{"id":13547,"date":"2015-02-20T10:27:42","date_gmt":"2015-02-20T13:27:42","guid":{"rendered":"http:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=13547"},"modified":"2024-06-20T13:36:51","modified_gmt":"2024-06-20T16:36:51","slug":"a-midia-nao-se-importa-com-o-que-acontece-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=13547","title":{"rendered":"A M\u00eddia N\u00e3o Se Importa Com O Que Acontece Aqui [V\u00cdDEO]"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong><a href=\"http:\/\/nyti.ms\/17zd9rb\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Click Here for English<img decoding=\"async\" width=\"20\" height=\"20\" class=\"alignright wp-image-15790\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/EN-standard-e1439583104716.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Leia\u00a0a mat\u00e9ria original por Matthew Shaer\u00a0em ingl\u00eas no site do The New York Times\u00a0<a href=\"http:\/\/nyti.ms\/1DvGjWx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.\u00a0O RioOnWatch traduz mat\u00e9rias do ingl\u00eas para que brasileiros possam ter acesso e acompanhar\u00a0temas ou an\u00e1lises cobertos fora do pa\u00eds que nem sempre s\u00e3o cobertos no Brasil.<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<h3>O jornalismo amador pode trazer justi\u00e7a para as favelas do Rio?<\/h3>\n<p>As favelas do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/U0MiGm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Complexo do Alem\u00e3o<\/a>, um dos maiores conjuntos de favelas urbanas do Brasil, debru\u00e7am-se sobre 700 acres em morros da <a href=\"http:\/\/bit.ly\/WximDf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Zona Norte<\/a> do Rio de Janeiro, n\u00e3o t\u00e3o distante do aeroporto internacional da cidade. Cercado em tr\u00eas lados por estradas e no quarto por serras verdes, j\u00e1 n\u00e3o d\u00e1 mais para o Complexo do Alem\u00e3o crescer para os lados e, por isso, ele vem crescendo para cima, em conglomera\u00e7\u00f5es cada vez mais inst\u00e1veis feitas de caixas de concreto de quatro andares. &#8220;O av\u00f4 constr\u00f3i o primeiro andar, o filho faz o segundo, o neto sobe o terceiro e o bisneto o quarto&#8221;, contam os moradores, com gosto. Vergalh\u00f5es brotam dos tetos \u00e0 espera da constru\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo andar e da futura gera\u00e7\u00e3o que vai ocupar o terreno.<\/p>\n<p>Em uma noite do \u00faltimo m\u00eas de abril, a moradora Arlinda Bezerra de Assis, de 72 anos, colocou os p\u00e9s para fora da frente da sua casa e saiu pelo emaranhado de ruelas do bairro junto com seu neto de 10 anos. Fazia horas que a pol\u00edcia trocava tiros com os traficantes, mas o barulho dos tiros parecia ter diminu\u00eddo e Arlinda, conhecida como Dona Dalva no Alem\u00e3o, queria devolver o neto \u00e0 m\u00e3e.<\/p>\n<p>Momentos depois, ela foi encontrada de costas no pavimento, sangrando de dois ferimentos de bala. Ela foi levada para um hospital pr\u00f3ximo, onde morreu por causa dos ferimentos. Seu neto, protegido pelo corpo da Dona Dalva, escapou ileso.<\/p>\n<p>A cerca de 400 metros de dist\u00e2ncia, um favelado de 25 anos chamado Raull recebeu uma mensagem de texto de um amigo, alertando-o sobre o tiroteio (por motivos de seguran\u00e7a, Raull pediu que eu usasse somente o seu primeiro nome). Ele colocou o telefone no bolso e caminhou at\u00e9 o local do incidente. Mais tarde, a pol\u00edcia rotulou a morte de Dona Dalva como um acidente: ela teve o azar de entrar no meio de um tiroteio, disse um comandante a um jornal local. Mas quando Raull fez sua caminhada pelo meio da multid\u00e3o, a hist\u00f3ria que ele ouviu era outra. Os tiros fatais, segundo testemunhas, foram disparados por um policial que confundiu Dona Dalva e seu neto com integrantes do tr\u00e1fico. Assim que o policial se deu conta do seu erro, disseram as testemunhas, ele correu para sua viatura e partiu em alta velocidade.<\/p>\n<p>Raull cresceu dentro do Alem\u00e3o, na regi\u00e3o leste do complexo. Quando crian\u00e7a, a coisa a mais pr\u00f3xima de um governo que ele conhecia era o Comando Vermelho, a fac\u00e7\u00e3o de venda de drogas que exercitava controle quase absoluto sobre as favelas. Mas em 2010, o governo anunciou que queria tirar o crime organizado das favelas do Rio. Naquele m\u00eas de novembro, mais de 2 mil soldados e policiais entraram no Alem\u00e3o. O Comando Vermelho foi empurrado para o <em>underground <\/em>e substitu\u00eddo nas ruas pela pol\u00edcia.<\/p>\n<p>As fac\u00e7\u00f5es de drogas do Rio frequentemente matam tanto civis quanto policiais dentro das favelas. Mas os favelados entendiam as regras dos traficantes. &#8220;Havia lugares onde a gente n\u00e3o ia e coisas que n\u00e3o se fazia&#8221;, explicou Raull. &#8220;Com a pol\u00edcia, foi diferente. Era uma ocupa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia regras. E as pessoas estavam morrendo&#8221;. De acordo com a Anistia Internacional, cerca de duas mil pessoas s\u00e3o mortas a cada ano pela pol\u00edcia brasileira, e muitas vezes com as marcas de execu\u00e7\u00f5es planejadas: ferimentos de bala na t\u00eampora ou pelas costas. Mortos por tiros da pol\u00edcia eram t\u00e3o comuns no Alem\u00e3o que eles mal eram percebidos fora das favelas. &#8220;Se aparecerem quatro ou cinco corpos, talvez seis, pode ser que seja not\u00edcia&#8221;, disse Raull. &#8220;Um corpo? Nunca. A imprensa n\u00e3o se importa com o que acontece aqui. Preferem n\u00e3o pensar no assunto&#8221;.<\/p>\n<p>No Alem\u00e3o, Raull ouvia hist\u00f3rias de como policiais \u00e0 paisana estavam executando moradores suspeitos de ter la\u00e7os com o tr\u00e1fico, de balas de alto calibre rasgando paredes de casas e matando crian\u00e7as enquanto dormiam. &#8220;A maioria dos nossos amigos de inf\u00e2ncia est\u00e1 morta&#8221;, contou ele. &#8220;Para n\u00f3s das favelas, pensamos &#8216;OK, temos a certeza de um fim violento, de um jeito ou de outro&#8221;&#8217;. Dessa realiza\u00e7\u00e3o, Raull tirou um princ\u00edpio para guiar sua pr\u00f3pria vida: &#8220;Dar o que puder, enquanto puder&#8217;.