ster do Porto Maravilha<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9 atrav\u00e9s do reconhecimento das falhas fundamentais no discurso de mem\u00f3ria negra promovido pela parceria p\u00fablico-privada Porto Maravilha que podemos entender, por exemplo, o fato de que um lugar t\u00e3o importante quanto o Instituto Pretos Novos, no Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos, anunciou, no dia 3 de dezembro de 2014, que fecharia suas portas devido \u00e0 falta de aux\u00edlio por parte da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Apenas depois de tomada a decis\u00e3o por parte da fam\u00edlia que administra o instituto, representantes da Prefeitura na regi\u00e3o se manifestaram com promessas de maior assist\u00eancia.<\/p>\n<p>Um projeto urban\u00edstico que se utiliza da cultura e hist\u00f3ria negra para \u201cagregar valor\u201d a seus empreendimentos, mas que d\u00e1 pouca ou nenhuma aten\u00e7\u00e3o \u00e0 luta por igualdade e justi\u00e7a racial demonstra sua verdadeira fun\u00e7\u00e3o quando estudamos, por exemplo, os <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1pgsdwY\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">condom\u00ednios fechados de luxo<\/a> que em breve ser\u00e3o inaugurados na regi\u00e3o, como veremos no terceiro artigo da s\u00e9rie. Numa cidade onde os 3 milh\u00f5es de negros e negras que comp\u00f5e aproximadamente metade da sua popula\u00e7\u00e3o \u00e9 relegado \u00e0s periferias com a menor renda familiar, \u00e9 f\u00e1cil imaginar quem ser\u00e3o os habitantes desse tipo de empreendimento. \u00c9 a apropria\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria negra para apresent\u00e1-la de forma seletiva e despolitizada que permite \u00e0s institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis pelas reformas da Zona Portu\u00e1ria utiliz\u00e1-la como um produto ou agente de valoriza\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o idealizado para a popula\u00e7\u00e3o branca de classe m\u00e9dia\/alta. Se no passado, os corpos dos negros eram as mercadorias, hoje, parece ser a sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p><em><em><em><em>Essa \u00e9 a\u00a0segunda<strong>\u00a0<\/strong>parte\u00a0de uma\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/16bu0AT\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">s\u00e9rie de quarto artigos<\/a> sobre a Zona Portu\u00e1ria\u00a0do Rio de Janeiro. Volte logo para as demais.<\/em><\/em><\/em><\/em><\/p>\n<p><em>Eduarda Araujo \u00e9 carioca e estudante da Brown University em Estudos da \u00c1frica e da Di\u00e1spora. Ela pesquisa sobre o racismo estrutural e resist\u00eancia negra nos processos de forma\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano no Rio de Janeiro.<\/em><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Click Here for English Essa \u00e9 a segunda\u00a0parte de uma s\u00e9rie de quatro artigos sobre a Zona Portu\u00e1ria do Rio de Janeiro. 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