<\/p>\n<p>Ele passou v\u00e1rios anos tentando descobrir o que, exatamente, ele teria para dar. Ofereceu-se como volunt\u00e1rio em um centro de juventude no Alem\u00e3o e juntou-se \u00e0 rede local do movimento Global Occupy. Depois, um m\u00eas antes da morte da Dona Dalva, ele e v\u00e1rios amigos formaram o <a href=\"http:\/\/on.fb.me\/1my6unV\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">coletivo de m\u00eddia Papo Reto<\/a>. Como os rep\u00f3rteres de jornal e televis\u00e3o n\u00e3o colocavam os p\u00e9s no Alem\u00e3o, eles tomariam para si a tarefa de noticiar o que acontecia dentro das favelas. A inten\u00e7\u00e3o era chamar a aten\u00e7\u00e3o para as condi\u00e7\u00f5es dentro do Alem\u00e3o\u2013os apag\u00f5es, os toques de recolher, a presen\u00e7a sufocante da pol\u00edcia\u2013e alertar moradores para que evitassem \u00e1reas especialmente inst\u00e1veis. Alguns membros do Papo Reto \u00e0s vezes colaboravam com jornais no Rio; outros, como Raull, eram ativistas armados com pouco mais do que seus smartphones e tablets.<\/p>\n<p>Em poucas semanas, o Papo Reto tinha se transformado em uma esp\u00e9cie de torre de sinal para a comunidade. Os membros do coletivo recebiam fotos e v\u00eddeos de invas\u00f5es policiais e de ve\u00edculos alvejados por tiros que eram enviados por moradores do Alem\u00e3o usando o aplicativo para celulares WhatsApp. O Papo Reto disseminava as imagens em grupos de bate-papo ou no Facebook e outras m\u00eddias\u00a0sociais.<\/p>\n<figure id=\"attachment_13561\" aria-describedby=\"caption-attachment-13561\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/paporeto.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"http:\/\/nyti.ms\/1z5itZY noopener\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13561\" title=\"Integrantes do Coletivo Papo Reto em sua sede, sobre o Alem\u00e3o. Foto por Sebasti\u00e1n Liste\/Noor Images\/The New York Times. Clique para slideshow: http:\/\/nyti.ms\/1z5itZY\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/paporeto.jpg\" alt=\"Integrantes do Coletivo Papo Reto em sua sede, sobre o Alem\u00e3o. Foto por Sebasti\u00e1n Liste\/Noor Images\/The New York Times. Clique para slideshow: http:\/\/nyti.ms\/1z5itZY\" width=\"620\" height=\"417\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/paporeto.jpg 896w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/paporeto-392x264.jpg 392w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/paporeto-620x417.jpg 620w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13561\" class=\"wp-caption-text\">Integrantes do Coletivo Papo Reto em sua sede, sobre o Alem\u00e3o. Foto por Sebasti\u00e1n Liste\/Noor Images\/The New York Times. Clique para slideshow: <a href=\"http:\/\/nyti.ms\/1z5itZY\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/nyti.ms\/1z5itZY<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p>Este simples ato poderia gerar grandes repercuss\u00f5es. Ap\u00f3s a morte de Dona Dalva, Raull postou o relato de testemunhas no Instagram e Facebook ao lado de fotografias dos moradores que congregavam-se sob o brilho dos postes de luz e de um clipe de v\u00eddeo de seis segundos que mostrava o ch\u00e3o ainda manchado com o sangue da idosa. Na tarde seguinte, o Alem\u00e3o estava em chamas. \u00d4nibus foram virados e queimados. Ondas de favelados indignados sa\u00edram \u00e0s ruas do bairro para exigir justi\u00e7a para Dona Dalva. Redes de televis\u00e3o enviaram rep\u00f3rteres ao Alem\u00e3o no dia seguinte, mas logo a multid\u00e3o havia se dispersado, os inc\u00eandios foram apagados e Dona Dalva parecia ter ca\u00eddo no esquecimento. O Papo Reto conseguiu provocar um agito, mas justi\u00e7a permanecia fora do alcance. Raull foi \u00e0s redes sociais para desabafar. \u2018\u2018A favela sangra!\u2019\u2019 ele escreveu.<\/p>\n<p>A quase 8 mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, em Nova York, os posts do Raull chamaram a aten\u00e7\u00e3o de Priscila Neri, uma ativista e cineasta de 35 anos. Priscila mudou-se de S\u00e3o Paulo para Queens ainda crian\u00e7a e fala portugu\u00eas e ingl\u00eas sem sotaque. H\u00e1 seis anos, ela trabalha como gerente de programas na <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1ARGkne\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Witness<\/a>, uma organiza\u00e7\u00e3o de direitos humanos que capacita e apoia jornalistas amadores em todo o mundo. Ela vinha acompanhando o trabalho dos fot\u00f3grafos do Papo Reto desde o m\u00eas anterior, quando um dos membros do coletivo, Betinho Casas Nova, publicou um v\u00eddeo que parecia mostrar a pol\u00edcia disparando tiros de armas letais contra uma multid\u00e3o no Alem\u00e3o. &#8220;Era precisamente este o perfil de ativista com quem quer\u00edamos colaborar: gente dentro da favela, filmando sua realidade&#8221;, explicou Priscila. &#8220;Mas tamb\u00e9m era bastante aterrorizante porque o risco que eles estavam enfrentando era t\u00e3o grande&#8221;. Priscila despachou um contato da Witness no Rio para encontrar Raull e perguntar se ele teria interesse em colaborar.<\/p>\n<p>A Witness tinha uma pauta ambiciosa. \u00c0 medida que c\u00e2meras profissionais ficam mais baratas e f\u00e1ceis de usar e jornalistas estrangeiros est\u00e3o cada vez mais visados dentro de zonas de conflito, o trabalho de &#8220;cidad\u00e3os rep\u00f3rteres&#8221; vem se transformando em uma fonte vital para reportagens internacionais (uma parte significativa das fotografias que hoje saem da S\u00edria, por exemplo, \u00e9 tirada por amadores). Mas Priscila e seus colegas estavam desenvolvendo uma vis\u00e3o muito mais audaciosa do que este jornalismo cidad\u00e3o poderia virar. Eles acreditavam que imagens gravadas por moradores dos lugares mais perigosos do mundo poderiam ser usadas n\u00e3o apenas para chamar a aten\u00e7\u00e3o para as epidemias de viol\u00eancia, mas tamb\u00e9m para levar os respons\u00e1veis \u00e0 pris\u00e3o. Era uma vis\u00e3o nova de como a justi\u00e7a penal poderia evoluir na era dos smartphones, e os jovens do Papo Reto pareciam parceiros perfeitos.<\/p>\n<p>A sede da Witness fica em Fort Greene, Brooklyn, em um grande edif\u00edcio de tijolo compartilhado com diversas outras ONGs, incluindo o Museu de Arte Contempor\u00e2nea da Di\u00e1spora Africana. O espa\u00e7o \u00e9 decorado com imagens dos filmes para os quais a Witness contribuiu e mapas das \u00e1reas onde atua: \u00c1frica, \u00c1sia e Oriente M\u00e9dio. Quando n\u00e3o est\u00e3o viajando, os 32 funcion\u00e1rios da Witness trabalham em um escrit\u00f3rio de cub\u00edculos desordenados, monitorando a chegada de novos v\u00eddeos ou falando por Skype com ativistas e jornalistas cidad\u00e3os em v\u00e1rios cantos do mundo. H\u00e1 uma ilha de edi\u00e7\u00e3o, um pequeno est\u00fadio e um &#8220;museu&#8221; de dispositivos arcaicos, como filmadoras gigantes e antigas e outras de corpo de alum\u00ednio que servem de lembrete do tempo em que a Witness nasceu, ainda na era pr\u00e9-smartphone.<\/p>\n<p>A Witness foi fundada em 1992 pelo m\u00fasico e ativista Peter Gabriel junto com o <em>Lawyers Committee for Human Rights <\/em>e a <em>Funda\u00e7\u00e3o Reebok de Direitos Humanos <\/em>(em 2001, passou a atuar como uma organiza\u00e7\u00e3o independente e sem fins lucrativos). Havia muito tempo que Peter Gabriel estava interessado em criar uma ONG dedicada a v\u00eddeos amadores, mas ele n\u00e3o tinha conseguido atrair muito apoio. Isso mudou no dia 3 de mar\u00e7o de 1991, quando um encanador chamado George Holliday, de 31 anos, saiu na varanda do seu apartamento em Los Angeles e, munido de sua nova Sony HandyCam, filmou um grupo de policiais do Departamento de Pol\u00edcia de Los Angeles (L.A.P.D.) espancando um homem desarmado chamado Rodney King.<\/p>\n<p>Hoje em dia, as imagens de Holliday s\u00e3o \u00e0s vezes consideradas o primeiro v\u00eddeo viral: um clipe que culminou em uma semana de revolta popular, a pior de toda uma gera\u00e7\u00e3o. Dois policiais do L.A.P.D. foram condenados por violar os direitos humanos de Rodney King e um j\u00fari ordenou USD$3,8 milh\u00f5es para a v\u00edtima em repara\u00e7\u00f5es pelos danos em uma a\u00e7\u00e3o civil contra o munic\u00edpio que teve como base o v\u00eddeo de Holliday. Para advogados e ativistas, o julgamento foi a prova de que a maneira como determinados atos criminosos eram registrados estava prestes a mudar dramaticamente.<\/p>\n<p>Em seus primeiros anos, a Witness concentrou-se na distribui\u00e7\u00e3o de equipamentos de v\u00eddeo no exterior e em ensinar as pessoas a us\u00e1-los. Parceiros locais filmaram o tr\u00e1fico de pessoas na ind\u00fastria do sexo no Leste Europeu, despejos for\u00e7ados realizados pelo governo na Camboja e viol\u00eancia contra mulheres no Zimb\u00e1bue. At\u00e9 2010, entretanto, as filmadoras caseiras que possibilitaram o surgimento do jornalismo feito por cidad\u00e3os haviam perdido espa\u00e7o para um avan\u00e7o ainda mais arrebatador: a onipresen\u00e7a quase absoluta de c\u00e2meras em telefones celulares.<\/p>\n<p>Filmadoras eram \u00fateis, mas tamb\u00e9m eram caras, melindrosas e consp\u00edcuas. Telefones celulares, por sua vez, eram baratos, resistentes e f\u00e1ceis de esconder. O que a c\u00e2mera do celular perdia em fidelidade, compensava com a facilidade de uso e ubiquidade. Ativistas j\u00e1 n\u00e3o precisavam mais correr para casa para buscar suas filmadoras &#8211; elas j\u00e1 estavam em seus bolsos. E agora, compartilhar v\u00eddeos com uma audi\u00eancia global era uma quest\u00e3o de cliques gra\u00e7as \u00e0 explos\u00e3o das m\u00eddias sociais.<\/p>\n<p>Imagens de celulares foram vitais para sustentar os protestos do Movimento Verde Iraniano em 2009: o disparo contra Neda Agha-Soltan, iraniana morta por for\u00e7as de seguran\u00e7a do estado, foi declarado pela revista <em>Time <\/em>como &#8220;provavelmente a morte mais amplamente testemunhada em toda a hist\u00f3ria humana&#8221;, marcando uma das primeiras vezes em que uma imagem de tal repercuss\u00e3o global foi feita por um telefone. Durante as manifesta\u00e7\u00f5es da Primavera \u00c1rabe em 2010 e 2011, os manifestantes andavam com seus telefones por toda a parte, documentando seus esfor\u00e7os em imagens tr\u00eamulas que revelaram-se muito mais viscerais do que qualquer coisa filmada por equipes de reportagem profissionais.<\/p>\n<p>Ainda assim, a Witness ouvia um conjunto recorrente de frustra\u00e7\u00f5es quando conversava com manifestantes e advogados de direitos humanos. Ativistas preocupavam-se que, no meio de um dil\u00favio de v\u00eddeos amadores, os clipes mais importantes \u00e0s vezes eram ignorados. E qual era o ponto de arriscar a vida para gravar provas diretas e inquestion\u00e1veis de certas viola\u00e7\u00f5es se os infratores continuavam livres?<\/p>\n<p>Kelly Matheson, que encabe\u00e7a o programa de V\u00eddeo Como Prova da Witness, j\u00e1 pensou muito sobre esta pergunta. Criada no estado de Iowa, nos EUA, ela fala com a voz cantada e alegre de uma nativa do centro-oeste americano e um otimismo inabal\u00e1vel, algo raro entre os que trabalham pelos direitos humanos h\u00e1 tanto tempo; \u00e9 poss\u00edvel ouvir os pontos de exclama\u00e7\u00e3o em sua voz. &#8220;Minhas ra\u00edzes est\u00e3o no Iowa, mas meus p\u00e9s est\u00e3o pelo mundo afora&#8221;, ela gosta de dizer.<\/p>\n<p>Formada originalmente como advogada, Kelly deixou sua atua\u00e7\u00e3o no direito ambiental em 2003 para fazer um mestrado em cinema document\u00e1rio. Quando a Witness lan\u00e7ou o programa de V\u00eddeo Como Prova, h\u00e1 dois anos, ela come\u00e7ou a procurar precedentes jur\u00eddicos nos arquivos legais e encontrou alguns. Em 2013, um advogado da Filad\u00e9lfia, nos EUA, Larry Krasner, defendeu um homem chamado Askia Sabur que estava sendo acusado de atacar um policial. Krasner encontrou um clipe de celular gravado por uma testemunha mostrando que, na verdade, era Askia que tinha sido atacado. O juiz aceitou o v\u00eddeo como prova, e Askia foi absolvido.<\/p>\n<p>Havia tamb\u00e9m um precedente internacional. Uma d\u00e9cada antes disso, a Witness fez parceria com a Ajedi-Ka, uma ONG na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, para produzir v\u00eddeos de entrevistas feitas com crian\u00e7as que haviam sido recrutadas por uma mil\u00edcia local para lutar como soldados. As imagens foram apresentadas ao Tribunal Penal Internacional, que mais tarde condenou o l\u00edder da mil\u00edcia, Thomas Lubanga, por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. &#8220;N\u00e3o pudemos contestar as imagens visuais ou negar o \u00e1udio&#8221;, afirmou, mais tarde, o juiz que presidia sobre o tribunal. Kelly me contou que o exemplo de Lubanga mostrou que v\u00eddeos poderiam ser usados para &#8220;suprir lacunas de provas &#8220;.<\/p>\n<p>Mas casos como este eram raros. Em geral, v\u00eddeos feitos por testemunhas eram t\u00e3o tremidos que acabavam sendo amb\u00edguos ou careciam dos metadados que ajudariam a confirmar a veracidade das imagens. Em 2012, quatro policiais de S\u00e3o Paulo foram acusados do assassinato de um homem de 25 anos, suspeito de roubar carros. Uma testemunha usou um telefone celular para filmar um dos policiais. Mas os advogados de defesa argumentaram que o tiro foi um disparo acidental e que a v\u00edtima estava ferida como resultado de um tiroteio anterior. Os\u00a0quatro policiais foram absolvidos.<\/p>\n<p>E os instintos de ativistas com c\u00e2meras em punhos tamb\u00e9m poderiam se transformar numa fraqueza. Jornalistas amadores (ou cidad\u00e3os) fazem &#8220;um trabalho incr\u00edvel&#8221;, afirma Peter Bouckaert, diretor de emerg\u00eancias da ONG Human Rights Watch, &#8220;mas frequentemente com uma agenda pol\u00edtica, e precisamos filtrar isso&#8221;. H\u00e1 dois anos, viajei a Reyhanli, cidade turca na fronteira ocidental da S\u00edria, para entrevistar ativistas s\u00edrios alinhados aos rebeldes da oposi\u00e7\u00e3o.\u00a0 Eles me mostraram fotografias e v\u00eddeos que continham supostas atrocidades cometidas pelo governo de Bashar al-Assad ou por aliados. Um clipe, de dois homens sendo decapitados com uma motosserra, tinha sido claramente manipulado. Tratava-se, na verdade, de um v\u00eddeo velho de um cartel de drogas mexicano, que tinha sido dublado em \u00e1rabe.<\/p>\n<p>Mesmo os ativistas mais escrupulosos costumam filmar para conseguir o m\u00e1ximo impacto emocional; a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 incitar a indigna\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. J\u00e1 o trabalho de coletar provas requer um olhar mais frio. &#8220;Nosso instinto nos diz para filmar a po\u00e7a de sangue ou o corpo estendido no ch\u00e3o&#8221;, explicou Kelly. &#8220;Mas n\u00e3o \u00e9 instintivo se virar e filmar o n\u00famero do crach\u00e1 ou a posi\u00e7\u00e3o de uma torre de comunica\u00e7\u00f5es. Se voc\u00ea for um m\u00eddiativista, voc\u00ea n\u00e3o vai mostrar ao mundo uma torre de comunica\u00e7\u00f5es. Isso n\u00e3o interessa para o notici\u00e1rio, n\u00e3o vai mobilizar ningu\u00e9m. Mas do ponto de vista legal, esses detalhes s\u00e3o necess\u00e1rios&#8221;.<\/p>\n<figure id=\"attachment_13552\" aria-describedby=\"caption-attachment-13552\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-13552\" title=\"Raull do Coletivo Papo Reto. Foto por Sebasti\u00e1n Liste\/New York Times\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT.jpg\" alt=\"Raull do Coletivo Papo Reto. Foto por Sebasti\u00e1n Liste\/New York Times\" width=\"620\" height=\"414\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT.jpg 1050w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT-620x414.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT-942x629.jpg 942w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT-768x513.jpg 768w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT-1024x684.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-13552\" class=\"wp-caption-text\">Raull do Coletivo Papo Reto. Foto por Sebasti\u00e1n Liste\/Noor Images\/The New York Times<\/figcaption><\/figure>\n<p>Kelly come\u00e7ou a escrever um conjunto de diretrizes para a coleta de provas com v\u00eddeo que poderia ser usado tanto em oficinas ou entregue em formato de cart\u00f5es postais resumidos para ativistas na linha de frente. Filmar tomadas de perto \u00e9 importante, escreveu ela, mas tomadas abertas de 360 graus tamb\u00e9m s\u00e3o necess\u00e1rias: deve-se filmar o m\u00e1ximo poss\u00edvel dos arredores. Encontre refer\u00eancias geogr\u00e1ficas que n\u00e3o podem ser simuladas: montanhas, edif\u00edcios familiares, sinais de rua, torres de rel\u00f3gio, sugeriu Kelly. Certifique-se de que a data, hor\u00e1rio e dados do GPS da c\u00e2mera ou telefone estejam corretos. Fale essas informa\u00e7\u00f5es em voz alta, no come\u00e7o do v\u00eddeo, caso os metadados sejam danificados. Se estiver filmando anonimamente ou de forma clandestina, escreva sua localiza\u00e7\u00e3o e o hor\u00e1rio em uma folha de papel, e segure-o diretamente na frente da c\u00e2mara por no m\u00ednimo 10 segundos. E assim que voltar para casa, o ideal \u00e9 subir o clipe na nuvem com um servi\u00e7o de armazenamento criptografado.<\/p>\n<p>Kelly refor\u00e7ou a import\u00e2ncia das chamadas provas de liga\u00e7\u00e3o <em>(linkage evidence)<\/em> \u2013 n\u00fameros da placa de ve\u00edculos, padr\u00f5es de uniformes militares, closes da documenta\u00e7\u00e3o oficial \u2013 que podem ser usadas para posicionar infratores individuais dentro de uma cadeia de comando mais abrangente. Sem provas de liga\u00e7\u00e3o, h\u00e1 apenas um indiv\u00edduo culpado: um policial ou soldado desonesto que poderia estar agindo por conta pr\u00f3pria. Com elas, h\u00e1 o potencial de se responsabilizar toda uma unidade policial ou batalh\u00e3o do ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>A primeira oficina de V\u00eddeo Como Prova da Witness ocorreu no Oriente M\u00e9dio no final de 2013 e teve como objetivo documentar crimes de guerra e repress\u00f5es governamentais que decorreram da Primavera \u00c1rabe. Um ano mais tarde, a entidade decidiu expandir o programa para o Brasil, com um foco na epidemia de viol\u00eancia policial do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Como um caso de teste, o Brasil havia muito a oferecer. Desde os tempos da ditadura militar que regeu o pa\u00eds at\u00e9 os anos 80, os brasileiros t\u00eam um relacionamento carregado com a for\u00e7a policial nacional. Em algumas esferas da sociedade brasileira, a pol\u00edcia \u00e9 venerada. &#8220;Tropa de Elite&#8221;, filme de 2007 que narra as fa\u00e7anhas de uma for\u00e7a tarefa policial contra o crime organizado, est\u00e1 entre os filmes mais populares da hist\u00f3ria da Am\u00e9rica do Sul. Em outros meios, a pol\u00edcia \u00e9 vista com medo e desconfian\u00e7a. A vasta maioria das milhares de pessoas mortas pelas pol\u00edcias no Brasil a cada ano <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1syt64v\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00e9 formada por jovens e negros<\/a>, e quase nunca se ouve falar na condena\u00e7\u00e3o de policiais.<\/p>\n<p>Mas ao contr\u00e1rio da S\u00edria ou do Egito, por exemplo, o Brasil \u00e9 uma democracia em funcionamento, com um sistema jur\u00eddico por meio do qual esses casos poderiam, teoricamente, ser levados \u00e0 julgamento. Se a Witness quisesse estabelecer uma base para usar provas em v\u00eddeo para levar adiante casos de abusos de direitos humanos, o Rio de Janeiro era o lugar certo.<\/p>\n<p>Em uma tarde em janeiro, eu acompanhei Victor Ribeiro, um vide\u00f3grafo de 33 anos que serve como o ponto focal da Witness no Brasil, e Patrick Granja, um m\u00eddiativista local que eu contratei para me ajudar, a uma manifesta\u00e7\u00e3o contra o aumento da tarifa de \u00f4nibus, o segundo aumento em dois anos. Ap\u00f3s o primeiro, em 2013, centenas de milhares de jovens brasileiros foram \u00e0s ruas protestar em diversas cidades. \u00c0 medida que as manifesta\u00e7\u00f5es cresciam, elas passaram a englobar uma longa lista de queixas: corrup\u00e7\u00e3o no governo, os crescentes custos da Copa de 2014 e o sentimento cada vez mais predominante de que a maioria dos brasileiros n\u00e3o se beneficiaria com o torneio.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia, desacostumada a lidar com grandes multid\u00f5es, respondeu com o que foi amplamente visto como for\u00e7a desproporcional, e pelo menos um manifestante foi morto. Victor foi detido e passou dez noites na cadeia sob a acusa\u00e7\u00e3o de ter ateado fogo a uma cabine policial. Ele foi absolvido, diz ele, ap\u00f3s ter produzido um v\u00eddeo mostrando que ele nunca tinha nem passado perto do local em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Victor previu que em algum momento a pol\u00edcia voltaria-se contra a multid\u00e3o, e ele queria estar a postos quando isso acontecesse. &#8220;Hoje \u00e0 noite, esta manifesta\u00e7\u00e3o vai passar nas not\u00edcias, mas duvido que as grandes emissoras de televis\u00e3o mostrar\u00e3o a pol\u00edcia fazendo qualquer coisa errada&#8221;, disse ele. Para isso, tinha sua c\u00e2mera.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos em uma pra\u00e7a no centro do Rio, na frente da prefeitura, em meio a cerca de mil manifestantes, anarquistas vestindo balaclava ao lado de estudantes universit\u00e1rios de jeans desbotados e tops cor n\u00e9on. &#8220;N\u00e3o durar\u00e3o quando as bombas de g\u00e1s come\u00e7arem&#8221;, era a previs\u00e3o de Patrick para os estudantes. Tinha trazido colete anti-estilha\u00e7o, m\u00e1scara de g\u00e1s e capacete da bicicleta.<\/p>\n<p>O plano era marchar da pra\u00e7a em frente \u00e0 prefeitura at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o de trem Central do Brasil e depois fazer o mesmo percurso de volta, um trajeto de v\u00e1rios quil\u00f4metros. Os helic\u00f3pteros, da pol\u00edcia e da imprensa, pairaram no c\u00e9u. Mais manifestantes chegaram, assim como mais policiais, alguns deles com uniforme de choque, armaduras, armas e metralhadoras.<\/p>\n<p>O sol desaparecia por tr\u00e1s dos morros quando os primeiros manifestantes chegavam \u00e0 entrada da esta\u00e7\u00e3o de trem. Dentro do sagu\u00e3o, a pol\u00edcia estava esperando. Manifestantes arremessaram garrafas de vidro contra a parede. Fora, na avenida principal, um homem embrulhou a m\u00e3o numa bandeira brasileira e deu um murro na janela de um carro que passava, para depois desaparecer sob um cassetete policial.<\/p>\n<p>Senti uma m\u00e3o me puxando por tr\u00e1s; era Victor. Uma bomba de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo havia ca\u00eddo na cal\u00e7ada onde eu estava. Uma policial batia em um garoto vestindo uma camiseta de Malcolm X, encostado contra uma parede. Os propriet\u00e1rios de lojas fechavam suas portas e puxavam grades pesadas de metal sobre suas vitrines.<\/p>\n<figure id=\"attachment_13554\" aria-describedby=\"caption-attachment-13554\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13554\" title=\"Membros do Coletivo Papo Reto no Alem\u00e3o. Foto por Sebasti\u00e1n Liste\/Noor Images\/The New York Times\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT-2.jpg\" alt=\"Membros do Coletivo Papo Reto no Alem\u00e3o. Foto por Sebasti\u00e1n Liste\/Noor Images\/The New York Times\" width=\"620\" height=\"413\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT-2.jpg 1050w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT-2-396x264.jpg 396w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT-2-620x413.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT-2-1024x683.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13554\" class=\"wp-caption-text\">Membros do Coletivo Papo Reto no Alem\u00e3o. Foto por Sebasti\u00e1n Liste\/Noor Images\/The New York Times<\/figcaption><\/figure>\n<p>Mais perto da prefeitura, onde a marcha come\u00e7ou, a rua estreitou-se. Algu\u00e9m ateou fogo a uma pilha de lixo. Um anarquista arremessou uma longa l\u00e2mpada fluorescente, que quebrou-se no toldo de um restaurante pr\u00f3ximo. A pol\u00edcia avan\u00e7ou. Havia suficiente g\u00e1s lacrimog\u00eaneo e spray de pimenta no ar para dificultar a respira\u00e7\u00e3o. Eu vi Victor se abaixar e entrar em um beco, segurando a c\u00e2mera no alto.<\/p>\n<p>Um policial do choque deu uma chave-de-pesco\u00e7o em uma garota, seus p\u00e9s dando chutes para o alto e, no rosto, uma express\u00e3o de p\u00e2nico: ela n\u00e3o deveria ter mais de 18 anos. Enquanto o policial a levava para longe da multid\u00e3o, perdeu o equil\u00edbrio e tombou para tr\u00e1s, a garota caindo sobre ele. Os manifestantes pressionavam, e a pol\u00edcia os empurrava para tr\u00e1s. Victor enfiou sua lente na confus\u00e3o. Um dos policiais, escondido atr\u00e1s de uma armadura pl\u00e1stica do choque, apontou sua arma para o peito de um manifestante. &#8220;Corram!&#8221; \u2013 algu\u00e9m gritou no hora em que granadas espalhavam-se ao nosso redor. Patrick fez uma cara de dor; eu vi que tinha sangue em sua coxa.<\/p>\n<p>A gente se recomp\u00f4s vinte minutos depois em um restaurante da pra\u00e7a. A c\u00e2mera do Victor havia sido quebrada pela pol\u00edcia, mas a lente e o cart\u00e3o de mem\u00f3ria pareciam intactos. Patrick tinha sido atingido com uma pelota de uma das granadas. Ambos perguntaram se poder\u00edamos encerrar o expediente. Estava ficando tarde e queriam postar o v\u00eddeo na internet at\u00e9 a manh\u00e3 seguinte.<\/p>\n<p>Estes confrontos de rua, ocorrendo em espa\u00e7os p\u00fablicos bem movimentados e envolvendo jovens manifestantes que eram relativamente afluentes e entendidos de m\u00eddias sociais, eram, de certa maneira, f\u00e1ceis para a Witness registrar. Muito mais dif\u00edcil seria recolher estes tipos de provas em v\u00eddeo da viol\u00eancia dentro das favelas, onde a pol\u00edcia opera com impunidade quase absoluta, pessoas de fora n\u00e3o s\u00e3o bem-vindas e o simples ato de segurar um smartphone pode transformar algu\u00e9m em um alvo. &#8220;\u00c9 muito dif\u00edcil para algu\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 morador subir uma favela e come\u00e7ar a tirar fotos&#8221;, explicou Victor. &#8220;Basicamente imposs\u00edvel&#8221;. Era isso que fazia um grupo como Papo Reto t\u00e3o importante.<\/p>\n<p>As negocia\u00e7\u00f5es entre a Witness e o coletivo moviam-se de maneira delicada e lenta. &#8220;Nas favelas, h\u00e1 uma desconfian\u00e7a geral contra ONGs&#8221;, explicou Priscila Neri, &#8220;porque frequentemente uma entidade entra, leva o cr\u00e9dito pelo trabalho e desaparece outra vez&#8221;. Finalmente, no final do ano passado, Victor conseguiu marcar uma reuni\u00e3o em um centro comunit\u00e1rio do Complexo do Alem\u00e3o. Priscila e Kelly estavam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, junto com Victor e quatro membros do Papo Reto. Por quase duas horas, os representantes da Witness perguntaram aos membros do coletivo sobre as plataformas digitais que usavam, as precau\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a que tomavam e o tipo de equipamento que possu\u00edam. A preocupa\u00e7\u00e3o principal de Priscila e Kelly era o armazenamento seguro das informa\u00e7\u00f5es. Muito do material coletado pelo Papo Reto n\u00e3o era criptografado nem arquivado de forma alguma, apenas compartilhado no Facebook e WhatsApp, onde poderia acidentalmente ser apagado ou perdido.<\/p>\n<p>E embora o coletivo fizesse um trabalho extraordin\u00e1rio na coleta de v\u00eddeos filmados depois de tiroteios, at\u00e9 ent\u00e3o pouco tinha sido feito para organiz\u00e1-los. &#8220;Uma de nossas primeiras sugest\u00f5es foi criar um banco de dados&#8221;, explicou Priscila, &#8220;para mostrar os padr\u00f5es mais amplos da viol\u00eancia policial. Hoje temos v\u00e1rias estrelas no c\u00e9u, mas precisamos da constela\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<figure id=\"attachment_13555\" aria-describedby=\"caption-attachment-13555\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13555\" title=\"Membros do Coletivo Papo Reto na sede. Foto por Sebasti\u00e1n Liste\/New York Times\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT-3.jpg\" alt=\"Membros do Coletivo Papo Reto na sede. Foto por Sebasti\u00e1n Liste\/New York Times\" width=\"620\" height=\"413\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT-3.jpg 1050w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT-3-396x264.jpg 396w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT-3-620x413.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT-3-1024x683.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-13555\" class=\"wp-caption-text\">Membros do Coletivo Papo Reto na sede. Foto por Sebasti\u00e1n Liste\/Noor Images\/The New York Times<\/figcaption><\/figure>\n<p>Um m\u00eas ap\u00f3s esta reuni\u00e3o inicial, fui convidado por Victor a participar de uma oficina de V\u00eddeo Como Prova com Papo Reto. Mas poucas horas antes de nossa chegada ao Alem\u00e3o, o encontro foi desmarcado. Um membro de alto escal\u00e3o do Comando Vermelho havia sido morto em um tiroteio em outra favela, e um luto de dois dias havia sido decretado, quando pessoas de fora n\u00e3o entrariam no Alem\u00e3o.<\/p>\n<p>Dois dias depois, tentamos outra vez. Patrick dirigia seu carro, um Chevy subcompacto com portas amassadas e o tubo do exaustor ca\u00eddo.\u00a0 Atravessamos a periferia do Rio e passamos por terras ressecadas e sulcadas que eram os \u00fanicos restos vis\u00edveis de um favela que havia sido demolida pelo governo na prepara\u00e7\u00e3o para a Copa do Mundo do ano passado. O brilho do centro de cidade recuava-se atr\u00e1s de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Chegamos ao Alem\u00e3o por volta das 10h. Perto das praias do Rio, havia uma brisa, mas quanto mais entr\u00e1vamos para dentro o ar ficava mais t\u00fargido e denso; era imposs\u00edvel n\u00e3o suar, mesmo parado de p\u00e9. Acima, g\u00f4ndolas rodavam em um circuito perp\u00e9tuo, bondes fantasmas sem ningu\u00e9m dentro. O governo da cidade havia constru\u00eddo cinco esta\u00e7\u00f5es de telef\u00e9rico nas favelas alguns anos antes, na esperan\u00e7a de atrair turistas. Mas a viol\u00eancia perp\u00e9tua afastou visitantes, e os moradores da vizinhan\u00e7a preferem usar moto-t\u00e1xis, que s\u00e3o mais baratos.<\/p>\n<p>Patrick estacionou o carro e subimos uma pequena ladeira. A pol\u00edcia estava nas ruas, como de costume no Alem\u00e3o, com rifles semiautom\u00e1ticos em posi\u00e7\u00e3o de disparo e a mira apontada para o tr\u00e2nsito de pedestres. Encontramos uma lanchonete e nos sentamos em tamboretes pl\u00e1sticos em torno de uma mesa redonda. Eu reconheci a \u00e1rea de um clipe do Papo Reto que mostrava uma fileira de policiais disparando armas contra uma multid\u00e3o de favelados.<\/p>\n<p>Poucos minutos depois, Lana e Raull chegaram. Estavam munidos de seus dispositivos eletr\u00f4nicos \u2013 um tablet para Lana, um tablet e um smartphone para Raull \u2013 e seguravam os aparelhos perto do peito, como se eles pudessem oferecer alguma prote\u00e7\u00e3o. Tinham passado, disse Raull, por &#8220;uns dias ruins&#8221;. A pol\u00edcia havia parado um membro do Papo Reto e rasgado sua carteira de imprensa. Outro tinha encontrado seu apartamento revirado de cabe\u00e7a para baixo.<\/p>\n<p>Raull \u00e9 troncudo e tem os ombros largos, laqu\u00ea nos cabelos pretos, cavanhaque perfeitamente mantido e uma grandiloqu\u00eancia treinada que o faz parecer muito mais alto do que de fato \u00e9. Tem a palavra havaiana &#8220;aloha&#8221; tatuada no pesco\u00e7o e &#8220;acreditar&#8221; na parte interna do antebra\u00e7o direito. Usava um bon\u00e9 de beisebol com uma folha de maconha estampada na coroa. (&#8220;Mais para gangster rapper do que para rep\u00f3rter&#8221;, \u00e9 como um de seus amigos o descreve).<\/p>\n<figure id=\"attachment_13560\" aria-describedby=\"caption-attachment-13560\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Priscila-Neri.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13560\" title=\"Priscila Neri, em seu escrit\u00f3rio da WITNESS em Nova York. Foto por Devin Yalkin\/New York Times. Clique para ver o slideshow: http:\/\/nyti.ms\/1AS4FJz\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Priscila-Neri.jpg\" alt=\"Priscila Neri, em seu escrit\u00f3rio da WITNESS em Nova York. Foto por Devin Yalkin\/New York Times. Clique para ver o slideshow: http:\/\/nyti.ms\/1AS4FJz\" width=\"620\" height=\"418\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Priscila-Neri.jpg 890w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Priscila-Neri-392x264.jpg 392w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Priscila-Neri-620x418.jpg 620w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13560\" class=\"wp-caption-text\">Priscila Neri, em seu escrit\u00f3rio da WITNESS em Nova York. Foto por Devin Yalkin\/New York Times. Clique para ver o slideshow: <a href=\"http:\/\/nyti.ms\/1AS4FJz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/nyti.ms\/1AS4FJz<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p>Perguntei ao Raull se ele se preocupava por estar muito exposto. Afinal de contas, ele usava seu nome real no Instagram e Facebook e publicava frequentemente v\u00eddeos de outros favelados em sua conta, a fim de proteger a seguran\u00e7a das pessoas da sua rede. Balan\u00e7ou a cabe\u00e7a negativamente. &#8220;Exposi\u00e7\u00e3o, estar no olho p\u00fablico, \u00e9 tamb\u00e9m um tipo de seguran\u00e7a&#8221;, disse. Apesar disso, explicou, o que mais queria aprender com a Witness eram &#8220;protocolos apropriados de seguran\u00e7a&#8221;. Em manifesta\u00e7\u00f5es, a pol\u00edcia normalmente apontava suas armas para ele primeiro. N\u00e3o podia deixar de sentir que tinha se tornado em um homem marcado.<\/p>\n<p>Outros ativistas de direitos humanos com quem eu falei se preocupavam com o fato de que jornalistas cidad\u00e3os como Raull podem nem se dar conta de todos os riscos que correm. &#8220;Se o trabalho for interceptado&#8221;, Peter Bouckaert explica, &#8220;h\u00e1 um grande perigo de pessoas serem detidas, presas, mortas. E eu acho que Witness \u00e0s vezes subestima a sofistica\u00e7\u00e3o das ferramentas de vigil\u00e2ncia dispon\u00edveis aos governos em algumas destas \u00e1reas&#8221;. Ele lembrou de ter visitado o gabinete de Abdullah al-Senussi, temido chefe do servi\u00e7o secreto da L\u00edbia, logo depois da derrubada do governo de Qaddafi, e de ficar maravilhado com o equipamento \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o e os extensivos dossi\u00eas de ativistas, repletos com registros das redes sociais e dados de e-mail.<\/p>\n<p>Diversos grupos j\u00e1 tentaram resolver o problema da vigil\u00e2ncia de uma perspectiva tecnol\u00f3gica. Peter Bouckaert est\u00e1 desenvolvendo um cofre digital para preserva\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos. Brian Laning e Bonnie Freudinger, cientistas da universidade de Wisconsin, ganharam recentemente um financiamento da ag\u00eancia internacional de desenvolvimento dos Estados Unidos para trabalhar no <em>International Evidence Locker<\/em>, um aplicativo gratuito para smartphones. Segundo Freudinger, imagens coletadas pelo aplicativo s\u00e3o automaticamente gravadas com a posi\u00e7\u00e3o, data e hor\u00e1rio que s\u00e3o criptografadas e enviadas a dois servidores protegidos e separados. Imagens tamb\u00e9m podem ser submetidas anonimamente, e o app \u00e9 f\u00e1cil de ser deletado rapidamente de um telefone em uma emerg\u00eancia. A Witness tamb\u00e9m est\u00e1 desenvolvendo seu pr\u00f3prio software.<\/p>\n<p>Com a orienta\u00e7\u00e3o da Witness, Raull e seus colegas come\u00e7aram a tomar mais precau\u00e7\u00f5es em seu pr\u00f3prio trabalho. Pararam de publicar v\u00eddeos que revelavam o local de onde a filmagem foi feita \u2013 por meio do qual a pol\u00edcia poderia identificar a resid\u00eancia da pessoa que filmou, por exemplo. Tinham come\u00e7ado trabalhar em grupos. O pr\u00f3ximo passo seria aprender a criptografar arquivos.<\/p>\n<p>As oficinas tomariam tempo, disse Raull, mas valeriam a pena. &#8220;Porque o efeito se multiplica&#8221;, explicou. &#8220;\u00c0 medida em que as pessoas descobrem mais o que estamos fazendo, elas nos enviam mais v\u00eddeos, e n\u00f3s mostramos mais da verdade&#8221;. Ele mencionou um plano que discutiu com Victor para alcan\u00e7ar os jovens que dirigem moto-t\u00e1xis no Alem\u00e3o. Os moto-taxistas cobrem vastas \u00e1reas das favelas diariamente, e todos carregaram smartphones.<\/p>\n<p>Lana contou que sua m\u00e3e pensou que ela era &#8220;louca&#8221; de se associar com o Papo Reto, mas ela disse \u00e0 m\u00e3e que estava orgulhosa do que fazia. &#8220;Mais e mais v\u00eddeos aparecem todos os dias&#8221;, disse. &#8220;\u00c9 um processo. Mas \u00e9 algo bom, e quanto mais provas a gente conseguir produzir, mais a gente pode mostrar ao mundo l\u00e1 fora o que est\u00e1 acontecendo aqui, e melhor a situa\u00e7\u00e3o pode ficar. Podemos sonhar&#8221;.<\/p>\n<figure id=\"attachment_13557\" aria-describedby=\"caption-attachment-13557\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Coletivo-Papo-Reto-NYT-4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-13557\" title=\"Policiais patrulham a Vila Cruzeiro. 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No ano passado, Claudia Silva Ferreira, uma favelada de 38 anos, foi alvejada na garganta e no peito por policiais militares durante uma opera\u00e7\u00e3o na favela carioca Morro da Congonha e jogada, inconsciente, no portamala de uma viatura. Na estrada, a porta traseira abriu e o corpo de Cl\u00e1udia caiu para fora; ela foi arrastada por cerca de 300 metros e\u00a0 declarada morta logo em seguida em um hospital. Outro motorista filmou o incidente com uma c\u00e2mera de celular e enviou o v\u00eddeo ao jornal local Extra. A presidente Dilma Rousseff foi obrigada a denunciar as a\u00e7\u00f5es da pol\u00edcia, e os tr\u00eas oficiais envolvidos foram presos. Eles aguardam julgamento.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o Tribunal Penal Internacional est\u00e1 conduzindo investiga\u00e7\u00f5es em diversas regi\u00f5es onde v\u00eddeos produzidos por cidad\u00e3os podem trazer provas cruciais. Na Nig\u00e9ria, os procuradores est\u00e3o analisando alega\u00e7\u00f5es de que o grupo militante Boko Haram teria cometido crimes contra a humanidade. Horas de filmagens feitas com celulares mostrando os movimentos do grupo j\u00e1 foram publicadas no YouTube. E em julho, a corte manteve a decis\u00e3o de julgar al-Senussi na L\u00edbia por acusa\u00e7\u00f5es de assassinato e seu papel de repress\u00e3o dos protestos anti-Qaddafi. Segundo Peter, imagens feitas por ativistas nos protestos provavelmente seriam apresentadas pela acusa\u00e7\u00e3o como provas. Da mesma maneira, se Assad cair na S\u00edria e for julgado, a corte ter\u00e1 centenas de horas de v\u00eddeos para considerar.<\/p>\n<p>Duas semanas depois que voltei aos Estados Unidos, recebi um e-mail de Victor. A pol\u00edcia e os traficantes estavam novamente em guerra nos becos do Complexo do Alem\u00e3o, e os residentes das favelas passavam boa parte do tempo dentro de casa. No Facebook, vi o trabalho mais recente postado pelo Papo Reto. Em seus v\u00eddeos, bombas raiavam pelo c\u00e9u \u00e0 noite, e os pelot\u00f5es de pol\u00edcias armados e blindados marcharam nas ruas. Uma \u00faltima fotografia mostrava um menino em uma cama de hospital. Com curativos cobrindo seu torso, a legenda explicava que ele tinha sido v\u00edtima do fogo cruzado; levou um tiro, mas sobreviveu. &#8220;Est\u00e1 recuperando&#8221;, dizia a postagem. &#8220;Tudo vai ficar bem!&#8221;.<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o gra\u00e7as a\u00a0Paula G\u00f3es do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1Gbwprb\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Global Voices<\/a>.<\/em><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Click Here for English Leia\u00a0a mat\u00e9ria original por Matthew Shaer\u00a0em ingl\u00eas no site do The New York Times\u00a0aqui.\u00a0O RioOnWatch traduz mat\u00e9rias do ingl\u00eas para que brasileiros possam ter acesso e acompanhar\u00a0temas ou an\u00e1lises cobertos fora <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=13547\" title=\"A M\u00eddia N\u00e3o Se Importa Com O Que Acontece Aqui [V\u00cdDEO]\">[&#8230;]<\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":137,"featured_media":13552,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1618,1621,1633,1613,1616,342,1634,1638],"tags":[309,217,1530,88,1418,954,379,920,52,218],"writer":[1416],"translator":[1417],"source":[859],"ilustrador":[],"fotografo":[],"class_list":{"0":"post-13547","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-olhonaparticipacao","8":"category-destaque","9":"category-foto-reportagens","10":"category-midia-comunitaria","11":"category-qualidades-da-favela","12":"category-solucoes","13":"category-traducoes","14":"category-video","15":"tag-ativismo","16":"tag-complexo-do-alemao","17":"tag-midia-comunitaria","18":"tag-direitos-humanos","19":"tag-coletivo-papo-reto","20":"tag-liberdade-de-imprensa","21":"tag-midia-social","22":"tag-violencia-de-estado","23":"tag-violencia-policial","24":"tag-zona-norte","25":"writer-matthew-shaer","26":"translator-paula-goes","27":"source-the-new-york-times"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.6 - 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